Romilton, menino bom, artioso em criança, ajuizado depois de crescido, nascido numa rocinha encantada, bem perto da minha cidade, propriedade rural herdada da família, a qual tinha o menino em altos conceitos de honestidade e decência, desde novo tinha uma estranha predileção por verduras.
As terras em que nasceu e desenvolveu as aptidões de bom verdureiro, feirante consagrado em nossa comunidade, pessoa da prateleira de cima, jamais passou adiante o quiabo como mandioca, jiló como alface, agrião como berinjela, ou tatu como cobra mansa, eram soberbamente reconhecidas como Fazenda Olhos D’água.
Já passei por ali durante as intermináveis e lindas corridas até Ribeirão Vermelho.
Em algumas vezes parei para pedir água. Na porta da casa antiga patos, gansos, galinhas caipiras, que cacarejavam ao deitar o ovo no ninho improvisado, davam o ar da graça. Que néctar capaz de matar a sede me ofereceram numa caneca esmaltada! A água da fazenda Olhos D’água era tão transparente, tão pura, tão cristalina, que, se a gente quisesse ver dentro d’alma teria de usar os préstimos daquele líquido como lente de aumento para devassar o peito, onde, com certeza, habita a tal alma pura.
Depois de assassinar a sede continuava com fôlego novo até a linda Ribeirão.
Voltando ao menino Romilton, aquele das verduras fresquinhas, das batatas doces com sabor de mel, dos tomates vermelhos como o sangue que lhe corre nas veias, das beterrabas maduras, que se derretiam só de ver a panela, das cenouras amarelinhas que o lépido coelho não rejeita, assim que o jovem se fez maior teve de deixar a roça adorada.
Tomou rumo da cidade, num dia infeliz, levando dentro do cesto, além dos legumes de pouco colhidos, uma saudade imensa da bicharada que com ele convivia, além dos pais amados.
Uma vez na cidade grande montou barraca numa feira madrugadora. Era um grande mercado municipal, lugar concorrido, para onde ia metade das pessoas que viviam amontoadas na comunidade urbana.
O amante das verduras, do singelo do campo, das galinhas poedeiras, da gente simples do lugar, pessoas de mãos caludas, de coração enternecido pelo mugido da vaca ao deixar o curral, saudosa da cria nascida num matinho escondido, onde a mãe vaca se amoita na sublime intenção de soltar de dentro dela o concepto amado, mesmo que seja um gabiruzinho sem valor, dos canarinhos da terra, que, felizmente apareceram depois da proibição dos estilingues de tiro certeiro, quantas e quantas vezes tantas apontei aquela arma feita de um galho fino da jabuticabeira, felizmente errei o alvo.
De volta ao causo do amigo Romilton Valeriano, colega de infância, cinco anos menos que os meus 66, sentindo-me ainda jovem, como penso ainda ser criança, uma pessoinha montada nos meus muitos anos, embora sempre marque consulta com os pediatras, que se recusam a retornar o consultante ao psiquiatra, o dono da roça de couve da fazenda Olhos D’água, onde adora plantar principalmente tomate, acabou se especializando no tal legume que é considerado supimpa para os males da próstata hipertrofiada.
De tanto estender aqueles varais enormes, de andar por aqueles corredores sombreados onde nascem e crescem os pequenos tomates, evitando as pragas dos tomateiros, borrifando veneno para prevenir doenças, próprias daqueles legumes que prestam um serviço importante à saúde de quem deseja evitar o constrangimento ultrapassado de se deixar tocar a intimidade da próstata, muitos ainda relutam em se relaxar, olhar as estrelas, suspirar ao sentir o dedo indicador sendo inserido, sem dor, ou dissabor, há quem goste de ver-se violado, procura dois ou mais especialistas de dedo mais embrutecido, e ali comparece, mês a mês, semana a semana, ouvindo terceiras e quartas opiniões sobre a saúde da próstata. Eu mesmo, durante muitos e muitos verões, ou seriam primaveras, relutei em fazer o exame em questão.
Num dia procurei um proctologista amigo, gente da roça, que me prometeu, ao deixar-lhe o consultório, num dia de extremo calor, de que só faria o exame de próstata, muitos confundem a trilha da urologia com a proctologia, não se deve misturar a hemorróida com a glândula irresponsável, na idade provecta, por prender a urina. Depois do toque feito, sem defeito, despedi-me do colega com a seguinte promessa: “Doutor Erley. Só deixarei fazer o toque se depois o senhor me procurar. Sua próstata deve estar crescida, pois tem a minha idade velha. Caso contrário não vou me deixar invadir a intimidade, caminho este por onde nunca nada entrou, só viu emergir de dentro daquela cavidade insalubre excrementos e lamentos em forma de flatus”.
A conclusão da minha passagem com o colega usuário do dedo duro não foi das mais auspiciosas. Ele não veio à consulta. E eu nunca mais compareci a dele. Chumbo trocado não deve doer. Mas, no meu caso doeu demais. Tocou-me fundo no coração, embora a devassa da intimidade fosse longe do coração.
O amigo Romilton perseverou na saga de tomateiro convicto. Entendia tanto daqueles legumes vermelhos, verdes quando ainda jovens, que se tornou palestrante procurado, conferencista abnegado, espalhando sua arte rural pelos quatro cantos do país.
Na semana que a primavera tomou em seus braços lindos, quando passava pela Fazenda Olhos D’água onde Romilton morava, cansado, com a visão um tanto nebulosa pelo calor, dei uma paradinha rápida naquele rincão de águas correntes, tanto no ribeirão que saracoteava à beira da estrada, quanto na mina dos fundos da horta de couve, antes de retomar a corrida até Ribeirão Vermelho entrei pelo portão furado da cerca que impedia as galinhas, os patos, os gansos grasnantes de se banquetearem nas hortaliças lindas, vi, com meus olhos atentos à vida, não se desdenhando da morte, um tomate estranho.
Não me esqueço das feições do verdureiro Romilton. Nem mesmo do aspecto notável de um tomate especial.
Romilton, com aquela placidez que o governa, dotado da calma que os ares campestres nele salpicaram, era de uma morenice vermelha. De poucos cabelos. Quase careca. Ele se parecia a uma bola crescida pros lados, comprido. Caso o fatiássemos de dentro de suas carnes escorreria um sumo vermelho claro. Sua pele era lisa, vermelha, não pelos raios de sol que lhe mordiscavam a epiderme.
Depois, antes da partida rumo à cidade do trem de ferro, da Maria Fumaça feita monumento, da rotunda que nunca será restaurada, das pessoas boas como o amigo Paulo, do restaurante pertinho da linha do trem, uma vez dentro da horta de couve e dos tomates enfileirados, observei, curioso, um tomate diferente dos demais.
Era um tomatão enorme. Ostentando um tufo de cabelos penteados de lado. O tal tomate falava, e tinha um apurado bom humor. Mais um detalhe me chamou a atenção. Era um tomate feito gente, inteligente, brincalhão.
Despedi-me do tomate, ao qual batizei de Romilton Valeriano, com uma certeza certa.
O amigo Romilton, pelo menos pra mim, seu colega dos anos verdes da nossa juventude e admirador confesso, passou a ser o homem que tomatou…