Zé Patriota e Chico Fora

Eram dois primos que nunca se davam.

Zezinho, menino bom, estudioso, aplicado, vivia numa rocinha singela, entre porcos e galinhas sem raça, entre taturanas e passarinhos de todo tipo, entre vacas e seus amantes, entre cavalos, éguas, potros e mulas- sem- cabeça, das quais duvidava da existência, naquelas histórias contadas pela avozinha querida.

Tarde da noite, noite escura e estrelada, o menino Zezinho sonhava com assombração. Acordava em sobressalto, abria a janelinha do quartinho tosco, olhava pro alto, tossia, na intenção de espantar fantasma, cobria a cabecinha desamparada, e dormia como um anjo.

Quis o tempo, os anos disseram amém, que o bom Zezinho seguisse o caminho do bem.

Formou-se em pedagogia, numa escola pública de boa reputação. Ensinar sempre foi a sua predestinação. Naquela turminha sem berço, muitos meninos da pá virada, gentinha que não prestava atenção à aula ministrada, super bem preparada pelo professor vocacionado, Zezinho foi o paraninfo daquelas crianças desobedientes, que com o esforçado mestre aprenderam não apenas as letras, regras da matemática, a concordância no bom português, algumas noções de inglês, em geografia sabiam onde ficava a Eslovênia, na disciplina de História acabaram por ser mestres em reminiscências, aprenderam de tudo um cadinho, até mesmo a saga safada do Candinho, caboclo namorador que não deixava rastros de infidelidade.

Zé, um da Silva qualquer, com o tempo palrando alto, figura assaz conhecida nos arrabaldes, assim que saiu da mocidade, pela porta da frente, candidatou-se a vereador.

Não precisa dizer que foi o mais votado. Não distribuiu santinho pelas ruas e praças. Não grudou a foto dele mesmo no peito dos presumíveis eleitores. Não fez palanque, nem discursos fabricados pela boca de oradores selecionados. Não gastou um tostão furado. Também não tinha lastro. Muito menos cúmplices em sua campanha limpa como bunda de criança depois do banho de talco.

Uma vez na câmara de edis tornou-se um profissional respeitado pela sensatez das suas falas. Defensor intransigente do povo, das verbas públicas destinadas ao bem viver da comarca, era em verdade um patriota nato.

Em pouco tempo, com o andar da carruagem sem cavalo manco, seria, fatalmente, elegido a prefeito, deputado, ou coisa de mais valia que uma penca de banana madura.

Ao revés, na contramão da ilusão dos sonhos, o primo Chico era um baderneiro arruaceiro, criança que aprendeu de tudo que não presta na escola da vida errática que lhe norteou os rumos perdidos, crescendo mais pros lados do que pra cima.

Era um pinguço degenerado. Bebia todas e tudo no bar não muito bento do Chico Bento.

Era considerado persona ingrata na vizinhança da praça dos desocupados.

Vivia por ali a cortejar o ócio. Aquele banco da praça era seu dormitório, de graça. Adorava ficar de papo pro ar, acordava cedinho, para ter mais tempo sem ter o que fazer.

Trabalho não fazia parte do seu resumido dicionário. Até hoje não sei do que vivia o safado desocupado Chico. Dizem que uma avozinha torta a ele deixou uma casa, uma poupança na qual logo deu final, um cão que morreu de inanição, e só.

Um dia, sete de setembro, dia feriado na cidade onde moro, ao caminhar pelas ruas apinhadas de pessoas alegres e sorridentes, assistindo à parada montada pela prefeitura em situação de falência total, ao passar por uma rua central, vi um muro pichado: “Fora Temer. Fora golpistas. Viva o PT”!

Dias depois vim a descobrir qual foi o autor da pichação. Era o Chico Fora, que veio a ser preso, e depois foi solto, sob a alegação de réu primário.

A cidade até hoje aguarda, com grande ansiedade, que alguém limpe a sujeira daquele muro alto. E as demais podriqueiras de nosso país do faz de conta, a quem deram o nome de Brasil…

 

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