Pensei, durante a noite que não acordava, ao olhar o céu, escuro, plena madrugada, ao ver estrelas iluminando a abóboda celeste, naquela noite magnífica, que beleza fosse apenas prerrogativa das estrelas.
Como de hábito acordo cedo. Antes das quatro abro os olhos. Das cinco, me levanto. As seis já saio de casa.
Considero um desperdício ficar na cama mais que ela pede. Com tanto dia para receber, à espera de tanta coisa acontecer, coisas amenas, piores, coisas e loisas as quais não se esperam, ficar se debatendo entre os lençóis, amarfanhando os travesseiros, fazendo do pobre colchão um ringue de boxe, tirando o sossego da companheira que cochila ao meu lado, sei que ela está cansada de tanto trabalho no dia de ontem, que, quando o relógio que remexe os ponteiros na cabeceira da cama se cansa de caminhar, saio de lá, tomo uma ducha morna, e me preparo para andar rumo ao trabalho.
Aliás, meu consultório tem se tornado mais um lugar onde escrevo do que propriamente exerço a medicina. Ela ainda tem lugar cativo dentro de mim. Mas, na planura da minha vida, depois de mais de quarenta anos como escrutinador dos meandros do corpo humano, entrando por ele adentro, sem ressentimentos ou sentimentos de piedade, tenho o direito de fazer de mim o que bem entender.
Tenho o direito e a obrigação de ser feliz. Embora a felicidade não seja atividade fácil de ser encontrada. Sei que ela se mostra nos mínimos detalhes na singeleza do singelo. Na beleza da flor. No colorido das cores do arco-íris. Na vaca lambendo a cria recém- nascida. Na mãe a embalar o filho uma vez expelido de dentro dela.
Nestes dias fecundos da minha existência, quando ainda não penso na intimidade da solidão de um caixão, na escuridão da mãe terra, depois da extrema -unção, tornei-me mais e mais introspectivo. Mais avesso ao contato de mãos que só afagam as nossas na intenção de pedir voto, nestes tempos de eleição.
Hoje em dia acabei por me voltar para dentro de mim mesmo. Como quando dentro do útero da minha mãe, no dia em que dali saí, para ver, assustado, a carantonha da vida do lado de fora.
Confesso, assim que meus olhinhos se abriram, vendo a claridade de um dia de sol, as pupilas se fecharam, como o bicho da seda se fecha dentro do seu casulo seguro.
Agora, quase setenta anos de enganos e desenganos, de exercício diuturno da medicina, que por vezes não cura, nem atenua dores e sofrimentos, acabei por ficar avesso ao mundo ao derredor.
As coisas ruins predominam. As boas, mais e mais raras, como o ar que a gente respira, fazem de mim um eremita numa sociedade mais e mais consumista. Onde se prepondera o mais ter sobre o mais ser.
Sei que deveria ficar mais sociável. Mais amistoso, mais povo.
No entanto, ao encarar a vida como ela passou a ser, tanta vaidade enrustida, tanta mentira embutida, tanta violência desmedida, tanta podriqueira na política, tanta gente com fome, tanto desperdício, tanto sofrimento dos que nada têm, tanto descaso dos que podem doar e não compartilham, tanta gente ao desabrigo, tanto luxo convivendo, lado a lado, com a miséria, acabei me isolando dentro do casulo de mim mesmo.
Um dia, numa dessas madrugadas frias, ao sair da cama antes de ela me dizer “bom dia”, deixei a casa com uma estranha sensação de agonia.
Uma vez do lado de fora daqueles muros altos que me acolhem prazerosamente, de deixar a segurança do condomínio onde ainda moro, a primeira impressão, ao ver a rua como ela é, sem retoques, de cara lavada, foi de abandono e desalento.
Um pedinte esmolava. Um senhor, maltrapilho, sofria solitário em seu canto. Uma criança de rua dormia ao relento. Um passarinho filhote, sem asas preparadas a voar, acabou por morrer ao cair do ninho. Dois mendigos, cobertos por uma manta podre ainda dormiam, depois de passar a noite cheirando crack. Mais embaixo, antes de chegar ao meu destino final, depois de um café numa padaria perto da praça central, no âmago da praça, um cão vadio agonizava.
Cada vez mais me sinto angustiado com o modus vivendi de tanta gente. Gente igual a mim, só que sem a mesma sorte.
Estou cada vez mais imerso nas profundezas solitárias do meu eu. Talvez graças ao status quo.
Tenho medo, como médico, de um dia, malfadado dia, de me perder dentro de mim mesmo, e não encontrar o caminho de volta à vida…