Antes, quando ainda a idade não me consumia tanto, tinha tempo para pensar na vida, observar os dias passarem, não com a velocidade de hoje, pois as coisas eram diferentes, ia pachorrentamente à escola, levando às costas aquela merendeira recheada de guloseimas, que minha querida mãe fazia, e, assim que a sirene apitava onze e meia, voltava àquela casa todo contente, para o almoço preparado com todo carinho pela minha querida babá, Deus a tenha em seus braços, a minha Hortência que tanta saudade me traz.
Pena que o mesmo tempo passa com a rapidez de uma águia em busca de sua presa.
Agora, depois de passada a meninice, vendo a juventude se esvair como um sopro, uma vez a idade adulta avoar com asas inimagináveis, de repente sinto no corpo a rigidez de um homem que passou por tudo isso, embora não me sinta velho, o tempo mostra que agora o tempo que me resta não ultrapassa mais que alguns anos vividos.
Bem que gostaria de colocar freio no tempo. Mas ele corcoveia como um cavalo bravio. E não obedece ao meu comando. E segue adiante galopando sem que possa dizer o contrário.
Hoje, nesta idade a qual cheguei, não consigo retroceder no tempo.
Embora tenha tido contratempos, durante a vida que tenho levado, eles não interferiram nos meus objetivos. Aqui cheguei tentando desafiar o tempo. Mas ele passa e escorre por entre meus dedos sem que consiga deter sua velocidade.
Quando acordo, depois de um sono leve, vejo que o mesmo tempo passou.
O ontem se transformou no hoje. O amanhã vem num átimo. O futuro não escapa do meu desejo. O passado o tenho sempre ao meu lado.
Não tenho como me vacinar contra a passagem dos anos. E eles passam. Já ultrapassei aquela idade da mocidade que ficou ao longe.
Hoje não tenho tempo de perder tempo. Não tenho a pressa dos velhos tempos. Contento-me em observar a passagem do tempo. Da mesma forma que não tenho tempo de pensar em coisas miúdas. Satisfaço-me em ficar a espreita de dias melhores. Embora saiba que nada possa fazer para alongar os anos que me restam fico aqui devaneando sonhos.
Não tenho mais tempo de permanecer calado. Prefiro ouvir a emitir a minha opinião. Já que conversas que nada acrescentam ao meu viver são chuvas passageiras. Águas que não mais movem moinhos. Ribeiros que escapam rumo ao rio.
Não tenho mais tempo de ficar atrelado a um sonho que não mais acontecerá. Sou ainda refém de saudades. Mas olho adiante. Pois o passado ficou pra trás. O presente se resume no agora. O futuro é incerto. A vida nem sempre é um mar de rosas. E ela tem espinhos que podem nos espetar a alma.
Agora não tenho tempo para ficar pensando em lutar contra o inevitável. Prefiro ficar no meu canto. Ouvindo o canto dos passarinhos.
Não tenho mais tempo de pelejar contra as intempéries. As chuvas acontecem. A natureza é sábia. A gente precisa protegê-la contra as atrocidades que o homem comete.
Nestes tempos por que passo não tenho mais tempo de ficar à revelia dos últimos acontecimentos.
Simplesmente oro pelos desabrigados. Já que pouco posso fazer para amenizar-lhes o sofrimento.
Já que não tenho mais tempo para mudar o status quo prefiro me trancar dentro de mim mesmo. Ouço apenas o que me apraz. E permaneço mouco aos reclames dos descontentes.
Gostaria de ter mais tempo. Já que não posso interferir na passagem do tempo fico aqui. Retratando meus melhores momentos.