Uma linda menina, depois mulher, e sua estranha predestinação

Por caminhos díspares vagamos vida adentro, desde recém-nascidos, bebês de olhinhos cerrados, mal reconhecendo a mãe, crianças indo à escola pela primeira vez, levadas pelo pai, depois jovens inconformados em serem jovens, buscam a auto-afirmação através de uma profissão, muitas vezes de escolha precipitada, por um singelo fato, são jovens inexperientes na arte da vida, só mais tarde virão saber que a trilha eleita pode ser outra, e não aquela por onde iniciaram a procura do sonho que se provou não ser azul.

E quando o sonho não foi aquele sonhado, descobriu-se ser o caminho errado, fica quase impossível retroceder. Como não é possível ao jovem virar criança de novo, abraçar os pais que já partiram, o pobre cãozinho que hoje virou um quadro na parede, daquele mesmo quartinho que um dia foi seu.

Já experimentei todos estes descaminhos. Já testei, desconfiado, o sabor amargo da saudade, dos meus queridos pais que já se foram. Hoje sou um reles sênior que dorme pouco. Levanta em sobressalto, acorda sentindo, lá dentro do peito, uma vontade imensa de voltar no tempo, entrar pela vez primeira na escola onde se usava uniforme de cor verde, aprender que o primeiro amor se perde nas asas do esquecimento.

Não sei se a profissão eleita, naqueles idos anos do curso científico, hoje mudou de nome para ensino médio, foi a mais escorreita. Talvez tenha sido, embora a medicina, entranhada dentro de mim há tantos anos, tenha aplacado a intensidade das intervenções cirúrgicas praticadas naquele hospital de tantas noites indormidas, tantos estresses domados, depois de anos de labuta ferrenha, tentando provar a mim mesmo que a escolha foi acertada.

Hoje, médico vocacionado, ainda não aposentado, escritor que não vende livros, apenas sonhos em forma de letras unidas em palavras inspiradas no cotidiano que me assedia sem trégua, ainda pensando na escolha da profissão, ao ver tantos e tantos jovens desnorteados, levando a mochila às costas, entrando pelo mesmo portão por onde entrei, foi que me lembrei da história daquela linda menina morena, olhinhos amendoados, corpinho em formação, ombros largos, traseiro arrebitado, sugerindo perfeição num futuro não tão distante quanto a terra da lua, jovenzinha esta que nasceu na roça, aqui mesmo pertinho, na zona rural de Ijaci.

O pai era um sitiante que amava os ruminantes e seus príncipes consortes. A mãe faltou-lhe cedo demais, antes que a nossa linda menina, depois mulher, sentisse a falta de carinho, pois o pai fazia às vezes da progenitora, com a mesma equivalência de amor.

A nossa linda menina, de cabelos negros como a asa do urubu, olhinhos da cor da jabuticaba madura, regada pela chuva de fim de ano, seios em formação, corpo da cor da contravenção do desejo, a princípio gostaria de ser enfermeira.

Fez estágio num hospital modesto. Onde ninguém nascia, toda parturiente paria numa cidade perto. Levantava-se ao raiar do dia. Deixava o pai amoroso cuidando das vacas e das galinhas cacarejantes ao botar o ovo.

Voltava tarde da noite à roça onde vivia. Ali, no rabo do fogão a lenha, sentindo na pele clara o quentume da saudade da mãe, repassava os muitos caminhos que poderia trilhar na longa estrada que a vida a ela ensejava, qual seria a futura profissão.

Carolina, era este o nome da linda menina, depois uma outra linda mulher, costumava frequentar a padaria de um tio avô. Era ali que se encontrava. Ajudava ao padeiro, notável madrugador, a levar a massa dos pães ao forno quente de lenha oriunda dos pés de café. Aprendia com a velocidade das asas do beija-flor a fabricar os quitutes que só a experiência da idade sabe, a deitar os pães, as roscas, as tortas e bolos de chocolate, naquele balcão de vidro tão transparente quanto lhe era a alminha inocente. A nossa querida menina, que logo se fez uma linda mulher, de nome Carolina, logo descobriu, naquela padaria encantada, o seu caminho, a sua predestinação. O doce predileto da linda menina moça, ainda, o qual aprendeu a fazer tão logo ali fincou o desidério, é a Carolina, nome lançado mão pelo pai da nossa linda menina ao batizar a filha, que é um doce derivado do éclair, tradicional doce francês, é uma minibomba recheada com creme de chocolate, doce de leite ou creme de confeiteiro (como o recheio de sonho).

Depois de alguns anos trabalhando na padaria, que se mudou para pertinho de onde moro, ali por vezes paro, durante as manhãs, na descida rumo ao trabalho, Carolina, afinal, encontrou sua vocação.

Hoje a linda menina, feita mulher, com os mesmos cabelos negros, corpo já formado, torneado nas academias de onde mora, os mesmos olhos escuros da cor da jabuticaba madura, disputada pelos marimbondos e por quem aprecia, acabou por mudar de opinião.

Deixou a profissão de padeira para outro irmão.

Numa tarde de sábado, quando vou à roça, naquela mesma padaria interrompi a ida. Parei para tomar um café com pão de queijo saído de pouco do forno. Estava deliciosa a iguaria bem ao modo das Minas Gerais. Ali não estava a linda menina, feito mulher, de nome Carolina. Aquela de olhos amendoados, cabelos negros como piche, corpo já formado, torneado pelas horas de malhação na academia de ginástica.

Olhei para a vitrine espelhada. Onde viviam saborosos quitutes: tortas, bolos, confeitados, salgados variados. O que me chamou a atenção, no balcão de vidro transparente daquela fábrica de pães, foi um doce, de nome Carolina, só que ele era diferente dos demais.

O doce Carolina não era amarelinho como observei em outros tempos. Ele exibia um pontinho escuro na parte de cima. Uma protuberância, uma extravagância na parte de baixo. Dentro do doce Carolina não estava o creme de chocolate, nem ao menos a doçura do doce de leite. Igual ao recheio de sonho.

Deixei a padaria pensando na linda menina, batizada com o mesmo nome do doce Carolina, que um dia quis ser padeira, depois de tentar ser enfermeira, mas acabou se tornando um doce, de nome Carolina. Levei aquele doce, de nome de mulher, primeiro aos lábios, depois à boca. Com que doçura o doce, de nome Carolina, desceu às minhas entranhas.

Por certo o doce, de nome Carolina, era a linda menina doce, depois feita mulher, que acabou, afinal, encontrando sua doce predestinação.

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