Um dia tive uma ideia. Por que não substituir a noite pelo dia? Podem pensar que tal pensamento seja estapafúrdio, fora de propósito. Sei que o mundo, desde quando veio ao mundo, depois da noite aparece o dia. Pra muitos não é assim. Em alguns países de insolação deficiente, citam-se os países nórdicos, como exemplo a Noruega, quase não se vê a luz do sol. Sei de uma cidade de ali, que, por um simples motivo: a luz do sol não entra, a depressão se torna prevalente. A infelicidade domina. A tristeza prepondera. Para transformar a noite em dia, a eterna escuridão em luminosidade, resolveu-se, em comum acordo na cidade, fincar espelhos enormes em pontos estratégicos, para que a luz do sol refletisse sobre a praça central, iluminando assim o coração dos habitantes daquele lindo país escandinavo, considerado lugar ideal para se viver. Fora o Brasil, fora as podriqueiras de várias naturezas que se vêem por aqui.
Sei que a noite sucede o dia. Sei que o amor deveria sobrepor-se ao ódio. Bem sei que a vaidade não deveria existir. Sei ainda que a noite é necessária para recompor-nos a energia, dando-nos capacidade e sagacidade para enfrentar um novo dia.
Mesmo sabedor de tantas e tantas verdades, embora desconheça mais do que tento conhecer, ao chegar a noite, depois de um dia iluminado, mesmo que tenha sido um dia onde as nuvens tapem a boca do sol, ou dia de chuvas intensas, como faz falta a chuva para colorir de verde a natureza, para fazer vingar a roça de milho plantada de pouco, para engordar as vacas e seus bezerros famintos, para permitir que o homem do campo sorria, para tantas e tantas e tantas, que não sei quantas são, existem dias em que prefiro que a noite não chegue.
Certo que essa é minha opinião. Que pode não ser aceita pela maioria esmagadora da população.
Existem os que dormem mais que a cama. Outros que deixam a cama entregue aos seus lençóis, aos travesseiros amarfanhados, ao colchão exibindo a tatuagem de um corpo pesado demais as suas forças, antes que a galinha cante no poleiro. Tendo o galo por companhia, ou o sono frugal do padeiro madrugador, que tem de acordar antes que a noite termine, ou até mesmo o pobre retireiro, ordenhador de vacas, que pula cedo da cama, de domingo ao domingo, sem descanso que a noite dizem dar.
Por mim estenderia a luz do dia entrando noite adentro. Deixaria a luz predominar. Não sei qual a opinião das estrelas, da luz da lua, dos vagalumes piscantes que enfeitam os ares da roça. Eles todos podem não desfrutar da minha opinião, de abolir as noites do calendário, eliminar o sono, o cansaço, a apatia, a indiferença de muitos aos menos afortunados.
Por mim não permitiria nunca que a noite chegasse. Viveria apenas ao sabor dos dias, iluminados pela luz solar.
Tenho medo da noite, não vem de agora esse pensamento.
Uma vez criança, saudades tenho daqueles anos bons que não voltam mais, sonhava que a cama iria me engolir. Que não acordaria, ou que acordaria sem ver o sol, os pássaros cantando, as árvores gritando de saudade do sol.
Coisa de criança, talvez. Mas, a criança que morava dentro de mim tinha solene pavor das noites escuras. Adorava ver o dia raiar, o sol abrir a boca amarela, sem escovação adequada, talvez o sol nunca tenha visitado o dentista, a lua se recolher ao seu leito nupcial, depois de uma noite de amor nunca antes vista na abóboda celestial.
Tenho, até hoje, pavor da noite. Talvez por esse motivo não consiga dormir por muito tempo. Tenho de usar um indutor de sono para enfrentar os perigos que a noite traz. Em sua carranca escura, em seu mau humor cotidiano, em sua infeliz trajetória no globo terrestre.
Tenho medo da noite por motivos sobejamente declarados. Tenho medo de não acordar. De morrer durante o sono. De faltar-me ar nos pulmões. De sonhar sonhos que não gostaria de sonhar. Ou de acordar num falso paraíso, sabendo que o paraíso fica dentro de nós mesmos, basta saber onde o encontrar.
Temo a noite escura, a noite clara, a noite quando caem raios sobre a terra. Tenho pela noite uma aversão sinistra. A noite não me cheira bem, como o perfume que emerge da terra depois de uma chuva benfazeja, saindo das flores do campo, durante o dia de sol, tenho dito.
Tenho medo da noite desde tenros anos. Desde o dia quando, minha mãe, agora no céu, quando tentava, jovenzinho imberbe, passar a sua cama, temendo pela falta de luminosidade da noite, ela me disse, com sua voz mansa: “Paulinho, fique quietinho em sua cama. Que logo a noite passa”.
Naquela noite insana a noite não passou. Ao contrário, a minha mãe passou ao outro lado da vida. E eu fiquei órfão da noite, desejando que os dias vençam a capacidade de a noite virar dia.
Tenho de fato enormes motivos de temer, e desgostar da noite. Mas respeito aqueles que prezam a força e magia da noite, como não desrespeito aqueles que adoram, como eu, a luminosidade de um dia como o de hoje. Que de vez em quando escurece, prometendo chuva.
Hoje acordei sem ter dormido. Pensei tantas e tantas coisas. Que não acordaria, mesmo sem fechar os olhos, por um minuto sequer.
Pensei, depois de ver o dia superar a noite, de perceber a luz do sol, esmaecida, confesso que iria, durante a escuridão da noite, viajar para um lugar lindo, sem noite, apenas dias em que a noite não existiria, para junto dos meus pais.
Acordei semi-acordado. Dormi um sono não existido. Passei a noite em claro. Odiando as noites, temendo que não despertasse, sem ter de fato dormido.
Ao final, confesso, uma vez mais. Tenho pela noite uma sonora antipatia. Como tenho, pela luz do dia, mesmo não sendo um dia docemente iluminado, a exemplo, esse dia véspera de feriado, dia 11 de outubro, uma alegre e bem resolvida simpatia graciosamente bela, como bela é a vida sem as noites. Vida que deve ser bem vivida em intensidade plena, mesmo ao sabor dos dias em que as noites predominam…