Confesso estar cansado de muitas coisas.
Parece que já vivi demais.
Em criança, doce infância, certo cansaço sentia daquelas brincadeirinhas tolas, quando um coleguinha de escola bulia comigo, dizendo que era por demais cdf, vivia grudado nos livros, atento ao que dizia a professora. E acabei me cansando sem motivo aparente. Já que as tais brincadeiras são inconsequentes. E são próprias daqueles verdes anos.
Uma vez mais tarde, já feito estudante universitário, me cansava das horas intermináveis dissecando cadáveres, com aquele odor nauseabundo de formol.
Já bem mais tarde, depois de anos de trabalho na medicina, atendendo em três hospitais, sem direito a noite de descanso, acabei tomando birra do telefone fixo.
Só anos mais tarde adveio o celular.
Já hoje o mesmo cansaço não me atinge mais.
Aprendi, com os anos, a ter mais paciência, a domar a minha ansiedade, a ter mais cautela no trato com os demais. Deixei a intempestividade de lado. Agora faço apenas o que me apraz.
Em parte devo estas mudanças a um fato singelo que passou a fazer parte do meu eu.
Acordo ao nascer do sol. E como ele amanheceu radiante no dia de hoje. Uma manhã esplendorosa. O céu azul, sem nenhuma nuvem, ofusca as meninas dos meus olhos.
Não me canso tanto, por enquanto, nesta fase da minha existência. Escrevo a cada manhã. Desnudo o cotidiano graças a minha sensibilidade maiúscula. Exercito-me ao cair das tardes. E novamente estou aqui, na minha oficina de trabalho.
Não me canso de fazer quase tudo igual. A rotina enfadonha se torna atrativa. Quando deveria ser o contrário.
Causa-me asco ao ver tanta disparidade neste país tão lindo e ao mesmo tempo tão desigual.
Fatiga-me sim ao observar tanta falsidade quando deveria haver verdade.
Não me canso de escrever a cada dia. Cansar-me-ia sim perder a inspiração que me cavouca por dentro.
Cansar-me de lutar? Não digo jamais.
No entanto, um dia, que se vai ao longe, um amigo caro, pessoa da prateleira de cima, com quem convivi anos a fio, de repente se fez enfermo.
Tratava-se de uma doença incurável. Um câncer corroía-lhe as entranhas.
E ele tudo fazia para se ver curado.
Foi operado diversas vezes. A doença retornava espalhando metástases pelo corpo inteiro.
E eu assistia a tudo isso sem nada poder fazer a não ser fazer-lhe visitas periodicamente.
Uma das últimas vezes em que estive em sua casa encontrei-o agonizante. Mal me reconheceu.
Antes de nos despedirmos ouvi de seus lábios roxos uma exclamação quase inaudível: “Paulo, cansei de lutar. Não tenho mais forças. Essa é a última vez que nos vemos”.
De fato. Meu amigo fechou os olhos. Não sem antes segurar a minha mão.
Já eu, não sei quando irei me cansar desta vida maravilhosa que tenho levado. Tomara este dia ainda esteja longe. Assim como a serra que daqui se avista nesta manhã linda desse vinte e dois de fevereiro.