Desde quando a gente nasce, e passamos a entender o entorno, a escolha de quem nascemos, os pais que nos geraram, não foram escolhas nossas. Pelo menos assim entendo.
Só depois, anos mais tarde, dotados de discernimento, passamos a entender melhor as coisas, e aí sim, fazemos escolhas nem sempre acertadas.
Eu não escolhi estudar naquela escola. Foram meus pais que decidiram. Mas logo que ali cheguei acabei compreendendo que foi uma escolha acertada. Passei anos e anos pensando no que seria mais tarde. A decisão não veio logo. Foram preciso de anos para resolver qual profissão iria trilhar.
Já no primeiro ano do curso primário dei por mim que a língua pátria era a minha menina dos olhos. Os números não me seduziam. Ao revés as letras eram elas as minhas queridinhas. Logo me enamorei do alfabeto. Aprendei a escrever palavras. Que foram se amontoando no meu caderninho. A minha letra não era lá essas coisas. Até hoje custo a entender as minhas garatujas.
A primeira escolha que fiz, naqueles verdes anos da minha vida, foi a primeira namorada. Era uma jovenzinha arredia. Que mal notava os meus olhares gulosos, em direção a última carteira, onde ela assentava. Foi só depois de alguns anos que elazinha aceitou passear comigo no rela do jardim. Meio escondidinho dos seus pais que moravam na rua de baixo.
Ainda me lembro daquele carnaval passado. Não fui eu que escolhi cheirar lança perfume. Aquele cheirinho inebriante me fez rodopiar nas minhas pernas. Acabei dormindo no banco do jardim.
Anos mais tarde outra escolha penso ter sido acertada. Enveredei-me pelo caminho da medicina. Já a urologia passou a fazer parte de mim graças a uma pedrinha encalhada nas minhas vias urinárias. Foi através dela que aprendi a conviver com as dores. Embora elas não tenham sido mais uma escolha minha.
Até hoje as escolhas me perseguem. Foi eu que elegi a mulher com quem me consorciei. Foi uma escolha mais uma vez acertada. Foi com ela que tive dois filhos, que me presentearam com três netinhos, todos machinhos, se pudesse optar por uma menininha, ah, que bom seria.
Nesta idade em que me encontro agora ainda tenho a intenção de fazer escolhas. Se pudesse eleger quantos anos mais viverei por certo chegaria aos cem. Ultrapassaria o centenário. Se possível com a mesma disposição que conto agora. Com a mesma saúde que me acompanha. Com a mesma clarividência de hoje.
Mas não cabe a mim fazer escolhas. Quanto aos anos que ainda me restam. Quanto a felicidade que ainda pretendo ter. Ou até mesmo quando novamente encontrarei meus pais.
São escolhas impossíveis de predizer. Até quando? Confesso que não sei.
Se pudesse retroceder no tempo, voltar ao passado, escolheria trilhar os mesmos caminhos. Faria tudo igualzinho. Mesmo cometendo alguns senões que porventura cometi.
Certas escolhas não cabem a mim decidir. Outras, creio que sim.