Engraçado. Há dias passados estive pensando no começo de minha vida na medicina.
Já faz mais de quarenta e cinco anos. De formado beira quase cinquenta.
Ainda me lembro daquela data festiva, num ginásio da capital do meu estado, quando jovens esculápios recebiam os canudos, uma folha de papel que nos facultava exercer a medicina.
Mal sabíamos nós das dificuldades que iríamos enfrentar.
A inexperiência dos primeiros anos, a residência médica que se tornava obrigatória, o primeiro paciente que tínhamos de atender, a indecisão de qual fármaco receitar, se podíamos curar ou apenas atenuar-lhe o sofrimento, tudo aquilo me passou pelas lembranças.
Aqui cheguei em setembro do distante ano de um mil novecentos e setenta e sete. Ainda inseguro, titubeante, egresso de um país distante.
A primeira vez que tive de empunhar um bisturi, nesta cidade linda que me acolheu de braços abertos, confesso que minhas mãos tremulavam. Como uma bandeira hasteada a meio pau. Numa data festiva qualquer.
Trouxe do estrangeiro incontáveis novidades. Fui o pioneiro na cirurgia da próstata por via uretral. Sem incisões, sem cortes, sem abertura de cavidades que me facultassem ter acesso à bexiga depois de abrir camadas por camadas até chegar ao meu objetivo principal.
Foram anos e anos de sucessos e tentativas de melhorar meu desempenho. Não tive ajuda de colegas mais experientes na minha empreitada de cada vez mais me tornar melhor.
Acumulava noites e noites mal dormidas. De repente o telefone me intimava a voltar ao hospital. Fui o único especialista por mais de vinte anos em nossa hospitaleira cidade.
Aqui aprendi, anos mais tarde, que não se deve tratar a enfermidade. E sim o paciente que nos procura.
Naqueles verdes anos os planos de saúde ainda não existiam. Ou atendíamos aquele que pudesse pagar o tratamento, com a mesma boa vontade de tratar os desprovidos de recursos. Chamados de indigentes. O sistema único de saúde mal engatinhava. Não sei como os hospitais sobreviviam.
Confesso que o começo foi difícil.
Tinha de pular de emprego em emprego para ganhar o suficiente para começar a vida.
Ainda bem que ainda era solteiro. Não tinha bocas a tratar. Meu pai me ajudou por anos e anos a fio. Tinha casa pra morar.
Um dia, revendo tudo aquilo, do meu passado que se vai ao longe, agora mais sossegado, encontrei-me com um jovem médico em início de carreira.
Ele se desdobrava em três empregos. Percebia pouco mais de alguns míseros trocados nos plantões que duravam noites inteiras.
De manhã, bem cedo, tinha de viajar a alguma cidade fronteiriça. Ali reforçava o orçamento. Antes do meio dia já estava pronto a enfrentar mais uma onça.
Outro hospital o convocava a dar mais plantões. Era dura a sua vida. Quase tanto quanto a minha foi.
Naquele dia do nosso encontro, numa pausa para o almoço, ele me perguntou se todo começo de vida é assim.
Na intenção de não desanimá-lo apenas respondi: “não. No começo a gente tem de matar um leão a cada dia. Com o passar dos anos a lida pode piorar ainda mais. Não se apoquente. Você ainda é jovem. Tem ainda muitos leões pela frente”.
Ele mal me respondeu. Nem mesmo agradeceu ao meu conselho. Simplesmente abaixou a cabeça e me desejou boa tarde.
Naquele momento tive vontade de acrescentar: “no começo é difícil sim. Mas depois piora”.