“Se esse passeio fosse meu, eu mandava ladrilhar, não com pedrinhas de brilhantes, e sim com o asseio das pessoas que por ele passam”.
Só quem anda pelas calçadas, também chamadas de passeios, elevados de cimento recobertos por vários tipos de revestimentos: restos de azulejos, somente concreto aparente, lajotas próprias e impróprias, pisos que deveriam ser antiderrapantes, e, no entanto não são, podriqueiras outras tais como – lajes escorregadias de ardósia, até tábuas de madeira eu vi, lixo resto de construção, canteiro de jardim cheio de beterraba por madurar, cenouras cheias de coelhos saltitantes, e tantas e tantas consoantes que se as fosse listar o texto ficaria incompreensível para qualquer leitor, que um dia poderia ser eleitor meu.
Passeios são fundamentais a quem deseja se locomover pelas próprias pernas. São coisas tão lindas para a saúde que quem deles não lança mão, ou melhor, os pés, apetrechos para mim tão caros que fica barato não depender de carros, deve, se minha previsão se confirmar, ultrapassar a casa dos cem anos, mais que a idade na qual viveu Matusalém.
Um dia irei dedicar uma poesia fecunda aos tais passeios. Como não sei fazer versos talvez uma crônica resolva. Não com a mesma poesia, quiçá a mesma simpatia, mas que ela vai comentar sobre as vicissitudes das calçadas, não haverá quem duvide.
Passeios deveriam ser confeccionados com esmerado esmero. Não depois de a edificação ficar pronta. Via de regra, não a menstrual, a tal calçada é a que encerra a novela da casa pronta. É a última dos moicanos, a derradeira obra a ser pisada, marcada pelas iniciais da ferradura dura do tal idiota que deixou a tatuagem da sua marca malograda naquela coisa de cimento fresco, onde ficam as iniciais, ou o nome inteiro do despropósito do dedo duro que pensa que aquilo é a calçada da fama na capital do cinema, a linda Hollywood. No entanto a cavalgadura que deixou ali sua marca deveria tê-lo feito na casa da mãe Joana. Que se trata da sua…
Eu só tenho andado, depois de certa idade, pelos passeios, que também assinam calçadas, ou quando não é possível, vou pela rua mesmo.
Quando corro evito os passeios. A iminência de dar trombada nos transeuntes me faz agir assim. Ainda me lembro, sem saudades marcadas dentro de mim, de quando, malogrado dia, ao tentar correr pelos passeios levei uma mãozada num lugar tão recolhido que quase tive de procurar um urologista para tratar de um trauma escrotal. Felizmente não deu em nada, e eu continuei como estou: infértil, pois fiz vasectomia, e potente por não terem mexido no meu brio de cavalo inteiro, sem parança.
Adoro andar pelos passeios. Não quando eles estão engalfinhados de gente, no dia de receber o pagamento da prefeitura, ou do Estado, no dia de agora a prefeitura ainda atrasa o soldo de quem percebe um tiquinho mais.
Mas ela acaba pagando, mesmo que demore um cadinho miúdo.
Hoje, ao andar pelos passeios da minha cidade querida, de onde pretendo me mudar apenas para o cemitério de aqui mesmo, no mesmo túmulo dos meus venerados pais, depois da hora do almoço, hora do rush, gente indo e voltando, de costas ou de frente, calorento dia, plena primavera com cara de verão, ao passar perto de um bar movimentado, perto de onde ainda moro, alguém lavava o passeio. Certo que aquilo era sinal de asseio.
Mais abaixo pisei em titica de cachorro. Não vi o autor do deslize. Ainda bem que não era de gente, preferiria o de passarinho recém saído do ninho. Lavei a sola do tênis e fui adiante. Foi quando caí num buraco enorme. Parecia uma cova aberta recente. O suficiente para caberem dois caixões, duas dúzias de camburões, uma dezena de vacas baldeiras.
Antes que chegasse onde estou, a escrever essas sandices, pelo mesmo passeio avistei uma borboleta azul. Era linda a mariposa arisca! Que coisa diferente observar nos passeios uma encantadora lepidóptera. Ao invés de buracos, caca de cachorro, água de esgoto escorrendo a céu aberto, e outras imundícies mais, impróprias ao pisoteio dos meus tênis ou de qualquer cristão que se avexa em saber que fizeram dos passeios a latrina do mundo. Que pena…