Bem sei que o tempo conspira contra os de mais idade. Bem sei que o tempo tem horas e horas a cumprir. Sei também que o tempo passa implacável vendo os minutos passarem. Sei ainda que o tempo não para.
Ele roda, se desdobra em anos, meses, dias, que vão se desenhando no relógio das nossas vidas, cada ano que passa menos um a nos permitir curtir o vento que assopra, a chuva que desce das nuvens, o sol que acalora, o frio que faz enregelar a pastaria, o suor do homem que trabalha, mesmo sem emprego que lhe dê o sustento tão necessário para fornir o alimento da família de muitas bocas que amealhou graças à fecundidade que lhe dispersou os genes pelo mundo afora.
Sei que o tempo conspira contra mim. Contra meus pais que já se foram. Contra os mesmos pais que ainda persistem a cultivar mais e mais anos que aqueles que coletei.
Da mesma forma o tempo rema na mesma onda das jovens crianças como meu netinho de quase quatro meses, uma criança linda, não poderia mentir e dizer que seja a cara do avô que, se um dia teve a beleza do menino essa mesma se foi, levada nas asas do tempo. Que se assanha todo a me ver correr pelo mundo, pensando que uma corrida insana vai dar conta de alongar-me a longevidade. Pelo menos que ele dê conta de me permitir morrer em plena saúde, durante o sono que não me viu acordar no dia seguinte, vendo-me partir sem sofrer.
Sei ainda que o tempo não lamenta a passagem dele. Nem que resmunga ao sentir, lá no âmago do tempo, que as horas se despeçam fugazes da mesma faculdade onde estudamos, nos graduamos doutores, daqueles cadernos pautados que nos ensinaram a escrever com exatidão as primeiras letras. Saudosas consoantes e vogais.
Sei tantas e tantas coisas sobre o tempo, desconheço a maioria delas.
Mesmo assim, ilustre desconhecedor do emaranhado novelo do tempo, acredito que, com o tempo, estudando mais, lendo mais, escrevendo mais, vou passar perto de onde o tempo nasceu. Se foi numa estrebaria modesta, a mesma onde despontou Jesus, ou se num palácio faraônico, hoje jazigo perpétuo de sombras, nada mais.
Hoje fui cuspido da cama antes das cinco da manhã.
Trata-se de uma manhã madrugada escura, embaciada de nuvens cinzentas nos cobrindo a todos com seu hálito de chuva.
Teria chovido durante a noite? Gotículas espalhadas no capô da minha caminhonetinha prateada afirmam que sim. O asfalto exibe manchas escuras resultado da água da chuva que despencou macia durante a noite. Não foram muitas gotas. Nem muita chuva que despencou.
E como ela tem feito falta nos ares da roça! Agora é época de plantar, de arar, de semear para depois colher.
Parei uns minutinhos breves numa padaria nova aberta bem perto de casa. Lá estava apenas um senhor escuro, alto forte, com ares de desconsolo. Tentei imiscuir-me em sua desventura. Foi quando ele, um tanto desconsolado com a mudança de São Paulo à cidade que adoro a exaustão, manifestou-me todo o desconsolo que assolava-lhe o cerne.
“Aqui não se encontra trabalho, nem emprego. Estou contrariado por aqui voltar. Lavras não oferece chance de colocação. Nunca deveria ter me mudado de São Paulo”.
Tentei demovê-lo da tristeza que o consumia. Creio não ter tido sucesso na empreitada.
Voltei a caminhar naquela hora temprana. Era bem cedo, antes das seis da manhã.
Coleciono nas costas sessenta e seis janeiros. Não sei quantos fevereiros, marços, abrils, seguidos de maios e outros meses mais.
Meu pai faleceu aos setenta e sete anos. Minha mãe aos oitenta e três. Poucos anos mais. Os dois em meus braços de médico. Um médico impotente em prolongar os dias, anos que nos restam. Que heresia em pensar assim! Modéstia adiada.
Nesta caminhada pela vida, que por vezes se transforma em corrida, fui pensando, matutando, antes de chegar aqui, no meu consultório biblioteca, sala onde escrevo com tamanha compulsão, existem dias em que perco o sono pensando no tema que vai sair do teclado branco do meu computador.
Hoje, especialmente dia 25 de outubro, dia lindo, ameaça de chuva paira no ar, ao olhar pra baixo, da janela do meu sétimo andar, e ver, a um espirro de distância, o prédio para onde irei me mudar, junto a minha filha linda, ao esforçado genro que naquele lote de terreno edificou um prédio no meu estacionamento, a minha esposa amantíssima, e, a razão de tudo, meu primeiro netinho de nome Theo.
Foi nele que me inspirei, ao escrever esta crônica.
Não sei se terei tempo de o ver engatinhar. Quanto mais caminhar pelas próprias pernas. Trôpegas de começo. Depois seguras como as minhas, por enquanto. Não sei se o verei graduado em alguma profissão. Que seja como eu o meu genro, médicos. Ou escritor, como o avô que o ama tanto. Não importa, o que conta é que o Theo seja feliz, no caminho que eleger como o seu.
Não sei se terei tempo de assistir ao término da minha casa de campo. Recém começada, num ponto lindo da minha roça encantada, com olhos embevecidos olhando atentos a Represa do Funil. Será ali que escreverei mais um ou dois livros, quem sabe mais? Vai ser ali que vou receber os amigos para uma prosa boa, que apenas comente amenidades, jamais toque na palavra vaidade, ou em outra desvirtude que não aprecie.
Não sei se terei tempo de pedir ao tempo que me dê mais tempo. Afinal, quando tempo o tempo tem?
Se fosse ficar aqui, escrevinhando com tamanha tenacidade, enumerando os contratempos da falta de tempo, o tempo conspiraria contra mim.
Não saberia dizer quanto tempo me resta de vida. Tomara, lucubro eu, que seja um tempo o bastante longo para falar de mim…