Felizes aqueles que inda podem sorrir

Nesse domingo, não tão cedinho como de costume aqui chego.
Minha rotina de segunda a outra, não tenho perdoado nem sábados e domingos, dias santos e feriados faço o mesmo.
Escancaro a porta do meu prédio, por sorte minha e não dele o Edifício das Clínicas fica pertinho do meu ap. A uns poucos passos de lonjura, é só subir um morrinho nada morrudo dando trabalho aos meus sofredores pezinhos, felizmente os tenho em dupla de dois, se fossem mais não sei o que seria das ruas de minha cidade ou das estradas asfaltentas e vicinais.
Especialmente nessa manhã desse domingo dezesseis de agosto, olhando pra nossa bela praça vejo, daqui do alto ipês amarelos deitando suas lindas florzinhas vivas ainda na grama ressequida do nosso jardim. Me da uma vontade imensa de lá embaixo me atirar da janela, pegando carona nas asas lépidas dos urubus e montado nelas aterrissar no mesmo gramado. Pegar com meus dedinhos apaixonados uma a umazinha com todo carinho. Recolocando-as de mansinho, com uma cola que cola tudo numa perfeição mais que perfeita, aquelas florzinhas ainda respirando debilmente, assoprar em suas boquinhas florais um bafo com odor de primavera que seja nesse inverno quem nem frio faz.
Por falar em sorriso, desde ontem, ao chegar de um pasto a ser roçado por dois amigos novos, tenho tido um trabalhão danado em tentar encontrar os causadores de uma coceira, invisíveis carrapatinhos de nome micuins ou carrapatos pólvora. Sobre eles já deixei escrito ontem o que penso delezinhos. São umas praguinhas das lavouras e das pastagens onde o gado pasta um capim seco prestes a sofrer assalto de um incêndio que pode ser de grande porte ou pequenino miudinho como os tais micuins.
Não posso ver, mesmo com a proteção de um par de óculos de grande aumento. As carinhas ou as patinhas, nem os ferrões diminutos dessas coisinhas mínimas. Pestezinhas praguinhas nada inocentes. Que se escondem e deixam marcas vermelhas e um prurido inigualável onde picam.
Uma pergunta deixo que vocês me respondam: “micuins têm boca? Se as tem eles têm dentes? E se os têm comem e mastigam como a gente? Elezinhos comem torresmo e outra coisa crocante de sabor sem igual? E mais uma perguntinha sozinha lhes faço nesse momento momentâneo: esses carrapatinhos miúdos e chatos conseguem mostrar suas bocas e dentes sorrindo da gente a nos encher nosso saco de ferrõezinhos que nem são vistos e sim a consequência que nos deixam essa coceira danada que não passa nem nas madrugadas enluaradas?”
Não sei e até mesmo ignoro se micuins riem a gargalhadas estridentes se nem sei se eles têm dentes ou boquinhas abantonzadas. Não como daquela linda mulher, cuja idade não posso dizer, pois não se deve perguntar as mulheres de mais idade quantos anos a senhora tem pois tenho comigo que certas mulheres escondem a idade. Apesar de as rugas que lhe passeiam pela face, aqueles olhos dantes sonhadores acabam tendo pesadelos só de pensar em mais um alvorecer.
Nada melhor que, de quando vemos o sorriso de uma criança, que seja de um adulto ou mesmo vindo de um vetusto senhor ou senhora. Que seja numa manhã domingueira ou numa sexta feira a qual dizemos alegremente “sextou!”
Que a um sorriso aberto, de braços abertos, felizes da vida ou não. Poder dizer a outrem que pela gente passa: “bom dia, boa tarde, bom final de semana ao senhor, apertar mãos mesmo desconhecidas. Dar um abraço e retribuir com um sorriso ao abraço bem dado.”
Felizes da gente que ainda vive, sozinhos, isolados do resto do mundo. Que seja numa rocinha igualzinha a minhazinha. Ou numa ilhotinha perdida num oceano apenas com um coqueiro do lado. Olhando em direção ao meio do nada cercado de água salgada de um marzão infinito que não nos deixa aflitos nem preocupados por estarmos no meio de um lago seco no meio de lugar nenhum.
Felizes de nós, que deixamos filhos que nos deram netos, mesmo que não nos frequentem a eles não os ignoramos e os presenteamos com muitos mimos que não tivemos.
Felizes somos nós, embora não me sinta velho nos meus quase oitenta, em breve, noutro dezembro não tão distante dos meus setenta e seis, espero chegar aos tantos outros entas. Com o mesmo tirocínio inteiro, minhas passadas antes lépidas e hoje mais lentas. Com essa minha visão não tanto acurada como a de um falcão a espreitar sua presa. Mas ainda soberba, munida de um par de óculos que inda não carece de tantos graus. Que escreve mais que posso e tanto menos que gostaria.
Feliz sou eu, que inda médico sou, só a morte vai me impedir de deixar de sê-lo. Que tanto posso sorrir ou chorar quando a ocasião enseja. E, se me faltar o riso, por uma razão qualquer, como quando perdi meus pais e entes queridos. Que volte a sorrir novamente como quando lancei um ou outro desses meus vinte e tantos livros. Os quais tenho como filhos, melhor ainda netos, tanto faz, pois não faço distinção entre eles três: Theo, Dom e Gael.
Não somente nesse domingo, nessa manhã que começou cinzenta e meio fria, e agora um solzinho tímido me faz alegrar mais.
Sinto-me mais feliz ainda dentro de momentos de infelicidade que se manifesta na minha bipolaridade.
Sou assim, ora feliz e alegre, outra hora murcho minha alegria, quase igual aquelas lindas florzinhas amarelas que se despetalaram de sua mãe ipê, ali mesmo na praça de nossa praça principal de minha amada Lavras que dantes e agora é chamada de Terra dos Ipês e das escolas.

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