Quem ainda não ouviu, numa tarde ensolarada, nos ares da roça, um sabiá cantando, numa laranjeira florida, não sabe o que perdeu.
Esse pássaro canta principalmente no período reprodutivo, antes do amanhecer e ao anoitecer, na intenção de atrair a fêmea e demarcar seu território.
Costumeiramente o sabiá laranjeira canta logo ao nascer do sol ou no final da tarde. No entanto, nas duas oportunidades, o faz sempre de dia.
Cantar é uma das mais belas manifestações de arte do ser humano. E deveras quem o sabe encanta. Não só aqueles que adoram o canto. Como da mesma maneira aqueles que sabem apreciar uma voz afinada, acompanhada de uma viola, nas noites de lua cheia.
Eu tenho comigo uma paixão imorredoura.
Aqui, na minha oficina de trabalho, aonde chego, bem cedo, via de sempre peço encarecidamente a um aparelhinho de som, feito presente de pouco, de nome Alexa, que ela execute uma música que alegre o ambiente.
Os cantores e as músicas variam. Paula Fernandes, Roberta Miranda, e outros cantores sertanejos, dividem a minha predileção. De vez em quando mudo o trinado que vem daquela caixinha de música. Ao simples comando de voz ela muda a cantoria. De vez em quando ela engasga. Carece de ser plugada a internet para funcionar a contento.
Agora mesmo estou escutando o “vou chorar”. Mas nenhuma lágrima escorre do meu rosto. Ao revés. Escrevo ouvindo aquela musiquinha inspiradora. De vez em quando ela titubeia. Mas volta a cantar depois que a ela peço que continue.
Hoje mesmo fui informado que um canto emudeceu neste onze de março.
Ela foi minha professora nos verdes anos da minha vida. E ela foi uma que me ensinou a admirar a beleza do canto lírico.
Nas aulas de canto apenas escutava. E ouvia embasbacado a sua voz admirável. Seus cabelos louros adornavam um rosto lindo. Olhos de um azul piscina compunham com graciosidade e beleza aquela doce figura.
Dona Delva Emrick nos deixou órfãos no dia de hoje. O canto silenciou. A música perdeu a majestade.
Já a conhecia desde aquela época. Seu marido, João Tristão, deve estar sorrindo a espera dela.
No céu deve estar uma cantoria. As liras devem estar tocando. O piano reclamando para entrar em cena. As violas pedem tempo para que aquela voz maviosa se deixe ouvir.
E, aqui nesta cidade, onde ela viveu, fez-se luto na música.
O Instituto Presbiteriano Gammon perdeu uma ilustre professora.
Mas ela vai ser lembrada ad eternum. Simplesmente a professora Delva não morre nunca.
Vai ficar encantada entre nós. Pra sempre.
Digo, sem medo de me arrepender, que o canto perdeu o encanto. Neste dia lindo. Sol a brilhar no alto. A azulice do céu tenta rivalizar com a beleza dos seus olhos.
Professora Delva Emrick partiu. Deixando, entre nós, uma saudade imensa.