Hoje a cama me ejetou, a exemplo do piloto expelido do jato prestes a estatelar-se no chão depois de uma falha mecânica, bem dentro da madrugada.
Não houve como ficar na maciez da cama. Talvez pelo calor em demasia, neste inverno com jeito de verão, ou ainda dada à intensidade com que a literatura se apossou de mim, nestes tempos difíceis para o país, para quem escreve parece que as dificuldades inspiram mais e mais, não há como deixar o pensamento descansar, se ele flui como fluem as ondas do mar.
Ontem, uma quarta-feira, meio de semana, dia morno como os que têm acontecido, tanto nas atividades profissionais autônomas, quanto em outros setores estagnados imersos pela cabeça na grave crise por que passamos, antes de ir à academia, não a que congrega escritores, poetas, pensadores, e sim a que cuida com competência e equilíbrio do estado físico de quem costuma se exercitar, passei pela casa que foi dos meus pais. Ali reside uma prima irmã mui querida. A Rosinha é o elo perdido entre a saudade e as lembranças de um passado que ali reside, desde que ali vivi, na década de cinquenta.
Ao trocar a roupa de médico que ainda moureja na ponta do bisturi, no mesmo quartinho onde ensaiei os primeiros desenhos na página da vida, ao olhar pela janela dos fundos, uma que pode ser vista de onde escrevo, de onde ainda se pode ver o pequeno prédio pra onde vou me mudar, não se pode observar onde agora me escondo, sem querer me esconder, pensei, cá comigo: “do passado (a casa dos meus pais) se pode ver o presente (o prédio onde trabalho), antevendo a visão do futuro, o apartamento onde vou residir, junto ao meu neto, a minha esposa, a filha querida, meu genro, onde, com certeza, sem medo de errar, vou ser feliz até onde a memória alcança”.
Durante a noite curta fui assaltado por um sonho. Qual seria o lugar ideal para se viver? Precisamente às cinco da madrugada passei à sala do lado. Liguei a televisão. E continuei a assistir ao filme encenado no Afeganistão. País assolado por uma guerra sem tréguas, natureza inóspita, povo com ideais conturbados por um fanatismo religioso que via de regra leva à loucuras, talvez não fosse o lugar ideal para se morar. O filme terminou, acordei de vez, tomei uma ducha morna, e desci a rua em direção onde estou.
Durante a caminhada curta distribuí perguntas a alguns passantes selecionados. A todos inquiri com os mesmos dizeres: “qual seria o lugar ideal para viver”?
As repostas concordaram em alguns setores. A maioria respondeu que gostaria de viver aqui mesmo, junto à família, no achego do lar, na minha cidade, que, se não me viu nascer, observou-me o crescimento, a intuição desenvolver, a sensibilidade se apiedar das pessoas, principalmente aquelas menos aquinhoadas pela sorte.
Ao chegar ao edifício onde passo horas amenas do dia, ou exercendo meu lado médico, ou se lembrando de que sou escritor, perguntei ao jovem da portaria se ele gostaria de viver naquele cubículo acanhado, onde existe uma televisão de curta polegada, uma cadeira onde ele, de quando em vez, assenta, nada mais, só. Foi quando dele ouvi a resposta, que me pareceu bem adequada : “gostaria de morar dentro de onde sou feliz. Caso seja dentro de mim, ou junto a meu filho menor, tanto faz. A casa não faz o monge, nem mesmo o castelo que a gente constrói, e não tem tempo de morar dentro dele”.
Depois de subir de elevador, aquela caixinha de dimensões acanhadas, que sobe e desce quando não empaca no meio do caminho, acabei por decidir que ali dentro, com certeza, não seria o lugar ideal para se morar.
Depois de tantas indagações, perdidas no emaranhado da confusão que eu mesmo estabeleci, acabei por me lembrar da história de um camaradinha de parcas dimensões de altura, insatisfeito com ele próprio, de nome bem sugestivo, para quem aprecia causos sem pé ou cabeça.
Zezinho Malsucedido nasceu numa noite sem lua.
Aos primeiros passos não sabia se seguia adiante ou dava marcha-a-ré. Em criança não imaginava o que seria quando fosse maior. Talvez pensasse apenas em ser grande. Não médico, engenheiro, poeta ou professor.
O pobre e indeciso Zezinho Malsucedido enveredou-se pelo descaminho da perversão e das drogas pesadas. Não por inspiração dos pais, dos avós.
Todos da família, uma linda casa onde tantos desejariam fincar raízes, foram exemplos de pessoas retas, íntegras, bem sucedidas em suas profissões. Menos o pau torto do filho desassistido de boas intenções, batizado de Zezinho Malsucedido.
Bem que ele tentou a carreira de professor. Graduou-se no magistério com notas razoáveis. Mas logo debandou, durante uma aula da turma de Geografia, por um singelo motivo: não sabia onde ficava o Afeganistão. Depois enveredou-se pelo caminho dos números. Foi contador, mas contava tanta prosa, que foi despedido pelo diretor. A seguir, com a intranquilidade que a ele seguia como a borboleta em volta da flor, passou pela banca de advogado. De tanto advogar em causa perdida, de fazer ponto em porta de cadeia, de bacharel virou réu, num processo por porte ilegal de droga. Daí a fazer nada foi um pulo curto. Fazia ponto num banco da praça, ao lado de amigos do ócio.
Como se tornou amigo dos goles acabou como dono de bar. Tomou todas, e acabou bebendo o estoque. Pediu falência do estabelecimento, ficou com o nome sujo no SPC.
Um dia, durante as minhas caminhadas matinais, em direção ao trabalho, no sétimo andar do prédio onde gostaria de morar, ao lado dos meus computadores, do aquário agora vazio, dos meus livros que contam histórias sobre tudo, inclusive de mim, de um painel recheado de fotografias de um passado que não gostaria de olvidar, de uma pequena sala de cirurgia que não permite que o cirurgião enterre o bisturi, de outras coisas importantes para mim, avistei, na sala de espera, à espera de uma consulta marcada para outro dia, o jovem adulto Zezinho Malsucedido.
Ele aqui apareceu para me dar o testemunho de sua vidinha errática, poder-se-ia dizer infeliz.
Depois de um dedal de prosa, antes que ele dissesse a razão da consulta propriamente dita, a ele inquiri qual seria o lugar ideal para se viver?
Zezinho Malsucedido coçou os neurônios gastos. Gaguejou a princípio. Só depois de vinte e tantos minutos dele ouvi a resposta: “quer saber? É o lugar onde a gente consegue o sucesso profissional, não apenas na questão de dividendos. Ou salário, ou ganho mensal”.
Só então descobri o motivo pelo qual a gente não se sente feliz. Em lugar nenhum. Mesmo que se more num castelo de torres altas, ou numa praia paradisíaca, num paraíso fiscal.
O que conta para ser feliz, naquele ou naqueloutro lugar, de fato, reside num simples fato – a realização pessoal. Seja no trabalho. Na convivência fraternal. No contato direto e íntimo com as pessoas, sejam elas de que cor ou sabor se pintarem.
Eu, no meu canto, ao sabor dos desencantos que aparecem por todo canto, acabei por me tornar feliz no meu canto, dentro da pessoa que me tornei, sinto, pressinto, ser o lugar ideal para viver, até que a morte venha me buscar…