Cinzas de um carnaval atribulado

De repente o carnaval se fez cinzas. Mesmo sem ter acontecido.

Salões ficaram vazios. A folia foi adiada sine die.

Neste contexto complicado, onde a guerra se manifesta em outro país, não há como se pensar em carnaval. Apenas sofrimento, mortes, lamentos, são acontecimentos que enlutam famílias inteiras, oxalá esta guerra termine, mais cedo do que se espera.

Noutro cenário distante, aqui nas Minas Gerais, numa rocinha encantada, onde se ouve o canto dos sabiás, onde os canarinhos da terra fazem ninhos no telhado daquela casinha modesta, onde vive o João Pedro, acompanhado da esposa e dois filhos pequenos, para eles o carnaval não muda nada. Já que o trabalho contínuo faz parte da rotina de todos eles, pessoinhas simpáticas, acostumados àquela vidinha singela, cuidando dos seus animais.

Antes que o sol nasça, naquela manhã quente de começo de março, João Pedro, acompanhado da esposa, levando um dos filhos menores pelo braço, já estão eles prontos a começar novo dia. A faina assusta a quem não está acostumado.

Antes das cinco e meia já estão de pé. Depois de um café requentado, na trempe do fogão a lenha, um pãozinho amanhecido, um leite quente, tirado de véspera, é a primeira refeição do dia.

Mal tem tempo de saborear aquele mísero banquete. Mais tarde talvez a comida possa melhorar.

João, depois de procurar as vacas na invernada, algumas se extraviaram, afinal começa a ordenha. Naquela manhã de quarta-feira faltou luz na propriedade. O leite tem de ser retirado à força dos dedos. Mais de quinhentos litros já estão armazenados no enorme tanque de expansão. A espera do caminhão leiteiro. Faz um calor insuportável. E o filho menorzinho chora. Dentro da casinha tosca o outro filho espera os pais.

Mas quem diz que neste momento podem descansar? O gado tem de comer. A melhor vaca amanheceu engasgada com uma sacolinha de plástico.  Foi preciso um esforço hercúleo para fazê-la vomitar.

O dia só estava começando. O sol raivava com seu sorrisão no alto. A azulice do céu predominava.

Nada indicava que poderia chover. A roça de milho estava prontinha a ensilar. As espigas duras estavam no ponto de serem guardadas no buracão feito de véspera. Acontece que o trator não funcionava. O que fazer?

João Pedro, contrafeito, teve de recorrer a um vizinho. O qual tinha fama de vender caro o seu trabalho.

Depois de horas intermináveis de trabalho duro afinal a silagem foi enterrada. Que cheiro gostoso de milho azedo. As vacas pressentiam um banquete ao cair do dia.

Já antes de o sol se pôr a família de João Pedro teve mais um contratempo. A chuva, não esperada, apareceu num repente. A enxurrada desceu do morro. Alagando tudo ao derredor.

Inclusive aqueles buracos onde a silagem foi depositada encheu-se de uma lama viscosa. O céu acinzentou-se de vez.

Choveu a semana inteira. Nada podia ser feito a não ser orar pedindo que a chuva parasse. Mas São Pedro não fechava as torneiras. A silagem foi perdida por inteiro.

Mesmo assim a família do valente João não desanimou. Quem sabe plantando a safrinha a roça de milho tivesse melhor sorte.

Infelizmente não foi o que aconteceu. A chuva não dava tréguas. Choveu o mês de março inteiro.

O carnaval teve fim. Fez-se cinzas.

Durante o ano inteiro nada mais restava a familia do pobre João a não ser esperar dias melhores.

É o que nos resta a esperar. Que esta guerra termine. Que, afinal, o mundo encontre a paz. Que a pandemia seja apenas uma lembrança esquecida. Que o nosso país seja abençoado por Deus. Que ele prospere . E que nós, brasileiros, sejamos felizes neste ano que ora começa. Tomara para sempre.

Que as cinzas deste carnaval que passou sejam apenas o prenúncio de dias melhores. É o que desejo a todos vocês. Neste recomeço de ano. Feliz como tento ser.

 

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