Tudo começou num ano tão distante que me esqueci de quando foi.
Não sei precisar datas nem horas.
Mal me lembro do meu aniversário.
Das pessoas chegadas então, minhas lembranças escorrem pelo ralo do tempo.
Uma data especial a tenho guardada aqui dentro. Sete de junho minha amada mãe celebrava o dia do seu nascimento. Não me esqueço do sete de junho. Creio até que já deixei escrita mais de uma crônica versando sobre esse assunto pra mim especial.
Bem me lembro da abertura daquela porteira, uma das que ainda existem na minha rocinha.
Anos depois da minha chegada a minha amada Lavras, cidade que não é meu berço, mas a tenho como minha segunda mãe.
Aqui chegando todo entusiasmado trazendo a minha maleta de médico especialista cheinha de sonhos muitos delirantes. Ainda não caído de amores pela arte de escrever, e sim ávido por começar minha vida profissional. Ambicioso especialista, urologista decano na minha região. Tentando inovar tratamentos de terras dalém mar. Trabalhando como um obreiro pedreiro ajudado por seu servente mourejador. Não tinha noites de bom sono hábito que tenho ainda a me acompanhar.
Na ilusão que todo médico podia ser fazendeiro. Embora pouco entendesse a razão de o leite sair branquinho de uma vaca pretinha. E que vaca só da leite aos olhos do dono que fica de olho nelazinha. E que vaca não da leite de graça pois tem de acordar cedinho. Encher os cochos de comida que não se compra em restaurante. E sim tem de plantar comida e a seguir tem-se de picar cana ou capim verdinho e a gente da cidade fica babando tentando entender o por que de tantos porqueres. Entre eles qual a melhor época de jogar a semente na terra previamente preparada e adubada e adubo custa os olhos da cara.
Naqueles idos anos como eu sofria a pagar as contas da cooperativa e ficava no prejuízo a cada final de mês devendo até a roupa de baixo para não falar cueca.
Era um retireiro a cada ano seguido de uma infinidade de desenganos e eu entrava pelo cano.
Mesmo assim quando abria aquela porteira e ao ver lá embaixo minhas terras lindas e produtivas. Carecendo serem aradas e torná-las férteis a fim de plantar uma rocinha de milho a dar de comer as minhas vacas felizes por terem um touro a ruminar qual aquela seria sua concubina sua amada amante e não lhe plantar um chifre já que ele, o touro, era mocho.
Bem me lembro de quando abria aquela porteira velha como eu ainda não era. Que satisfação me enchia o coração ao ver aquela linda novilha enxertada prestes a parir sua cria num matinho obscuro. A salvo dos predadores que na roça não são como nas cidades. Lá os animais ditos irracionais não têm maldade no seu cerne. Como aqui na cidade o bicho homem vira lobisomem de tão ruim que pode ser.
Minhas recordações não param por aí nessa ou naquela porteira que ao abrir fazia reco reco e por vezes despencava de tão velha e carunchada, carcomida pelos anos.
E eu ali chegava da cidade, levando na caçamba da minha caminhonetinha prateada, tendo de parar para abrir aquela porteira. Sacos e mais sacos de ração a dar as vacas e de lá trazia apenas prejuízo, carrapatinhos miudinhos chamados micuins, muita poeira quando a seca mugia um pozinho amarelinho que me entrava pelas narinas e elas entupiam e me faziam fanho.
Mesmo assim, ao abrir aquela porteira de entrada na minha rocinha, e ela fazia um barulhinho miudinho que não me molestava, bem menos que a azáfama ensandecida do trânsito na cidade. Sentia-me o mais feliz dos mortais, ao mesmo tempo entristecido ao ver meu Border Collie, o serelepe e inteligente cão de nome Paulo Rosa. Ter de ser amarrado ao pé de uma mesa que ficava à porta da casaamarelazul, cenário principal do meu romance Madest (a Moça Alegre do Sorriso Triste).
Foi hoje, pela manhã, bem cedinho, ao voltar a minha rocinha antes prejuizenta. Agora entregue a outro dono.
A partir de segunda feira ela passa a outras mãos. Espero que sejam mãos sábias que a amem como eu.
Dando uma voltinha, bem acompanhado pelos meus dois fiéis e devotados amigos Clo e Robson o pretinho.
Ao entrar na casa amarelazul, construída tijolo por outro igual, portas e janelas, telhado e madeiras de engradamento, grades da varanda, tudo isso, material de demolição da casa do meu saudoso avô Rodartino Rodarte. Uma vez dentro dela vi os novos moradores, um bando de morcegos negros como a noite avoarem ruidosamente sala adentro.
Deixei aquela casa quase em prantos. Fechei a porta que da pra cozinha.
E, num pulo, andando lentamente, seguido dos meus dois cães, abri uma segunda porteira. Sem olhar pra trás, chorei…