Finou-se o carnaval. Passou o tempo de folia mesmo sem ter acontecido.
Aqueles três amigos, que não se desgrudavam, depois de planejarem férias, depois de muito tempo de labuta constante, numa metalúrgica distante de onde moravam, resolveram, em comum acórdão, passar férias numa praia.
Afinal seria um descanso por mais que merecido. Estavam exaustos. Cansados de tanta lida.
Apelidados Tião Manquitola, Pedrinho das pernas tortas, e Silvinho da cara preta, talvez pelos pequenos detalhes que neles três eram evidentes: Tiãozinho mancava desde quando acidentou-se de motocicleta, Pedrinho tinha este defeito por ter nascido antes do tempo, Silvinho não apenas tinha carinha escurinha, mais preta que jabuticaba mais que madura, eram três amigos que moravam bem perto.
Para chegarem a tal siderúrgica a viagem durava quase um dia inteiro. Pegavam três lotações. Deixavam a casa antes das cinco da madrugada. E lá chegavam antes das oito da manhã. Funcionários exemplares nunca perderam um só dia de trabalho. Ganhavam o suficiente, já que eram solteiros, ainda jovens, com um futuro auspicioso pela frente.
O calendário marcava inicio do mês de março. E eles três gozariam de um mês inteiro de desfrute.
Numa reunião conjunta decidiram que o destino das férias seria uma praia linda. Bem procurada pelos brasileiros. E, da mesma forma estrangeiros para ali acorriam em bando. Trazendo na algibeira os tão almejados dólares. Que valiam mais que o quíntuplo de nossa moeda.
Os três amigos partiram rumo à capital da Bahia num ônibus leito. A passagem custou-lhes o olho da cara. A agência de viagem prometeu que a tal lotação teria ar condicionado. E era tão ou mais confortável que o voo de avião. Em primeira classe.
Os três colegas de trabalho ajeitaram as malas pensando apenas na alegria de passar um mês inteiro naquelas praias paradisíacas. A distância maior que tinham percorrido foi à Aparecida do Norte, mesmo assim em romaria.
Foi uma peregrinação na intenção de pagarem uma promessa. E conseguiram a graça. Até hoje se recordam de quando foi bom entrarem naquela basílica imponente. Ali passaram metade de um dia inteiro. Compraram souvenires. E voltaram com a mala cheia de esperança de mudarem para um emprego melhor.
A viagem até Salvador durou mais que o esperado. Acontece que aquele ônibus luxuoso teve um pneu furado. No meio do caminho aconteceu o imprevisto. Os passageiros tiveram de fazer baldeação. Ainda longe do destino final.
Chegam à capital baiana ao fim de três dias de percurso. Debaixo de uma temperatura que beirava os quarenta graus. À sombra, melhor dizendo.
O hotel a eles reservado não era lá estas coisas. Não o resort prometido pela agência de viagem. E sim uma pensão de quinta categoria, fincada num morro de onde mal se via o mar.
A decepção pela acolhida foi pior ainda que pensavam.
Tiãozinho Manquitola teve os seus pertences afanados. Salvou-se com a roupa do corpo. Nem o relógio de estimação, herança do pai ausente, foi deixado como lembrança daquele senhor carinhoso, que o embalava no colo, fazendo-o dormir.
Pedrinho das penas tortas teve a pochete, recheada de alguns trocados, levada pelo mesmo gatuno. Nem Silvinho da cara preta se salvou do arrastão. Tomaram-lhe a correntinha de ouro puro. Que levava há anos no pescoço.
No dia seguinte, quase refeitos do susto, decidiram por ir à praia. Tomaram uma vã que os levaria até a linda Itapuã.
Sob um sol escaldante dispensaram o guarda-sol. Só ele lhes custava, junto à água de coco quente, a bagatela de cem reais. Era uma exploração danada. Por um acarajezinho recheado com rabo de camarão seco tiveram de pagar quase cinquenta reais.
Mesmo insatisfeitos com o primeiro dia de férias ali permaneceram até o sol se por. Voltaram à pensão fajuta caminhando pela orla do mar. Só que se equivocaram do caminho. Deram numa favela de má fama. Foram cair num antro da bandidagem. Por sorte uma alma boa levou-os a outro lugar.
A noite os acolheu no Pelourinho. Pensaram que a malfadada sorte iria mudar.
Ali, naquele lugar turístico, a decepção foi ainda pior. Foram sequestrados por um bando de marginais. Como não tinham pix acabam tomando seus celulares.
Já era manhã desperta quando chegaram a pensão de quinta. Já era sexta-feira.
Os três, naquele dia desiluminado, decidiram voltar pra onde vieram. Só que o dinheiro acabou. As férias, ainda no começo, deveriam ter o seu desfecho.
De nada adiantou se queixarem da má sorte às autoridades incompetentes. Foram tratados como delinquentes. Que em verdade não eram.
Com a ajuda de gente da prateleira de cima conseguiram voltar, num ônibus, de carreira, que deixou Salvador numa segunda-feira, para só chegar a São Paulo um mês depois. Dormiram ao relento. Passaram fome e sede.
E os três desconjuraram a desdita de nunca mais tirar férias. E voltaram ao trabalho felizes da vida depois daquelas férias conturbadas.
No ano seguinte retornaram à Aparecida do Norte. Agradecendo a sorte de ainda estarem vivos e com saúde.