O pobre homem que não conseguiu galgar nem o primeiro degrau da escada

A gente sobe escadas de um a um degrau. Já os afoitos, os apressadinhos, aqueles que não têm paciência de esperar, pulam os primeiros tentando chegar logo ao último. É quando acontecem os acidentes de percurso. Tais como entorse de calcanhar, ruptura do tendão de Aquiles, fraturas de ossos da perna, lesões irreversíveis nos joelhos, e mais de cem patologias as quais a ortopedia não da conta de engessar.

Assim caminha a desumanidade. Aqueles que tudo têm. E outros, na contramão da tentação, quando pensam nada ter acabam de fato com mão estendida, o corpo deitado no chão, a meio caminho curto para um sóbrio caixão.

Estamos em plena crise. Sem precedentes na história da pátria apátrida, a qual deram o nome de Brasil. Não são todos que desfrutam da falta de frutas. Há os que têm melancia, melão, laranja da ilha docinha, morangos vermelhos a cor da estação, caquis que de tão macios ensejam a maciez do colo da mãe, e tantas e tantas frutas bem brasileiras, que mal cabem no balaio da feirante que não vendeu nada desde quando pagou bem caro pela barraca na mesma feira pública, que de pública e gratuita nada tem, a não ser as taxas salgadas que devem ser pagas naquele boleto mal encarado, que assusta até o gerente do banco, quanto mais o pobre aposentado, com medo de ser cortado dos beneficios da previdência social.

Foi esse mesmo homem pobre, ainda jovem em comparação à idade em que me encontro agora, com menos de sessenta anos, eu, em verdade tenho quase setenta, faltando quatro, ainda não aposentado pelo INSS, que me procurou no ambulatório de especialidades médicas, um nome pomposo para quem pouco pode oferecer, a não ser consultas vazias, triagens a outros locais, naquela maratona bem conhecida por pacientes do SUS.

Seu nome era Zé Mané. Como bem poderia ser José Ninguém. Ou Miguelão dos Quiabos Dados.

Naquele dia, que aconteceu no dia de hoje, precisamente um dia depois do dia dos esculápios, bem entendido, para quem não entende latim, isso não é latim, e sim português dos bons, esculápio da no mesmo que médico, doutor que usa branco (aliás, usava), pessoa formada em medicina.

Seu Zé Mané era o último da fila, nesse dia quente, precisamente quarta feira quase mês agonizante.

Depois de uma fila sem fura-filas, ou cidadãos entrões, eis que entra pela porta, depois de ser chamado pelo nome, que não era aquele que o batizei e sim José da Silva Xavier, ou coisa de mais valia.

Ele entrou, fechou docemente a porta, na qual faltava o trinco, ficando meio aberta, permitindo que lá de fora presenciassem o seu exame de próstata.

Foi preciso chamar a dedicada enfermeira para colocar um tapume tapa buraco para encobrir a área que de pronto seria descoberta.

Assim que nos vimos a sós, ele e eu, depois de constatar que seu PSA estava em verdade elevado, vezes existem em que não confio em exame feito pelo SUS, de fazer o toque sem retoque, não na maquiagem que seu Zé não usava, ele usava a cal misturada ao cimento das construções onde trabalhava como pedreiro de colher inteira, o tal exame temido, antes mais, hoje menos, deu positivo para câncer de próstata avançado.

Era um estágio de péssimo prognóstico.  Um reservado porvir. Dificilmente ele seria curado pela cirurgia radical. Seu pai morreu precocemente de complicações da mesma doença em questão. Nem sequer foi operado. Metástases fulminantes deram-lhe cabo da saúde periclitante.

Depois da consulta propriamente dita, depois de um exame minucioso, como o local permite, me restou pedir a confirmação do diagnóstico. Uma Ultrassonografia Trans retal bem conduzida, pelas mãos seguras de um especialista, seguida de biópsias dirigidas iriam corroborar com a minha indefinição.

Como o SUS retarda, mas acaba pagando os exames, o salário do médico a prefeitura ignora quando vai sair, se um dia ou nunca, como o aparelho de ultrassom do serviço público está quebrado, uma vez confirmada a sentença de câncer de próstata, depois do resultado tão sonhado em pesadelo com o ultrassom, não sei quando seu Zé Mané vai retornar com o exame prontinho, assim que eu, urologista, o encaminhar à cirurgia radical, sem ser radicalmente radicalizado, seguramente, com sinceridade imensa, o tempo quando a cirurgia for concretizada vai ser tão longo quanto a distância da terra à lua, quando seu Zé Mané for operado, num hospital que nem sei quando vai ser fabricado, ele vai estar mortinho da silva, embora se chame Zé.

Meia hora depois da consulta, ao chegar ao ponto de ônibus lotação, no mesmo banco estava o paciente Zé Mané da Silva Qualquer.

Com o olhar vazio. Com uma expressão sem fisionomia definida. Apalermado, sombrio.

Foi quando pensei, com meus senões: “pobre seu Zé. Ele, com seu câncer de próstata avançado, com tantos e tantos exames degraus por fazer, vai estar falecido, no cemitério, antes de subir o primeiro degrau da sua escada longa, rumo ao céu dos desafortunados”.

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