Na roça o canto da seriema, assim como o da cigarra, indica seca. Ao revés, quando o trinca ferro cantar, atraído pela chama do boi (espécime de trinca ferro usado como chama), indica a chegada da chuva. Benditas gotas descidas do céu, talvez ensejadas pelo choro dos anjos, ou de alguma pessoa sensível que para ali partiu, deixando saudades em quem ficou.
Quando eu morrer, se tiver de acontecer, que não seja num dia como o de hoje. A chuva ameaça cair. É primavera. Estação das flores, dos amores abertos num abraço, num beijo, o primeiro de uma sucessão de outros.
Caso eu tenha de vir a morrer, ir ao encontro dos meus pais, aí sim, não desejo retardar essa efeméride. Mas, caso eles voltassem aqui, ao olharem a paisagem tão linda que se mostra da minha janela: a serra cinzenta de olhos serranos me avistando de longe, o prédio pra onde vou me mudar, para junto do meu primeiro neto, Theo, talvez, do lugar magnífico onde estão, conhecido por vários nomes: eternidade, céu, lugar ao lado de Deus, dos seus guardiães, os santos, onde, por certo moram anjos, meus pais, movidos por uma saudade imensa, quem sabe renasceriam sob a forma de uma criança, com a mesma lindeza do garoto Theo.
Existem certas pessoas que não deveriam partir rumo à eternidade. Pessoas existem que deveriam ser imortais. São pessoas como meus pais. Os pais de muitos amigos meus. Ou pessoas como ele, do qual escrevo neste começo de primavera.
Voltando aos vaticínios sobre chuva, sobre os quais declinei antes, sei, imagino saber, embora seja admirador dos urubus, eles, aquelas avisgourentas, caçadores de carcaças apodrecidas ao léu, são os arautos da morte.
Quantas e quantas vezes quantas, quando corria por estradas asfaltentas, aquelas corridas loucas, próprias de autos em viagem, os urubus espreitam os olhos sobre mim.
Não lhes faço caso da presença. Sei que aquelas aves negras como a noite que antecedeu minha corrida de hoje cedo são vitais para a saúde do meio ambiente. De tanto prezar a figura do urubu dei a um livro de crônicas recente o nome de “Voo de Urubu”.
Deixei a casa por volta das seis e pouco. Queria correr. Pra onde, nem de longe imaginava, naquela altura da cidade, quase vazia de pernas humanas.
Assim que dei de olhos e pernas nas vizinhanças daquele colégio que me acolheu nos verdes anos da minha infância vi, de relance, um velho conhecido. Parei por breves instantes. Ele estava acompanhado de uma cuidadora de idosos. O tal amigo, escritor reconhecido, dono de uma inteligência que brilha como estrela em noite de lua cheia, me pareceu melhor que da última vez que nos vimos. Sei que o prognóstico de sua sobrevida é limitada. Sei que a doença que lhe meteu os dedos funestos é deveras complicada. Mas, de outra feita, quando me disseram que o amigo, hoje reencontrado, descendo em direção a uma missa, havia ido ao além, tempos depois ele ressurge, como aquela ave de nome Fênix, refeita das cinzas de um falso passamento.
Deixei o amigo enfermo pensando na vida. Na minha, na dele, e de tantos enfermos ditos terminais. Como médico sei que a morte por vezes engana. Quando menos se espera ela volta sem levar em seu rabecão negro o defunto presumivelmente falecido.
Tomara que a carruagem da morte desta vez não o leve nas suas asas negras o corpo inerme, desprovido de carnes, portador de cruel enfermidade, ele luta contra a qual com armas de que dispõe a medicina moderna. Sei, como das vezes anteriores, ele vai vencer a morte. Com o espírito altivo e corajoso de que dispõe. Com o amparo dos cuidadores, da esposa dedicada, dos filhos que o adoram.
Depois de me despedir do notável escritor parti rumo a Ribeirão Vermelho. Fui pela mesma estrada do Madeira, que foi batizada pelo nome de um tio por parte de pai, o querido e saudoso Zito Abreu.
Na estrada do Madeira avistei urubus se banqueteando na resumida carcaça de um mico que perdeu a estrela. Na volta nada mais restava daquele pobre bichinho silvestre que ousou, num momento de descuido, talvez para ver a mãe, quando foi atropelado por um carro em movimento.
Mais adiante vi, dependurado no fio de alta tensão, um gavião morto por um descuido como o do mico estrela.
São mortes que ninguém reivindica. Como todos fazem depois da perda de um ente querido.
Uma vez em Ribeirão, passando por aquela ponte de ferro, que cobre um rio sedento de água, a corrida estava quase ao seu meio.
Parei no bar hotel do amigo Paulo, um senhor formidável, do qual vou sentir o óbito como se fosse um dos parentes que um dia partiu.
A volta foi pelo mesmo caminho. Passei pela fazenda Olhos D’água, pela Mato Dentro, pelos dois fícus gêmeos, estáticos à frente da linda fazenda do Madeira.
Antes pedi água na estação de tratamento da Copasa. Gentilmente me ofereceu água gelada um diligente funcionário, ao qual penhoradamente agradeço com um muito obrigado.
Subi a Avenida Pedro Sales em passos trôpegos. Já era mais de dez horas da manhã, deste domingo de primavera.
Uma vez depois, numa bifurcação da rua larga, por onde deveria subir, acabei indo por outro caminho. Parei na casa onde mora o querido amigo que enfrenta a morte, cobiça a vida, com sua coragem e perspicácia de um artista das letras e palavras. Ele não estava lá.
A esposa dedicada me avisou que o marido havia subido a rua. Ele, a exemplo de mim, não tinha parança.
Quando a corrida estava pela Rua Santana de novo percebi a amizade caminhante do colega de farda. Novamente ele estava sob cuidados de outro cuidador de idosos.
Cumprimentei-o cordialmente. Como de costume faço.
Ao dar com as pernas em minha casa me lembrei de novo do querido amigo Pedro Coimbra.
Sei que um dia ele vai partir. Quando isso acontecer, que seja nunca, tomara o amigo Pedro deixe pra mim não apenas a saudade, bem como a imortalidade do eterno…