Ando devagar

Quando a gente nasce mal sabemos caminhar.

Depois passamos a engatinhar.

Assim que conseguimos dar os primeiros passos as quedas acontecem.

De repente passamos a correr. São carreiras inconsequentes, sob os olhares atentos de nossos pais.

De novo as quedas são inevitáveis. Aí, nesta fase da vida as fraturas se sucedem.

Quebramos um braço. As pernas foram engessadas. Mas o nosso caminhar persiste vida afora.

Uma vez jovenzinhos caminhamos em busca de nosso destino. Aí não mais corremos tanto.

São dúvidas que nos assaltam. Encruzilhadas se interpõem entre nós e o futuro.

O que vai ser da gente? Continuaremos a nossa caminhada rumo ao porvir? Ou paramos sem saber o que será de nós de agora em diante.

Neste exato instante mais dúvidas serão dirimidas. Escolheremos ficar em casa? Sob a tutela de nossos pais? Ou seguimos em frente rumo a um destino ainda incerto.

De repente, quando pensamos que nossa caminhada chegou aquele momento de descanso, ledo engano. Mais uma vez temos de seguir em frente.

Ainda não estamos velhos o bastante para desfrutar a tão almejada aposentadoria.

Estamos à beira dos sessenta anos. Longe ainda do merecido descanso.

Pena que poucas chances temos de conseguir um bom emprego. Dizem que ainda não podemos nos aposentar. Somos jovens o bastante para desfrutar aquele momento de ócio mais que merecido. E considerados velhos o bastante para não sermos admitidos no mercado de trabalho.

A nossa caminhada rumo ao futuro ainda não terminou. O velho anda lentamente. Pois carrega nas suas costas uma criança que já se foi, um jovem que não existe mais, e um adulto que foi esquecido nas suas lembranças fugidias.

De repente chegou a hora de descansar. Mas não temos mais força sequer para nos levantar.

Carecemos de ajuda até para nos levantarmos do leito. Melhor que seja uma cama de nossa própria casa a um leito de hospital.

O velho anda devagar. A passos lentos. Titubeia sem saber pra onde vai. Esquecido naquele caminho que tantas vezes percorreu.

Agora o velho anda devagar. Não tem pressa. Quase na hora de se despedir  da vida ele não se afoba em seguir adiante.

Também já andou demais. E a vida não permite um retrocesso.

Dai, quando chegamos a certa idade, pra que tanta pressa. Ainda bem que ainda podemos caminhar. Sem o afogadilho de dantes.

Seguimos em frente a passos claudicantes. Sem direção exata. Melhor nem saber pra onde vamos. Já que o nosso destino não vai além de alguns a mais.

Hoje não tenho pressa. Já corri, já caminhei, agora penso em descansar. Sem pressa pretendo seguir vivendo até quando Deus quiser.

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