Mais um carnaval que passou

Os risos andam escassos. Aquela máscara negra agora tampa o sorriso. As colombinas nos dias de hoje andam desacompanhadas nos salões. A chiquita bacana agora foi acometida do mal de Alzheimer. O abre alas agora desistiu de passar. Mamãe eu não quero mais desfilar na avenida. A linda aurora transformou-se num dia fúnebre. Se você pensava que cachaça é agua, ela, devido às chuvas intensas, acabou por destruir barracos dependurados no morro. A turma do funil foi às ruinas. Devendo o que tinha e o que não possuía. Me da um dinheiro ai, só se for a juros altos. A pobre cabeleira do Zezé agora se transformou num descalvado ancho. E a pipa do vovô não mais avoou ao céu.

E tantas outras marchinhas inesquecíveis nos dias de hoje nem são lembradas. Só pelas velhas gerações. Que não se esquecem do quanto eram bons os carnavais de outrora.

Mais um carnaval se avizinha.  Mais um que não vai acontecer.

Ai que saudades dos bailes de outrora. Do vou beijar-te agora, pois hoje é carnaval.

O pierrô acabou deixando a colombina a ver navios. Já que agora ela se transformou numa velha rabugenta. E mal suporta a sua presença que se arrasta pela casa em busca de um passado perdido.

Estamos às vésperas de mais um feriado prolongado. Já que as festas de momo foram postergadas, neste ano vamos celebrar duas datas de carnaval, dada a pandemia que parece está no fim, pra mim tanto faz, como tanto fez.

Prefiro passar esta efeméride no mato. Ouvindo o canto dos canarinhos da terra ciscando o esterco do curral. Ou, melhor ainda, no lombo de um cavalo esperto. Tendo como vizinhos apenas e tão somente vacas e suas crias. Degustando uma broa de milho, um cafezinho feito na hora, um queijo de minas pronto desde a tarde de ontem, aquecendo-me nas brasas do fogão a lenha.

Pra mim o carnaval perdeu o encanto. Já que o desfile das escolas de samba tornou-se um espetáculo feito para turista apreciar. E como custa caro empoleirar-se naquelas arquibancadas dependuradas quais galinhas no poleiro. Pagando por uma cerveja quente o mesmo preço salgado de um uísque importado.

As festas momescas infelizmente perderam o brilho. A purpurina, o confete e as serpentinas, não mais serão adereços dos salões. Cadê o lança perfume que antes me punha tonto? Que cheirinho apetitoso, disputado por todos, já não mais posso passar a mão boba naquele convidativo traseiro, pois posso ser acusado de importunação sexual.

Já são águas passadas os carnavais de antigamente. As mesmas águas não rolam mais. Agora se corre o risco de sermos levados pelas águas barrentas que provocam enchentes. Pobres e infelizes foram as famílias envolvidas nos últimos acontecimentos na cidade de Petrópolis. Até hoje se contabilizam os mortos. São perdas irreparáveis.

Nestes dias de hoje a festa perdeu a graça. Foram tantas as desgraças acontecidas que a gente mal tem ganas de desfilar na avenida. Somos solidários daquela gente sofredora. Não há como esquecer o luto que ainda sofrem os moradores daquela linda cidade serrana.

Me dá um dinheiro ai? Com a quebradeira que grassa em nossa terra torna-se missão impossível ajudar a quem quer que seja. Todos estamos no mesmo barco. Uma nau sem rumo que ameaça naufragar num mar de lama.

Estamos à deriva, prestes a enfrentar mais um carnaval.

E eu, nestes dias feriados, não me resta outra opção a não ser fugir pro mato. Escapar da folia em que se transformou este país. E embriagar-me de felicidade junto aos bichos que tanto amo. Nas caminhadas a beira lago. Ou no lombo de minha égua castanha.

E, nas noites enluaradas admirando o entorno. Na quietude o silêncio. Sem escutar o alarido da azáfama. Que nas cidades poluem o encantamento.

Estamos prestes a passar por mais um carnaval. Pena que não foi como aquele carnaval que passou. Levando com ele a folia ingênua. A linda colombina que não mais ama o pierrô.

O carnaval pra mim já passou. E, infelizmente não volta mais.

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