O Piu-Piu do Joãozinho

Nunca é demais esclarecer a importância daquele apetrecho meio tímido, escondido no meio das pernas, que cresce com o passar dos anos, por cima de uma bolsa que muda de nome conforme a conveniência: chamada de saco, bolsa escrotal, onde se alojam os testículos, idem chamados tentos, em número par, quando não se perde um por causas múltiplas, responsável pela fertilidade no varão, coisinha mal entendida, que tanto serve para urinar quanto para copular, e, uma vez o tempo passando, a idade chegando, se não bem cuidado pode ser relegado ao esquecimento, somente servindo para urinar. Mal conseguindo se elevar. Causando enormes transtornos a relação conjugal. Não mais satisfazendo a parceira. Que pode procurar consolo em casa alheia.

Pênis, pinto, Piu-Piu, bilau, falo, pau, cacete, membro, pistola, e por aí vamos adiante, segundo as definições correntes.

No conceito de urologista, médico especialista entendedor da matéria, pênis pode nascer livre como uma brisa, ou encapado como um guarda-chuva antes de se abrir, sede de inúmeras patologias que devem ser tratadas antes que o mal cresça.

Este órgão sexual, ou por onde a urina sai, é formado por uma pele que recobre as estruturas internas, nomeadas de corpos esponjosos ou cavernosos, tecido esponjoso, que se enche de sangue quando acontece a ereção, que tanto pode acontecer ou não, um canalzinho enfiado no meio, chamada de uretra, que nasce no final da bexiga, com múltiplas serventias.

Daí a importância de o garoto fazer a primeira consulta com o especialista antes que o mal cresça.

Um dia destes procurou-me na oficina de trabalho, idem chamada de consultório, um garotinho desacompanhado dos pais.

Seu nome era Joãozinho.

De estatura pequenina, olhinhos atentos, pele clarinha como nuvens em dia de sol, aqui compareceu na intenção de dirimir dúvidas.

Contava com dez aninhos na ocasião. No entanto parecia menos.

Meio encabulado começou a prosa dizendo: “doutor. Meu Piu-Piu nasceu encapado. A cabecinha dele nunca viu a luz do sol. Faço xixi sem maiores percalços. No entanto, caso comece a namorar, não sei o que vai acontecer. Tenho medo de fracassar. Ele fica duro como pau de sebo. Mas, na hora de ejacular a coisa vai tão rápido que nem percebo. A minha namoradinha já se queixou da minha velocidade. Por favor. Me ajude”.

Depois de um exame costumeiro creio ter elucidado o seu problema.

Joãozinho era portador de uma fimose pior que bico de lamparina apagado. Por nós chamada de fimose irredutível. Quando não se consegue expor a glande nem com reza brava.

Combinamos, depois de uma breve explanação, que ele iria conversar com os pais para realizarmos a tal cirurgia.

Por nós nomeada postectomia. Ou circuncisão.

Naquela idade poderia ser realizada sob anestesia local. Na própria clínica do urologista.

Joãozinho deixou-me mais aliviado. Além da fimose propriamente dita ele tinha outro senão a ser resolvido. O tal frênulo bálamo prepucial deveria ser removido. Uma pelinha marota que poderia se romper e causar sangramento durante o ato sexual.

De volta ao consultório, meses depois, Joãozinho foi postectomizado. Operado de fimose. Como queiram.

De Piu-Piu novinho o jovenzinho não mais teve problemas. Até mesmo evitou ser contaminado por aquelas doenças de cunho sexual. Tais como a gonorreia, Hpv, candidíase, as lesões cancroides, e outras tantas que nos afligem. A partir das tais relações desprotegidas.

De bilau novinho Joãozinho foi à luta. E nunca mais aqui voltou. Até quando seu instrumento de trabalho pedir aposentadoria por excesso de cansaço.

Aí, outras enfermidades vão mudar de nome.  Chegará o tempo das doenças da próstata. A partir dos quarenta e cinco todos nós vamos ter de nos examinar.

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