A semana santa do menino Zezinho

Foi-se o carnaval. Quase imperceptível.

Não houve festas nem comemorações.

Na roça onde vivia aquele menino, longe da cidade, mal se ouviam as velhas marchinhas de carnaval.

Tudo era silêncio. Por vezes quebrado pelo grasnar das maritacas, pelo trinado alegre dos sabiás, por uma vaca mugindo de saudade do seu bezerro, pelo grunhido da porcada faminta, e, à noite, com a lua nascendo, o silêncio era total.

O menino espertinho estava de férias. As aulas foram suspensas devido à pandemia.

Março teve início quente, ensolarado. Um calor infernal se fazia naquela casinha singela. Quase não podiam dormir. Pois, caso deixassem a janela aberta por ela entravam morcegos, naquele voo rápido, sem quase deixar vestígios.

Zezinho ajudava ao pai nas tarefas da roça. Era ele quem tratava das galinhas. Procurava ovos deixados à revelia. A salvo da fome dos gambás.

Quase abril se despontando.

Zezinho sonhava passar nem que fosse o feriado na distante Aparecida do Norte.

Era seu desejo desde quando tinha cinco anos.

Sonhava viajar em romaria. Nos arrabaldes os vizinhos costumavam fretar um ônibus que os levassem àquela cidade santa.

Naquela sexta-feira de março, que amanheceu com um calor insuportável, logo ao seu começo, o garoto Zezinho pediu ao pai que fossem todos na mesma comitiva. Prometeu, de joelhos juntos, ser prestativo, estudioso, mesmo estando em período de férias.

E o pai, procurando satisfazer ao filho, prometeu-lhe que na véspera iria comprar a passagem da família toda, na intenção de irem em romaria à Aparecida do Norte.

Zezinho nem conseguiu dormir naquela noite escura. No seu quartinho pequeno agradeceu ao papai do céu a graça conquistada.  E daí em diante não pensava noutra coisa.

Eis que chegou a véspera da partida.

Zezinho acordou cedinho. Preparou na sua mochila gasta as melhores roupas que possuía.

A viagem transcorreu sem novidades até a sua metade. O menino ia olhando a paisagem com olhos de deslumbramento.

De repente ouviu-se um estouro. O ônibus teve um pneu furado. Pelos olhos do motorista se percebia uma inquietação evidente. Não havia sobressalente. Tinham de pernoitar na estrada. Já que não havia nenhum hotel onde pudessem passar a noite.

E era uma noite chuvosa. O céu de repente acinzentou-se.

Zezinho, sem que nada pudesse fazer, acabou dormindo no porta mala do ônibus. O dia amanheceu novamente chuvoso. Pelo celular o motorista pediu socorro. Do outro lado da linha não teve resposta.

Foi uma manhã decepcionante. Tiveram de retornar a origem de carona em outra condução diferente. A sua viagem foi abortada. O sonho do menino Zezinho foi postergado sem data prevista.

Mesmo assim o garoto Zezinho não desanimou. Noutro ano, que sabe no próximo, a sua viagem iria ser realizada.

Sem sonhar nada tem valor. Mesmo que sonhar, sem ver concretizado seus sonhos, não passe de um desejo distante.

Um ano se passou. Zezinho, afinal, conseguiu seu intento. Assim que aportou na linda basílica ficou de joelhos. Orou pelo fim da guerra. Pela saúde de todos nós.

E não é que a guerra teve fim? E a pandemia chegou ao seu final?

Sonhos que não se concretizam são como pássaros que não aprenderam a voar. Daí a minha compulsão em sempre começar de novo. A cada dia, a cada amanhecer, nunca deixarei meus sonhos abortarem.

 

 

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