Pensei em ser

Tantos e tantos pensamentos passaram-me pelas lembranças que nem mesmo os sei contar nos dedos.

Ainda no útero da mãe talvez tenha pensado em sair de lá. Pra que, só depois vim a descobrir.

Depois de expelido o concepto, e ver a carantonha da vida, ainda na sala de parto, lambuzado de sumo da mãe, o que será que pensei?

Teria sido na felicidade dos dois, pai e mãe, ao ver a carinha esquisita daquele recém nascido, em nada parecido a ninguém?

Ou seria na conta do hospital, naqueles idos anos não havia plano de saúde, muito menos carteirinha do SUS.

Dias depois saí da maternidade, sem ter idade e opinião formada, do que seria depois.

Uma vez em casa, aquela casa assobradada em Boa Esperança, terra que Lamartine Babo imortalizou com sua “Serra da Boa Esperança, esperança que encerra, no coração do Brasil um punhado de terra, no coração de quem vai, no coração de quem vem, serra da Boa Esperança meu último bem. Parto deixando saudades”… e por aí vai, talvez tenha sonhado em ser gente grande.

Aos poucos anos de idade comecei a sonhar sonhos azuis.

O que viria a seguir, já teria de estudar, me formar, ser alguém?

Pena que a marcha inexorável dos anos teria de seguir adiante. Como seria bom ficar do jeito de antes. Menino artioso, moleque caçador de passarinhos, estudante apenas, olhando as pernas grossas das coleguinhas, cabulando aulas para jogar futebol naquele clube que até hoje frequento, sem a obrigação de me formar, trabalhar, em que atividade fosse.

Os tempos tiquetaquearam em seu trote lento.

O menino cresceu. Não tanto, como os jogadores de basquete que foram campeões na última olimpíada. Também não havia genética para tal crescimento.

Logo o menino saído da barra da saia da mãe foi estudar na capital das Minas Gerais.

Não sei como me passou pela cabeça oca ser médico? Não havia predisposição familiar para tal feito pintado de branco. O esculápio naqueles tempos usava se vestir de branco. Depois, os tempos mudaram, e, por influência da mídia, ao vermos aqueles profissionais de saúde engravatados, elegantemente trajados, por sobre a camisa social um jaleco branco, não tanto quanto a alma de alguns profissionais sem alma, o branco passou a adornar as flores do ipê, em contraste as amarelas que acabam de fenecer.

O fato é que me fiz médico há mais de quarenta anos atrás.

Sempre me recordo, durante a minha formação profissional, o estágio em terras d’além mar.

A Espanha é um país admirável. Boas lembranças trouxe de lá.

Uma vez aqui, em minha querida Lavras de um funil que o tempo represou, aquele mesmo menino adulto ficou, a medicina entronizou em mim o cirurgião que sempre me acompanhou.

Até há pouco tempo não pensava em outra coisa a não ser nas doenças treteiras, nas próstatas crescidas, na urina estancada, na dor da pedra descendo antes de ser eliminada, na falência do sexo na idade provecta, nos testículos indecisos, se desciam ou ficavam onde estavam, nos pênis encapuzados, com vergonha de mostrar a cara, nas doenças ligadas ao sexo, agora modificadas pela libertinagem das relações sexuais, não se sabe quem fica por cima, ou por baixo, quem é o macho, a quem se chama de fêmea, em tantas nuanças da especialidade que abracei apaixonadamente, pensava em ficar apenas como profissional do bisturi.

Agora, na aurora da minha vida, depois que a infância perdida desapareceu no olhar longínquo da saudade, longe da aposentadoria, da boa vida deitado no ócio considerado por mim o inicio do fim, ainda penso, repenso, em tantas coisas.

Ainda ontem pensei em me candidatar a algum cargo político.

Considero-me assaz conhecido em minha terra, não onde tenho o umbigo enterrado, mas tenho aqui o coração guardado, as lembranças eternamente entronizadas, daqui não quero sair, jamais.

Ao pensar ser candidato, à vereança, ou prefeito, ou até mesmo deputado, confabulei com meus senões.

Caso seja em verdade candidato a vereador teria de me abdicar de tantas coisas, tantas, inclusive nem sei se votaria em mim mesmo.

A prefeitura não me seduz. Com a falta de recursos dos tempos hodiernos a minha estada ali seria um inferno. Não saberia dizer como endireitar a saúde pública. Ela está enferma, à espera da extrema unção.

Como deputado seria um fiasco. Amava profundamente Belo Horizonte. Já hoje, andador contumaz, não imagino como iria me deslocar a pé, com aquele terno escuro, engravatado, pelas ruas asfaltentas da capital mineira.

Agorinha mesmo, antes de finalizar este texto, cujo título é “pensei ser”, são tantas coisas pensadas, impensadas algumas, que acabei meu parecer.

Vou continuar como sou, feliz como estou, simplesmente como artesão de sonhos, escrevinhando estas fantasias imaginosas, nascidas de uma mente fértil, como fértil é a terra fecunda de nosso país.

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