Torna-se impossível estabelecer limites dentro do meu eu

Quando vim ter a esta vida, naquele ano que se perdeu no tempo, foram tantos, tantos, que se torna impossível avaliar quantos foram nos dedos das duas mãos.

Talvez por um motivo singelo. Nunca fui afeito aos números. A eles prefiro as letras, lindas e afinadas senhoritas, que formam sons, palavras, frases, contam histórias, vagabundeiam pelo mundo afora, permitindo a quem nelas debruçem os olhos incontáveis lições de amor, de ódio, rancor, dissabores e valores, os quais, as letras, unidas e perfiladas, quais soldados em linha reta em batalhões, desfilam sua graça no mundo inteiro.

Jamais soube dizer o mal que letras fazem a alguém.  Pelo revés. Letras bem empunhadas, quais sabres no fio da espada, interligadas juntinhas, só sabem ilustrar a quem delas lance a agudeza dos olhos.  No entanto, quando estas mesmas letras são mal amadas, esparramadas pelo caderno daquelas crianças sem experiência no mundo delas, sem alguém que as oriente, elas, as mesmas letras inocentes, podem desencadear, como um cadeado enferrujado, um emaranhado de palavras que nada dizem, pelo contrário, desensinam a língua pátria.

Desensinam pode soar mal aos ouvidos moucos de quem escuta pouco. Mas para mim, que viajo alinhando letras, a mesma palavra formada por algumas letras é entendida por gente iletrada. E por quem trata bem as palavras.

Voltando ao tema original da minha fala, ao título que encima esta página, cheiinha de letras arrevesadas, hoje tentei, ao descer a rua rumo onde estou, um local de trabalho como médico especialista em vias urinárias, bem madrugada abrindo os olhos remelentos de tanto sono, tentei estabelecer limites entre o que sou e o que posso ser.

Ao nascer era simplesmente um bebê. Como meu netinho lindo, de nome Theo. Que chora com aqueles olhinhos de cor indefinida, como indefinido anda o tempo de agora.

Depois cresci. Sobrevivi nesta selva de pedra, onde o lixo ameaça engolir as cidades, aqui mesmo em nossa vivenda, sentindo na pele enrugada as podriqueiras sendo jogadas nas ruas, nas calçadas, por pessoas mal educadas, que não levam o lixo para casa, pois elas mesmas fazem parte do lixo, com o mesmo odor nauseabundo dos excrementos, com o mesmo sabor insalubre do esgoto que corre a céu descoberto.

Ainda jovem criança virei adulto. Um adulto que fez da medicina seu salvo conduto a algum lugar dissoluto. O médico urologista aprendeu a escrever. Não sem antes fazer um estágio no estrangeiro, ali aprendendo que o convívio com as demais pessoas pode e deve ser equilibrado e amistoso, mesmo não falando a mesma língua.

Voltei da Espanha sem ver as touradas de Madri. Vi coisas lindas, outras mais ainda. Trouxe de lá novidades no manejo com os pacientes. Fui o primeiro médico urologista, na região, a operar a próstata sem abrir a barriga, por um canal competente  chamado de uretra. Confesso, sem medo de me equivocar, que as primeiras cirurgias me fizeram corar. Depois me acostumei a não temer pela saúde dos outros, dada à habilidade que conquistei.

Ainda envergando a farda de médico especialista, naqueles idos anos que não voltam mais, hoje deixei o branco de lado, talvez por estar envergonhado de muitos médicos sem alma, aqueles que não têm tempo para escutar os mesmos lamentos de pessoas que se assentam no banco da frente, simplesmente para se queixarem das inconveniências da vida dura que levam, vítimas de reclames não de um corpo enfermo, mas sim de enfermidades da esperança morta.

De médico atuante na medicina, operador consciente, depois de certa idade me senti no direito de fazer de mim o que pensava poder.

Deixei os plantões para os mais jovens. Deixei o hospital descansar de mim. Mas não deixei de empunhar o fio afiado do bisturi quando se faz preciso.

Aprendi a conviver com o singelo naquela rocinha que tanto amo. Foi ali que aprendi a linguagem das Minas Gerais. Embora tenha certa fluência em cinco idiomas, o que mais apreceio é contar causos, a falar no linguajar não escorreito das pessoas sem muito estudo, mas que sabem mais que muitos letrados pernósticos que pensam que sabem, mas mal sabem a melhor ocasião para plantar, para colher, pra semear.

Ainda como enxadachim das palavras, criando termos próprios, a exemplo do grande Guimarães Rosa, que usava e abusava das palavras sem fazer-lhes mal, de médico passei a escritor. Não deixei de ser médico. Pelo revés. Ainda sou.

Como também não deixei de ser fazendeiro. Só que deixei a enxada, a que nunca soube empunhar, nas mãos de um amigo da roça. Agora, quase chegado aos setenta, caminhador contumaz, conforme dizia o amigo Tomaz, com o fôlego de uma criança dormindo, como meu querido netinho Theo, de olhinhos fechados, espreguiçando-se sem parar, à espera das tetas da mãe, minha filha querida, comungo, não dentro da igreja, de várias aptidões.

Sou médico urologista praticante.  Sou também gente da roça, sem ali morar. Sou atleta de pernas trôpegas. Sou pensador, mestre na arte de sofismar.  Sou avô, com muito amor pra dar. Sou pai, como curto meus filhos! Sou esposo de uma mulher encantadora, que não apenas me encanta, como cuida das minhas parcas finanças.

Dentro de mim cabem tantas e tantas coisas, neste invólucro gasto pelo tempo, que não sei estabelecer onde começa um, onde termina o outro. Sou tudo e não sou nada. E sou feliz assim…

 

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