“Não pisem na minha Janete”!

Quem ainda não soltou um palavrão, um xingo irritado, quando alguém pisou-lhe no calo, ou noutro lugar equivalente? Quem não soltou um impropério, naquele dia de intenso calor, subia uma fumaça espessa do asfalto, o termômetro, sentindo-se com insolação, dava sinais que iria derreter? Quem não sentiu tudo isso talvez seja desprovido de sentimento, pessoa fria como iceberg, no mar gelado da Groenlândia. Aliás, quem escreve com o coração, soltando palavras soltas mercês de rica emoção, deve ser rotulado, como a garrafa de cachaça da boa, de indivíduo da prateleira de cima, um gigante que foi derrotado pelo nanico David, que tomba ao escutar palavras que ferem como espinho à rosa.

Nhô Chico era uma destas pessoas de alminha pura. Um poeta caboclo, sujeito de mãos caludas, pele áspera de tanto sol a lamber-lhe a testa, pés de solado grosso como mandacaru que sobrevive naquele sertão arisco. Eram dele tais versos que passo a cantar agora, senão dele de outro colega de sensibilidade explícita.

Idílio – Paulo Setubal

“Vamos”? Disseste, e eu disse logo: Vamos!

Lá no céu, nos pássaros, nos ramos.

Uma alegria esplêndida e sonora;

E tu, abrindo ao sol, como uma tenda,

Tua sombrinha de custosa renda,

Partimos ambos pela estrada afora…

Em paragens largas, eram roças,

Carros de bois, currais, barreadas choças,

E rústicos galpões de pau-a-pique,

Só tu, nesta bucólica simpleza,

Com teu “tailleur” de casimira inglesa,

Punhas uns tons de mundanismo chic.

E a poeira, e o sol queimante, e a dura estrada,

Nós, papagueando, sem sentir nada,

Seguíamos num sonho encantador:

É que a felicidade, como um vinho,

Fazia-nos andar pelo caminho,

Tontos de gozo e bêbados de amor”!

Quis a vida dura que Nhô Chico não viesse a se casar.

Eram tantas incumbências que nosso herói enfrentava, tantos percalços por que passava, tantos causos mal sucedidos, que, se fosse contar nos dedos todos das duas mãos, precisaria da ajuda amigo de mais de dez mãos juntas, uma abraçando a outra, como o abraço saudoso de dez amigos, que não se viam desde a eternidade.

A vida na caatinga era espinhosa como quando se aperta um cacto idoso na palma fina da mão. Talvez por isso o nosso caboclo tenha escolhido a vida solitária de um ermitão.

Até os mais de sessenta anos viveu aos palpos de aranha com sua cama de colchão de palha, de estrado duro como lhe era a estrada.

Foi quando apareceu, num momento sublime de inspiração poética, uma rapariga encantada.

Não era linda como uma novilha prenha. Muito menos como uma galinha rodeada de pintinhos. Nem tinha a esbelteza da égua em galope, seguida por seu filhote que mal caiu ao chão, já aprendeu a correr.

O nome de batismo da linda moça, pra ele era a mais linda do mundo, era Janete.

Recatada, apenas teve em seus braços um batalhão de soldados, daquele quartel grandioso, que garantia a segurança do país inteiro.

Mas para Nhô Chico era pura como a santa beata que ajudava ao padre a rezar missa.

Os dois viviam só, naquele sertão ermo como o Afeganistão, em seus piores dias.

Nhô Chico tinha uma parte doída na parte lateral do maléolo esquerdo. Era uma protuberância do tamanhão daquela serra espigada que daqui se permite ver. Nos dicionários médico recebe a alcunha de Joanete. Coisa de difícil solução, não é qualquer especialista que resolve.

Num dia de sôfrego calor, quando os pastos secos, mãos pro alto, imploravam a vinda da chuva, eis que chega à casinha tosca da dupla de amantes convencidos de que Janete era a primeira e única namorada do sofredor sertanejo, apareceu um sujeito vindo da capital, política picareta, qual a maior parte da corja que mora em Brasília, honrosas exceções são feitas, que, sem fêmea a esquentar a cama, mulher na roça é novidade, jogou um gracejo em direção à Janete do Nhô Chico poeta caboclo.

Foi como pisar-lhe no calo duro. Pior que chamar a mãe dele de puta que o pariu.

Não sei, até hoje, qual o destino do infame sacana. Se morreu na ponta do mandacaru. Ou se fudeu no Rio São Francisco.

Quando alguém passa, perdido, por aquelas bandas, e pede uma explicação para o funesto acontecido, o sensível poetinha caboclo, em prosa poética, declama, sem verso nem prosa, com aquela voz fanha, de taquara rachado no meio: “por favor, em nome de São Benedito, tenho dito: não pisem na minha Janete. Que eu grito”.

 

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