Quero voltar ao interior do meu interior

Uma vez perguntei a tantos quantos me passaram pelo caminho: “qual seria o lugar ideal para se viver”?

Muitos responderam que era a sua cidade. Outros que gostariam de se mudar. Já terceiros afirmaram, com razoável veemência, que apreciariam se mudar simplesmente de vida, já que o modus vivendi atual não lhes convinha, e precisavam com premência metamorfosear-se de casulo em uma linda borboleta, se possível azul, ou de que cor fosse, desde que a felicidade estivesse envolvida nessa transferência.

Eu gostaria muito de mudar de idade. Embora esteja muito bem nos meus sessenta e seis anos, que se transmutam em mais um no próximo dia sete de dezembro.

Se pudesse conservar a sabedoria, a experiência, as coisas boas acumuladas nesses anos todos aqui experimentados, e vestir o capote dos meus vinte anos, quase na iminência de entrar na faculdade de medicina, talvez tenha sido o melhor ano da minha vida, não sei por que, nem imagino, nem quero saber, aí sim, conservando tudo que tenho, não os bens materiais, e sim os bens pessoais, dentre eles incluo: a família, os pais que tive, os parentes que me olham de longe, muitos deles não se achegam, confesso, sem medo de me equivocar – me mudaria para o interior do meu interior, bem no âmago, onde vive a alma, os pensamentos mais profundos, a intimidade do meu mundo, que só a mim interessa, a ninguém mais.

Ontem estive em Belo Horizonte. Não aquela dos anos bons em que lá vivi.

Naquele distante hoje 1967, ou seria 1968?, eu, mais jovem, bem mais, ali morava como estudante, esperando, ansiosamente, um dia virar doutor.

BH era sonoramente diferente. Poucos carros trafegavam por aquelas avenidas largas, pessoas não tinham a pressa de agora. A faculdade de medicina, o cursinho pré-vestibular, os amigos de então, muitos não mais estão entre nós, o parque municipal, as ruas por onde andava, os cinemas que frequentava, os bailes da faculdade na Avenida Alfredo Balena, onde garotas caçadoras de futuros doutores acorriam como abelhas ao mel, o edifício Duque de Caxias onde morava junto a dois amigos, o que olhava de cima o viaduto vizinho do parque pulmão da capital, o hospital onde aprendi a arte da urologia, todos os cenários familiares foram ficando pra trás, até se reduzirem a um monte de escombros que se chama saudade.

Ontem voltei da capital. Foi uma viagem curta ao passado.

Passei perto de ruas por onde andava. Elas estavam diferentes.

Fui ao centro nervoso de BH. O trânsito fungava estressado. Carros, veículos automotores de todos os tipos, pessoas num ritmo frenético de ir e vir, a correria desatinada do cotidiano das grandes cidades, tudo aquilo me fez remoer o passado.

Meu filho, o que nos conduziu ao comércio, paciencioso motorista, foi multado por fazer uma conversão proibida.

E nós, minha esposa e eu, com o tempo rugindo desafiador, entrávamos e saíamos de lojas naquela azáfama corriqueira. De sacolas dependuradas nas dobras dos cotovelos, bolsas a tira-colo, temerosos de sermos roubados, olhávamos assustados as cercanias, angustiados como as pessoas que passavam do nosso lado.

Enfim, depois das compras feitas, mal refeitos do susto de estarmos naquele ambiente complicado, com o estômago às costas, já com o carro em movimento, celular na algibeira, observando mendigos encrakizados dormindo um sono falso debaixo das marquises, sorte na hora não chovia como chove hoje, o tempo buzinando contra a nossa pressa, tínhamos de voltar à Lavras de carona com meu genro, que já nos esperava com o auto ligado, paramos num shopping moderno, onde pessoas almoçavam na praça de alimentação, naquela pressa costumeira, comida mal digerida entrando-nos boca adentro, banheiros avidamente disputados como a sofreguidão da vida, deglutimos contrafeitos um menu seleto, onde nomes de comidas enchiam o cardápio de indigestão, para afinal, depois de meio dia de furdunço, naquela cidade que já foi a minha, hoje é de todos os mineiros, voltamos apressados ao interior do meu interior.

Se me fosse permitido escolher, dentre tantos lugares para se viver, de Nova York ao Cairo, de Adis Abeba à bucólica e intrigante capital da Noruega, do Havaí a Colchicina, de Caracas ao Rio de Janeiro, muitos dizem ser a cidade mais linda do mundo, de Carmo da Cachoeira a Ijaci, onde tenho uma rocinha linda, de onde tiro histórias que fariam corar a Carochinha, de Istambul, meio caminho entre o oriente e o ocidente, a Israel, entre tantas e infindáveis comunidades, se me fosse facultado a facilidade de eleger, qual a cidade melhor para se viver, afirmo, sem medo de cometer senões, seria, dentro do meu âmago, profundamente inserido no meu cerne, bem perto do meu coração, entronizada perto de minhalma, quando afinal voltei de Belo Horizonte, viajando apressado pela Fernão Dias, rodovia assaz transformada que em nada lembra aquela dos meus tempos idos, em direção à minha querida Lavras, pensei como o matuto mineiro da roça, seu Zé do Pasto Sujo, que nunca saiu do seu rincão, a não ser para uma viagem romaria à Aparecida do Norte- “quero voltar ao interior do meu interior”, nem que seja pela última vez.

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