De tempos antigos, qual seja o ano de 2000, data em que meu pai faleceu, de enfermidade atroz, tida incurável, progressiva, que se arrasta pachorrentamente, pondo a sofrer mais a família que propriamente o paciente, descrita pela primeira vez por Alois Alzheimer em 1906 em sua paciente de nome – Auguste Deter, me recordo, carregado de sensibilidade, de seus olhares inexpressivos, perdidos no meio do nada, olhando sem mostrar a mira da sua retina ainda conservada. Sabe-se que no Brasil existem cerca de 1,2 milhões de pessoas acometidas por esta enfermidade. No mundo a cifra chega a mais de 35 milhões de enlutadas famílias, pois elas sabem, dentro do lar onde mora o ancião, portador do tal mal, antes conhecido por esclerose, caduquice, num prazo indefinido todos que amam o ente querido irão torcer para que o desenlace ocorra logo, poupando assim de sofrimento maior todos que cercam o enfermo.
Quando o levei a uma casa de campo, distante da nossa casa da cidade, local que ele amava tanto, ia por vezes só, pra onde agora vou, da mesma forma desacompanhado, meu pai carecia de uma cadeira de rodas para ir e vir, olhou as águas plácidas da represa, com olhos inexpressivos, não sabia no que pensava ele, ou se lucubrava de um fato importante: em sua família, nalguma namorada dos últimos anos, na infância que ele deixou ao longe, mais uma vez, fitando a sua face pálida, vi, dentro dela, o mesmo olhar perdido no vazio do nada.
Em outra ocasião vislumbrei o mesmo desencanto com a vida entre os vivos. Foi numa casa de idosos. Ali fui na intenção de uma visita rápida. Fui como visitador, não médico. Passei momentos de compaixão entre os usuários daquela instituição meritória. Gostaria de passar mais tempo. Mas o relógio de mostrador claro me avisou: “vai embora”. Confesso que dali parti pensando na vida. Naqueles olhares inexpressivos, naqueles semblantes de mortos vivos.
Uma vez na porta de saída daquele logradouro, anfiteatro do adeus, parei mais uma vez. Na varanda, tomando o resto do sol da manhã, estavam, patéticos, estáticos, lívidos, descoloridos, uma dezena de idosos trazendo na face os mesmos olhares perdidos.
Foi quando repensei no meu pai. Em mim mesmo, seu filho. Nunca me esqueço do dia e hora em que se despediu da gente. De seu corpo desprovido de carne. Das suas escaras profundas. Do cheiro da morte que a ele rondava. Das sondas que ele trazia invadindo-lhe o corpo quase do outro lado da vida.
Meu pai veio a falecer em meus braços de médico. Um médico filho, que amava ao pai como amei a minha mãe que o sucedeu por pouco tempo. Hoje imagino que os dois se encontraram no outro lado do azul do céu, em um lugar especial, que me faz lembrar a casa de velhos onde entrei, naquele dia quando os rostos inermes, com seus olhares vazios, fixos em algo que não sei onde fica, vítimas da cruel moléstia antes conhecida por caduquice, prenunciaram a derradeira despedida da vida.
Depois, anos depois, ao deixar meus idosos, pacientes aos quais dediquei um cadinho da minha especialidade de urologista, reféns de seus problemas, inerentes aos de mais idade, como quase eu me encontro, ao esperar o ônibus circular, naquele mesmo banco, onde se assentam muitos idosos, vi, com estes olhos ainda vivos, que sabem avaliar, com clarividência, não inexpressivos como os de meu pai, daqueles velhos partícipes de um asilo, um senhor da mesma forma passado da minha idade.
Ele, de boné surrado, pele morena, magro, trajado sumariamente com uma bermuda caque, uma camisa quase branca, não fosse pelo uso constante, estava visivelmente estático.
Já o havia visto em vezes anteriores. Acontece, todas as quartas e quintas feiras por ali passo. Espero o ônibus apontar na esquina de baixo. Faço o sinal para que ele pare. Para dentro dele entro, depois de permitir a outrem que adentrem pela mesma porta que abre e fecha, de repente.
O tal senhor, de muitos anos de viagem pelo planeta terra, terra esta que volta a nos acolher em pouco tempo, ela acolheu meus pais, um dia vou estar no meio deles, de repente se levantou. Tentei, antes que a lotação chegasse, puxar conversa com ele.
O pobre idoso não respondeu ao meu cumprimento. Nem ao menos me desejou boa viagem. Talvez imaginasse que eu iria viajar ao outro lado da vida, em direção à eternidade.
Hoje, assentado ao mesmo banco do ponto de ônibus, naquela hora vazio, avistei o mesmo senhor, das vezes anteriores.
Ele não olhava com olhos atentos. Ao olhar para sua face inexpressiva, em direção aos seus olhos baços, neles percebi, o mesmo olhar dos internos da casa de idosos. O mesmo olhar do meu pai , durante o ano difícil quando o acompanhei na sua cruel enfermidade.
O sênior do banco do ponto de ônibus deixou minha companhia em direção a algum lugar. Com seu olhar perdido no vazio…