O homem que insistia em chorar

Choro nada mais é que gotas salinas escorrendo pelo canto dos olhos, de repente, com ou sem motivo aparente, manifestação explícita de sentimento, nascido da dor, do desamor, da solidão, da desunião, geralmente explicado, dados obtidos pelo Google: pranto, choro copioso, ato de chorar, ou lacrimejar, é um efeito fisiológico dos seres humanos (animais, até onde a sapiência explica, não choram), que consiste na produção de grande quantidade de lágrimas dos olhos, quando em estado emocional alterado, em casos de medo, tristeza, depressão, dor, saudade, alegria exagerada, raiva, aflição. O choro é gerado no sistema límbico, responsável pelos sentimentos. A noradrenalina e a serotonina são liberados causando a contração da glândula lacrimal, liberando a lágrima. Geralmente o choro se dá pelo instinto de defesa do ser humano. Também pode ser simulado, no caso de artistas encenando alguma peça. Ou para chamar a atenção no caso das crianças. Choro sem motivo aparente é indício de depressão.

Pra mim, choro que aparece nos olhos, de repente, é sinal indelével de sensibilidade. Via de sempre ele brota no canto dos olhos em momentos sublimes, como quando nasce um filho, um netinho, quando se ouve uma música que toca fundo dentro do peito, quando se escuta, olhos e ouvidos atentos, uma página inspirada lida por um escritor.

Eu mesmo, dentro das minhas vivências, escrevendo e traduzindo em voz alta aquilo que me saiu de dentro da inspiração que me cavouca, de vez em quando ela desaparece, como a borboleta que vai e volta a oscular a flor, sou como o tempo: um dia sou quente, outro, morno, no dia seguinte volto a esfriar.

Durante a leitura de um texto, nascido de pouco, quando percebo que um ouvinte atento, quase não respira, fecha os olhos, por eles deixa despencar gotículas de água salina, não tenho dúvidas. Esse espectador das minhas crônicas é uma pessoa fadada a chorar, refém de uma palavra, velha conhecida, muitas e muitas vezes sentida- sensibilidade, que por vezes considero maldita, pois faz sofrer demais.

Eu, via de regra,  sofro quando vejo uma árvore de ipê deitar as flores ainda vivas sobre a relva ressequida do mês de setembro. Dá vontade de retornar as mesmas flores ao colo da árvore mãe. Como se fosse possível driblar a morte, restaurar a vida. Sofro quando pressinto a morte, como médico que deveria defender sua notável adversária, a vida. Sofro simplesmente quando vejo as desigualdades, em nosso país, onde tantos têm tanto, outros lutam pela sobrevivência. Sofro ao constatar que a situação de penúria, por que passam tantos, não deve mudar com as chuvas de verão. Sofro ao descobrir um filhote de passarinho, que saltou apressado do ninho, sem asas preparadas para voar. Sofro tanto, quanto pranto me sufoca o sentimento, ao sentir que tudo que tenho feito, em prol da saúde pública, não tem o retorno esperado. E a população de baixa renda não consegue atenuar o sofrimento, fazer com que as doenças tenham um epílogo feliz, por culpa de um sistema que apenas ludibria, faz propaganda enganosa, principalmente véspera de eleição. Sofro, por vezes derramo lágrimas sentidas, quando vejo um cãozinho crescido, que foi abandonado simplesmente por não mais ser filhote, agora as fezes aumentaram de tamanho, ele passou a comer demais, seus latidos incomodam o vizinho. Sofro por tantos motivos, que alguém pode pensar que sou depressivo. Mas, meu sofrimento não deveria incomodar a ninguém, pois quando derramo lágrimas elas nasceram em causa própria, num momento de dor, de dissabor, de amor não correspondido.

Um dia, deste mês de setembro, mês quando as flores do ipê morreram, faz pouco tempo, quase no intervalo do almoço, quando me preparava para ir a minha casa, apareceu um senhor, cabelos brancos cortados rentes, escritor competente, que dentre em pouco vai desvendar à luz seu primeiro livro, parou para me escutar na leitura de uma crônica recente.

Durante aqueles breves instantes, apenas eu e ele, num canto, sob um sol forte, uma luz radiante, o senhor de cabelos brancos quase não respirava. Sentia que dentro do seu peito arfava um oceano enorme de sentimentos. Sentia que ele apreciava muito a minha leitura. Embora estivéssemos em plena rua, uma rua movimentada. Para ele não importavam os passantes. Ele só desejava escutar-me a narrativa. Ao final do agradável monólogo, quando coloquei o ponto final na leitura, ao olhar a face daquele senhor escutei duas lágrimas descendo mansamente pelo canto dos olhos. Pode parecer heresia dizer que lágrimas podem ser escutadas.  Lágrimas não fazem ruído. Elas apenas deixam marcas de sua descitura pelos descaminhos da vida.

Durante a nossa curta despedida, eu voltaria para casa, ele iria almoçar em um restaurante perto, foi que escutei, como consigo escutar o barulho de lágrimas rolando da face, uma frase daquele senhor, escritor, pessoa que amarga dentro de si a tal maldita sensibilidade: “quer saber de um fato que trago escondido dentro de mim? Eu insisto em chorar” !

Maldita sensibilidade nossa!

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