A casa que perdeu a identidade

O primeiro investimento quando aqui cheguei, quando de regresso da Espanha, depois de trabalhar por cerca de três anos, operando dia e noite, nos três hospitais, foi comprar dois lotes, um local ermo e baldio, que daqui se avista ao longe, num bairro ainda pouco povoado, chamado de Nossa Senhora Aparecida, hoje conhecido como Centenário.

Além de ser próximo ao centro da cidade, era, e ainda o é, um local muito bom para se viver.

Minha vizinha de baixo era uma casa imensa. Edificada por um colega de fardas. Na parte de cima outra casa existia. Ali morava uma familia amistosa. Os filhos cresceram ao lado dos meus.

Era o distante ano de um mil novecentos e oitenta. Pelas minhas contas fazem mais de quarenta anos.

A cada dia acompanhava a construção. Juntava todas as sobras. Não permitia que os pedreiros desperdiçassem nada que poderia servir novamente. Pregos, restos de cimento, até mesmo recolhia sacos vazios. Para que a construção tivesse o andamento ideal para chegar a termo.

Aquela casa enorme consumia tudo que ganhava. Juntava tostões por tostões. Ao final do mês percebi que a importância que deveria gastar iria comprometer meu orçamento. Foi preciso fazer um empréstimo ao banco. Que seria pago não sei quando. Um dia o quitaria a suaves prestações.

Aquela linda morada ficou pronta depois de quase dois anos inteiros.

Ela constava de três quartos no andar de cima. Um lavabo logo a entrada. Uma sala enorme. Dois cômodos de banho na parte superior. Um escritório logo defronte a rua. Onde comecei a escrever meu primeiro livro.

Outro salão permitia ver a enorme voçoroca onde hoje está a prefeitura. Ali fiz um barzinho.

Mas, o que mais amava, era a varanda que contornava toda a casa. Tanto na parte de cima quanto na inferior.

Uma escada em madeira nobre unia os dois andares. Por ali descia para ter à cozinha. A lavanderia era anexa à sala de jantar. Outro quarto, no andar de baixo, quase não era usado.

Pois dois filhos apenas não eram o bastante para toda a edificação utilizar.

Um belo jardim ornava a entrada daquela residência. Que se entendia por um corredor inclinado. Dando para uma piscina quase sempre azul. Redonda, feita de azulejos da mesma cor azul.

Uma quadra tinta de saudades, de quando meu filho maior jogava tênis, ali foi construído um paredão. Essa mesma quadra tinha múltiplas funções. Tanto poderia ser usada para disputar partidas de vôlei. Quanto para jogar peteca. Na ausência dos meus filhos aquela quadra ficou obsoleta. Servindo apenas para que meus cães por ali andassem. Já que não era permitido que eles todos fossem a rua.

Ali morei por mais de vinte anos. Meus filhos tomaram seu rumo. E aquela casa enorme ficou grande demais para eu e minha esposa.

Não me esqueci de nomear as duas garagens. E os dois portões de ferro que um dia me esqueci de trancar. Por ali adentraram dois menores infratores. Minha moto seminova foi afanada durante a noite. Dela restaram apenas lembranças daquelas andanças de motocicleta. Com minha filhota linda na garupa.

Anos depois a velha morada foi alugada. Acompanhei passo a passo a transferência de domínio.

Passamos a morar em outro local. Num condômino elegante. Morada de muito verde e pássaros cantando.

Agora, anos e anos depois, aquela casa, minha primeira e derradeira construção, acabou se transformado em uma escolinha.

Mudaram quase tudo. Transformaram os quartos em salas de aula. Os banheiros agora servem de berçário. As salas enormes não sei qual o destino deram a elas. Creio que a piscina ainda existe. Meus cães só me lembro deles quando ali morava.

Não tenho coragem de visitar aquela casa enorme. Talvez um dia, quem sabe.

Aquela casa, construída com todo esmero, por mim edificada, tendo como construtor um mestre em construção, que foi chamado a construir moradas ao lado de Deus pai, acabou por perder a identidade.

Pra mim ela sempre vai existir. No mesmo lugar. Outros vizinhos vivem ali.

Aquela casa que perdeu a identidade nunca vai ser esquecida por mim. Ela me recorda um passado sempre lembrado. De quando jovem e cheio de sonhos.

Quando aquele jovem médico ainda morava dentro de mim.

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