As indefinições me acompanham durante as madrugadas frias, as manhãs com o sol risonho, as tardes com o sol se pondo, o meio do dia com a fome apertando, indo e voltando de cima abaixo, nas minhas caminhadas sem parança.
Num dia penso ser médico. O que de fato continuo a ser, depois de mais anos e anos empunhando o estetoscópio e o quase aposentado bisturi.
Noutro imagino ser fazendeiro. O que já fui, com notória falência na lida com as pobres vacas, seres que ruminam sobre o que irão comer na parte da tarde, com fome pela manhã, que não termina nunca, principalmente na entressafra, quando o preço do leite despenca como as águas da cachoeira depois de uma chuva de verão.
No terceiro dia, depois de uma noite insone, pensando que estrelas são vagalumes piscantes, que um dia resolveram estacionar no céu, ali se empoleiraram, passaram a viver tranquilos, como um dia acontecia ao menino que um dia fui. Neste dia lindo sonhei ser um atleta de corrida. Corria tanto que minhas pernas pediam trégua. Eu não lhes dava. Ao contrário, dava-lhes mais trabalho.
Depois do sonho de ser atleta, corredor de maratona, pensei ser nadador calopsita. Aquelas avezinhas desengonçadas, que mal sabem voar, fora da gaiola são como patos fora d’água, quase se arrastam quando se lhes cortam as asas.
Voltei a pensar nas pedaladas que um dia, muitos anos atrás, assim que deixei as rodinhas da bicicletinha no fundo do armário da minha imaginação fecunda, lembrei-me de quando ganhei um galo enorme na testa, que foi curado por um beijo apaixonado dado por minha mãe.
Após sepultar em mim o atleta que os anos não permitem mais sonhar, pensei, com meus senões: “que tal ser escritor, um cronista de renome internacional, um romancista que passa aos seus livros histórias que nada mais são do que as próprias experiências amorosas, muitas delas viraram pólvora de estampidos que repercutiram apenas em meus ouvidos moucos, ou um contador de causos da roça, para crianças recém iniciadas na linda seara da leitura, ou ainda, para não cansar os leitores, um escritor sério, que não abre o sorriso, um poliglota versado em não sei quantos idiomas, mas que não deixa nunca aquele linguajar mineiro, que não se cansa jamais de dizer: “ trem bão, iguar num tem, isturdia tamem, sumiu na braquiaria, inguliu sapo e cuspiu marimbondo tatu, vo me isbudegar de tanto pega muié, e por aí termina a prosa do minerin que fuma cigarro de paia iscorado na canela fina”.
Sucedendo o escritor, que busco em profundidade ser, ainda vou ser grande, a exemplo de Garcia Marques, Saramago, Machado de Assis, Rubem Alves, meu conterrâneo de Boa Esperança, tantos e tantos outros, embora apenas aprecie escrever o que o povo entende, algumas palavras as faço minhas, passei a querer ser padeiro.
Mas, acordar cedo, como faz o retireiro, não me apeteceu tanto. Numa manhã solitária, quando ia à padaria assar os pães, deixei os pobres queimarem. Fui despedido por injusta causa pelo dono da casa dos pães. Nem fui à justiça reclamar meus direitos trabalhistas.
De padeiro indisciplinado fiz-me padre devoto. Por falta de idade de ser seminarista não fui aceito na ordem da igreja. Não por falta de fé, nos desiderios de Deus. Mas por pura falta de tempo, já que queria ser tanta coisa, tanta, que não me sobrava tempo.
Como padre seria um pífio rezador de missa. Não sei latim, como adoro o latir dos cães.
A próxima empreitada fez do que sobrou de mim um passeador de cães. Um dia soltei os animais, tornei-me um deles, e hoje vagabundeio pelas ruas sem pouso definido. Tenho tido cuidado com a carrocinha. Para que não me levem a um canil, onde talvez fosse bem tratado, mas não me iriam permitir levar a minha máquina de escrever.
Depois de tantas tentativas de me dar bem, seja nessa ou naqueloutra predestinação, caminhando, como sempre faço, como cachorro sem dono, ou fogo subindo a colina, assaz conhecido em minha cidade, ainda vou ser no planeta visto de longe pela lua, sempre passo por uma ou outra pessoa que me conhece.
Muitas me param, pedem explicações sobre a medicina que ainda brota dentro de mim, ou sobre um escrito recente.
Hoje não foi diferente.
Bem perto de onde estou, a escrever febrilmente, apareceu um senhor, do qual ignorava a procedência, que me lançou o seguinte desafio: “ meu caro médico. Ou seria escritor? O senhor, de tantos predicados e virtudes, de tanta cultura intrinsecamente ligada ao seu âmago, de tantos conhecimentos da vida pública, de tanta simplicidade pura, porque não se candidata a algum cargo político”?
Aqui cheguei, tentei confabular com minha mente fecunda, sobre a outra profissão que ainda não tentei, chegando à seguinte exclusão. Ou seria conclusão?
Quem sabe, um dia?