Da no mesmo que nem de graça.
Fazer graça nem sempre as pessoas acabam sorrindo daquele chiste que a elas contei.
Muitas delas, mau humorados senhores ou senhoras, quando perto dessas pessoas passo na rua nas minhas caminhadas sem eira bem beiradas. Como de costume costumo fazer.
Com ou sem meu foninho de ouvido de volta da academia. Tanto naquela rua por onde sempre passo que faz parte do meu passado já que dele não me esqueço. Paro um cadinho e as elas indago sem intenção nenhuma de me promover ou até mesmo trazer para meu consultório pacientes que hoje escassearam. Essa pergunta manjada a eles indago: “ O senhor ou sua esposa ( muitas vezes nem são casados e apenas ficantes), conhecem um bom urologista com quem posso me consultar”?
A mulher coça a cabeça, quase desfazendo o lindo penteado, olha pro pseudo marido e me responde atenciosamente: “ olha meu senhor, meu pai já se consultou com o doutor fulano de tal e ele foi bem atendido no seu consultório. Espera um cadinho que vou lhe mostrar seu nome o qual tenho anotado aqui no meu celular”.
Para não fazer-lhes de trouxas abro o meu celular, mostro-lhes meu site paulorodarte.com. A mulher gentil e atenciosa me identifica como o outro fulano de tal, sorri da minha graça e não me faz cair em desgraca por essa bem humorada pilhéria; essa pegadinha sem maldade que eu, doutor urologista metido a escritor me mostro como uma amostra grátis que os propagandistas de remédios aqui comparecem na minha oficina de trabalho.
Pra mim um dos segredos para não envelhecer, entre outros, é nos mantermos sorrindo sempre mesmo que por dentro choremos. É caminhar sempre mesmo se a preguiça nos intime a ficar na cama acordando mais cedo para ficarmos mais tempo à toa. E na mesma demão, não ir na contramão do trânsito e corrermos o risco de sermos atropelados.
Ainda bem que pra nós a copa do mundo de futebol terminou antes do meio tempo.
Que timinho mais capenga é o nosso…
Se eu fosse convocado a história seria diferente.
Feliz do grandão Halland não me ter pela frente. Eu faria mais gols que ele em toda sua carreira.
Duvidam? Esperem a próxima copa pra verem…
Andando pelas ruas da minha querida Lavras nunca foram vistos tantos exemplos de patriotismo em verde amarelo. Pena que apenas no amarelo das camisas o amor a nossa pátria se manifesta. Na imundície das ruas, na azáfama ensandecida nos pós jogos de futebol entre Corinthians e outros times não menos agraciados pela fortuna que pagam aos seus jogadores, na violência sem medida que vemos em nosso cotidiano, nas brigas sem razão aparente. Esse mesmo patriotismo, uma vez terminada a tal copa, as camisas amarelas não mais são vendidas e cobiçadas pelos torcedores. E o amor de verdade que mostramos em amarelo, se transforma num descaso imenso nesses atos de pura selvageria que presenciamos em coisas como essas citadas dantes.
Ontem, seis desse julho que mal começou sorridente e agora nessa quase metade choramos por termos sido despedidos desse certame futebolístico. Nem as quartas de final chegamos.
Andando pelos passeios de nossa terrinha pude ver lojas vazias e vendedoras amontoando camisetas amarelas na intenção de devolvê-las a onde elas nasceram para atenuar o prejuízo.
Antes essas camisas da cor de canarinhos cantadores eram disputadas a peso douro.
Eram vistas nas vitrines dando uma tonalidade da cor das flores dos ipês que começam a florir.
Primeiro o roxo, a seguir o amarelo e por último o branco a cor mais duradoura linda como as demais.
Não tive coragem de comprar nenhuma camisa amarela.
Nem de pedir emprestada e usar durante os jogos do Brasil.
Não considerem essa minha atitude por falta de amor a pátria.
Nem em sonho desejo me mudar para o país dos vikings passeando pelos lindos fiordes.
Acreditem se quiserem. Não tenho o costume de falar mentiras apenas ficciono nos meus romances.
Foi hoje mesmo o acontecido.
Como sempre aqui apeio em horas tempranas. Antes das seis da manhã já começo a escrever.
Acendo a luz da minha sala. Tomo meu cafezinho expresso e dou de comer aos meus peixinhos.
Espalho uma pitadinha de ração em flocos aos meus queridos amiguinhos aquarianos.
Como sempre dois cascudinhos não se deixam ver no fundo do meu aquário.
Eles estão bem crescidinhos.
Não sei a razão, mas eles são arredios a se deixarem ver, talvez pela timidez já que são mais feiosos que um tatu fora de sua casca dura.
Juro e não desconjuro do que vi hoje de manhãzinha.
Quando aqui cheguei um dos cascudinhos tirava sua camisa amarela e me falou entre borbulhas de ar com sua boquinha aberta. Nunca o vi falar dantes.
“Olha meu senhor velho camarada. Comprei essa camiseta antes da copa pensando que nosso time iria ganhar. Tirei do meu cofrinho mais de duzentas moedinhas. Agora te ofereço por menos da metade que paguei nela.”
Eu, meio assustado com a inusitada prosa, entre desconfiado e magoado pela cara feia que o cascudinho me encarou. Logo eu que trato deles a cada dia e gasto muitas moedas comprando ração, a ele respondi sem nenhuma vontade de comprar a sua oferenda.
“Nem dado fico com ela. Se me der de graça não acho nenhuma graça. Janta ela ao invés de comer meus outros peixinhos”.