Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones

Ainda jovenzinho, menino traquina, morando na roça, cercado de verde e muitos pássaros, assim vivia o menino Joãozinho.

Ele era feliz e bem o sabia.

Acordava ao nascer do sol. Abria a janela inebriado pela claridade de um novo dia. Antes da cinco e meia já estava pronto a ajudar ao pai.

Joãozinho, por causa da tal pandemia interrompeu os estudos. Antes de completar a quarta série, naquela escolinha rural, o menino estudioso tinha um sonho.

Gostaria, mais tarde, de cursar agronomia. Na intenção de continuar a lida no campo. Já que amava aquela vida singela, cuidar das vacas e suas crias, incrementar a produção leiteira, quem sabe montar uma granja, para produzir ovos de qualidade, aumentando assim a renda da familia.

E assim corria a sua vidinha feliz. Joãozinho, sempre sorrindo, era tido pela vizinhança como um garoto exemplar.

Não renegava ajuda a quem precisasse. Era pau pra toda obra.

Aos doze anos, de volta às aulas, o rapazinho, estudioso, teve de se mudar pra cidade.

Ali, naquela rocinha encantada, não tinha como continuar a sua formação.

A sua predestinação era outra. Continuar os estudos, ingressar numa universidade, e cursar agronomia. Era este seu sonho desde quando se entendeu gente.

Aos dezoito anos, completos, foi chamado a ingressar no serviço militar. Seria um ano inteiro para servir a pátria. Não tinha a intenção de seguir a carreira militar.

Acontece, por ingerência do destino, o jovem Joãozinho se destacou entre os demais colegas de farda. Acabou tomando gosto pela vida militar. O sonho de ser tornar agrônomo foi postergado. Quem sabe um dia voltaria à universidade? Só o futuro iria dizer.

Passados os vinte anos. Joãozinho logo, por seu desempenho entre os demais, foi logo promovido a sargento. Daí a capitão foi um salto.

Naquele ano distante explodiu uma guerra num país distante.

O Brasil não podia ficar alheio ao que se passava na longínqua Ucrânia.

O capitão Joãozinho foi destacado para ajudar aquela gente sofrida. E partiu rumo à Ucrânia.

Até então mal sabia ele como seriam os horrores da guerra. Bombas estouravam.  Barricadas eram feitas. Gente morria aos montes pelos campos daquele país em pleno inverno.

Um mês se passou.

O capitão João acabou se acostumando a ver sangue derramado. Estilhaços de granadas faziam vitimas entre inocentes.

Os habitantes que não conseguiam fugir da guerra se alojavam no subterrâneo do metrô. Crianças, velhos, mães, com filhos no colo, viviam como ratos de esgoto. Amontoados entre eles. Agasalhando-se como podiam.

Foi numa quarta-feira, do mês de março, um frio de fazer enregelar o corpo, o capitão              João foi convocado a ajudar uma leva de emigrantes que tentavam entrar num país vizinho.

Foi numa nevasca que coloria tudo em branco, numa noite escura, o brasileirinho Joãozinho, no intento de salvar uma familia de ucranianos, acabou sucumbindo ao fogo inimigo. Quase nada dele restou. Senão o seu sonho de se tonar um dia engenheiro agrônomo. Para continuar a gerir as terras de sua família.

Naquele dia fatídico o capitão João foi sepultado com honras militares. Ali mesmo, na distante Polônia.

Joãozinho, um garoto, como tantos outros, que amava os Beatles e os Rolling Stones, foi mais uma vitima inocente da incoerência de uma guerra, que infelizmente não tem hora de terminar.

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