Hoje amanheceu uma névoa cinzenta indicando um dia ensolarado.
Tomara a chuva dê tréguas. Já choveu demais.
Dizem que depois da cerração o sol racha. Ditado antigo, que corresponde à realidade.
Agorinha mesmo, o relógio mostra seis e trinta e três minutos, o sol brilha no horizonte. Um dia lindo, esplendoroso, me acordou neste vinte e três de fevereiro.
Daqui do alto posso ver onde moraram meus pais. Hoje lá resta apenas um lote baldio. Que foi desaterrado para dar inicio a uma edificação.
Ainda me lembro daqueles anos passados. Naquela rua, a Costa Pereira, número 152, onde passei os melhores anos de minha vida. Na casa de baixo, que agora lhe faz companhia, morava um tio meu.
Naquela mesma rua moravam muitos Rodartes. Meu tio Rui, minha querida mãe Rute, o inesquecível Chico, agora descansam no céu.
Hoje apenas o primo Luiz Carlos reside naquela mesma rua. Ai que saudades da tia Dorinha, da tia Sonia, do primo Pedro, dentista que agora presta serviços no céu, e de todos que por ali passaram, deixando um rastro de nostalgia por detrás deles todos.
Agora, já que minha irmã Rosinha se mudou para outra morada, só me resta um consolo. Vivo me recordando de todos eles. Já que o passado me acompanha os passos. Desde quando ali vivi. Quando aquela mesma rua era calçada de pedras duras, e o asfalto negro ainda não existia.
Hoje a bruma quase se desfaz. O sol ameaça despertar a azulice do céu.
Olhando daqui de cima percebo dois lotes vazios. Prestes a construírem mais um prédio. Transformando aquela velha rua radicalmente. Por sorte o velho hospital, e o clube onde frequento, ao cair das tardes, ainda moram por lá.
A saudade que sinto nunca vai se desvanecer como a bruma que no dia de hoje me despertou.
Pode o sol iluminar o céu. Podem as nuvens empanar o brilho do sol. Mas nunca conseguirão ofuscar a saudade que sinto dos meus saudosos pais. Eles sempre habitarão aqui dentro do meu coração.
Hoje amanheceu uma bruma cinzenta nas primeiras horas da manhã. Indicativo de um dia lindo de sol.
Paulatinamente a bruma se desfaz. Agora mal dá para enxergar a rua onde morei.
Mas me permito ver, com os olhos do sentimento, carregados de saudades, a velha casa da Costa Pereira, aonde cheguei aos cinco anos, vindo de outra cidade, de onde saí para aquela Belo Horizonte, nos idos anos de um mil novecentos e sessenta e oito. E para aqui retornei, já médico feito, em um mil novecentos e setenta e sete. Para recomeçar outra vida. Trabalhando duro nos três hospitais.
Agora me permito um descanso. Embora ainda praticando a medicina em menor escala.
Foram tempos bons. Naquela casa hoje transformada num lote vazio.
A bruma cinzenta neste momento cedeu lugar há um dia ensolarado. Agora posso quase ver a azulice do céu.
Mas a bruma cinzenta da saudade ainda a sinto neste dia vinte e três de fevereiro.
E ela nunca irá se desfazer. Mesmo que o sol ilumine o azul do céu.