“Ah, eu prefiro a chuva”…

Como o tempo anda mudado.

Dias atrás chovia um bom bocado. Enchentes escorriam pelas encostas. Cidades inteiras padeciam com a força das águas.

Hoje o sol brilha forte. Nesta linda manhã, meados do mês de março.

Parece que a chuva se despediu. A tal enchente das goiabas se foi na azulice do céu que hoje se mostra.

Em alguns cenários de nosso país ainda chove. São Paulo sofre à mercê das enchentes.

Por aqui ensejam dias quentes e ensolarados. Alguma chuvinha passageira, afinal são chuvas de verão, talvez ainda despenquem. Mas logo o inverno se mostra. Aquele friozinho gostoso, ótimo para passar a noite em boa companhia.

Tenho um conhecido, vizinho de roça, Seu Joaquim da dona Benedita, que sempre diz, com aquele sorrisão um mil e um: “prefiro a chuva a este calorão.”

De fato não é que ele tem razão?

Acordar cedo, debaixo de um sol a pino, com aquele calorão na cacunda, empunhar a foice ou a enxada, recomeçar um novo dia, não é pra quem aprecia o trabalho pesado, seja na roça carpindo mato, ou na cidade dobrando uma masseira, naquela construção que nunca acaba, a pessoa tem de ter braços fortes, ou estar acostumado ao trabalho duro.

Daí a definição dada por meu vizinho, Seu Joaquim da dona Benedita, que considera muito melhor trabalhar com a chuva caindo na cacunda do que sob um sol queimando-lhe o cocuruto.

Com ele concordo. Faço minha as suas palavras. Apesar de que meu trabalho é feito num ambiente sossegado, neste aconchego da minha sala espaçosa.

Seu Joaquim já era para estar gozando a merecida aposentaria. Só de idade ele já conta com mais de setenta anos. Fora os anos de contribuição para a previdência. Pena que ele perdeu os talões durante uma festa quando o encontraram boiando num ribeirão durante uma enchente da qual se lembra sem demonstrar emoção.

Naquela tarde de sábado, deste mês que entra em sua metade, encontrei-o prestes a entrar em casa. Já era por volta das seis e meia. A tarde noite prometia ser de chuvas intensas.

Parei um cadinho para escutar as novidades. Deixei que ele falasse durante alguns minutos.

Durante a nossa prosa amistosa soube do passamento do compadre que vivia ali pertinho.

Pedro, da dona Joana, acabou falecendo por picada de cobra. Nada puderam fazer atenuar-lhe o sofrimento. Pedro se despediu de nós sem um queixume sequer. Foi sepultado debaixo de um pé de jabuticaba. Segundo seu próprio desejo.

Foi quando ainda gostaria de saber como estava de saúde. Seu Joaquim me respondeu, se não fosse uma dorzinha no calcanhar, nada o incomodava. Era a tal de janete, melhor dita joanete, um calozinho enjoado, que o fazia mancar.

Antes da despedida, já que fazia sol, a esquentar cobertor molhado, ainda perguntei ao amigo Joaquim se ele preferia ficar sob um sol de rachar ou debaixo de uma chuvarada de fazer descer enxurrada.

“Tá doido. Que pergunta mais sem propósito. Lógico que prefiro a chuva a levar sol na cacunda. Experimenta ficar sem tomar água. Debaixo daquele solão seus miolos irão delirar. Tenho um amigo que ficou sob um sol quente demais e teve insolação. E nem a chuva deu conta de o céu ensombrar”.

Não há como discordar do amigo Joaquim. Sol quente só mesmo numa piscina azul, vendo aquelas lindas morenas tomando sol para melhorar o bronzeado.

Se existe vida melhor ainda não me contaram. Pena que o amigo Joaquim não tem tempo de desfrutar.

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