Prezo, mais que tudo, a simplicidade do singelo. A tranquilidade das águas de um lago. Assim como a beleza, sem compromisso com a ostentação, das flores do campo. Adoro quando alguém, lá na roça, naquela tarde depois de uma chuvinha mansa, passa por mim, para um cadinho, e me diz, com aquela vozinha fininha : “vizinho de cerca. Sua vaca varou o arame farpado. Não a repreendi pelo fato. Simplesmente, pacienciosamente, a ela fiz entender, não sei se minha fala foi ouvida- vaquinha faminta, não pule a cerca! Pode ser perigoso, e rasgar suas tetas na ponta do arame enferrujado”.
Prezo tanto quanto aprecio as conversas amenas, aquelas que não tratam da vida dos outros, e dizem apenas respeito ao respeito para com os mais idosos. Aprecio a luz dos vagalumes noctívagos. Pela sua luzinha piscante me guio pelas estradas roceiras, evitando levar cascavel na canela desprotegida de Deus.
Gosto demais das pessoas que se dizem ser Nada, muito mais que aqueloutras que pensam ser Tudo e no entanto nada são.
Ontem, ao passar por uma padaria de morada nova, perto de onde moro, de onde não gostaria de me mudar, antes de tomar meu cafezinho magro assisti a um garoto, por volta da volta dos seus poucos anos, indo e voltando por baixo do balcão de onde se podem ver os quitutes que o padeiro faz.
Como ele não me deu atenção, naquela hora temprana, antes das seis da manhã, a ele desferi uma afável inquisição: “menino. Quem é você”?
Ele, sem voltar o rosto na minha direção, respondeu, sem muito pensar: “eu sou nada”!
Deixei-o, na pressa que me convidava a descer a rua, tentando entender a razão do Nada que ele disse ser. Ainda tentei dialogar com aquela pessoinha linda, talvez filho do padeiro, ou da dona do estabelecimento, o motivo singelo pelo qual ele se dizia ser Nada, ou ninguém.
Fiz menção de uma prosa suave. Inquiri-o sobre o que ele gostaria de ser quando de maior idade. O que aquele jovenzinho esperto, quiçá um pouco tímido, tentaria caminhar vida afora, nos longos anos que o esperavam?
Ele mal respondeu ao meu interrogatório inoportuno. Despedimo-nos como estranhos. Afinal era a primeira vez que nos vimos.
À porta da padaria a mãe do garoto o esperava para levá-lo à escola. Ele iria na garupa da moto da progenitora.
Bem mais tarde, anos depois, de não mais rever o garoto da padaria, dele soube notícias recentes.
Zezinho Nada cresceu. Não apenas pro lado de cima. Cresceu em inteligência. Fez-se doutor das letras. Na escola pública se destacou como hábil na lida com as palavras. Bacharelou-se em literatura da língua portuguesa. Enveredou-se pela língua inglesa. Não fez feio em outros idiomas.
Aos vinte anos, quando, pela primeira vez nele bati os olhos ele contava com apenas sete, já era professor laureado com nota máxima numa universidade de ciências humanas. Aos menos de trinta tornou-se palestrante convidado a eventos importantes, pago a peso de ouro por aquelas horas de fala entendida por gente de todo o mundo. Principalmente os eruditos. Discursava em inglês, em polonês, em norueguês, mandarim, isso sem contar com o alemão, o dinamarquês castiço, o espanhol sem sotaque, além da língua da roça. Na qual era versado em versos poéticos, um poetinha caboclo, a exemplo do grande Mario de Andrade e o poetinha gaucho, de nome Quintana.
Quiseram os anos que Zezinho Nada fosse guindado a reitor de uma das maiores universidades do mundo, de nome Sorbonne. Dali a consagração internacional foi um pulo de seriema.
Dias depois passei pela mesma padaria da vez anterior.
Zezinho Nada não estava mais lá. Senti-lhe a ausência.
Perguntei ao pai do agora professor titular sobre o paradeiro do rapaz. A mãe amantíssima me ouviu com atenção.
Depois de atenderem às pessoas no balcão, os dois, em coro, disseram: “nosso querido Zezinho Nada agora é importante. Não no que diz respeito à importância no sentido estrito da palavra. E sim na importância genuína, calcada na simplicidade, na honestidade, na decência e verdade”.
Donde pude tirar a seguinte conclusão: “quem se diz Nada um dia o Tudo pode entrar em sua vida, desde que faça da própria vida um caminho seguro, sem falsas afetações”.