Sou um cadinho feliz dentro do muito que me propus a sê-lo

Como ser completamente feliz se o mundo em volta conspira contra esse sentimento?

Como ficar alegre depois de escutar tantos e tantos lamentos?

Como arreganhar o semblante após assistir, impassível, a tantas pessoas de sorriso trancado dentro de um riso guardado no interior do cofre forte de uma alma que vaga ao sabor da desventura de não encontrar sualma metade?

Como se sentir com o coração transbordando de felicidade enquanto tantos outros têm o seu a mercê de tantas e tantas decepções e desilusões?

Como sair da couraça sufocante de sua infelicidade quando tanta gente fica impotente em domesticar a própria ansiedade e lança mão, para tentar iludir a pressão a que é submetido no dia a dia cruel: desemprego assolando-lhe o desejo de sustentar a família, renda insuficiente para fornir a despensa, trabalho em falta, assistência médica capenga, tanta roubalheira nas esferas superiores, ao nível do rés do chão também a deslealdade grassa que nem erva daninha, ficando o pobre desafortunado mercê da sua falsa e ilusória incapacidade de ser feliz, como eu sou?

Hoje desci a rua, depois de uma viagem curta à capital do meu estado.

Ali fui para relançar um livro de crônicas, episódio já realizado em minha querida Lavras. Com resultado além do esperado.

Era uma reunião da Sociedade Mineira de Escritores Seccional de Minas Gerais.

Ali fui em companhia de um amigo caro, com quem desejo estreitar ainda mais a amizade que nos aproxima desde tempos recentes.

Fiz-me acompanhado de uma dezena de livros- “Mugido de Vaca e Cheiro de Curral” enfeitava-me uma pasta de couro marrom, lembrança de um congresso de urologia que se perdeu nos liames do tempo.

A reunião entre médicos, esposas, convivas gentis, começou impontualmente às oito e meia da noite.

Esperava, com a pasta recheada de livros, ansiosamente, assentado confortavelmente a uma poltrona que se permitia tatuar pelos nossos corpos cansados, depois de um dia exaustivo de trabalho.

Imprecisamente às oito e meia daquela noite de ontem, olhos pedindo sono, começou a efeméride.

Foi um conclave de poucos frequentadores, mas de muita leitura, de textos recheados de poesia, de prosa como a minha, de notícias recentes de eventos literários.

Eu, antes associado de tal agremiação de médicos escritores, hoje afastado por motivos vários, entre eles a distância e a incapacidade de frequentar reuniões, levei meus livros à apreciação dos colegas de várias idades e sentimentos fugazes de felicidade por serem escritores.

Sabedor da crise por que passa o país, doutor em tentar, debalde, vender livros como o vendedor experiente sabe como comercializar cerveja naquele bar bem frequentado por bebedores de cerveja, tive uma grata surpresa ao constatar que minha pasta marrom em pouco tempo ficou livre do peso de um livro morto.

Li duas crônicas que trouxe na algibeira. Depois de ouvir, atentamente, a outros trabalhos saídos da inspiração maravilhosa de colegas literatos.

Minhas duas crônicas foram aplaudidas com frenesi pela plateia admirada. Foi, talvez, a última, a que mais fez sucesso entre todos os trabalhos.  Ela consta no meu livro Mugido de Vaca e Cheiro de Curral.

Deixei a reunião tarde da noite. Era uma noite quente, abafada, na capital Belo Horizonte, a linda capital de todas as Minas Gerais.

Antes de deixar a cidade, em direção a minha, com a pasta marrom livre de mais de dez livros, restavam apenas dois, sabedor do sucesso da minha leitura, do agrado que meus textos deixaram, senti-me um cadinho feliz, dentro do muito que me propus a sê-lo.

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