Chovia desde a semana passada a gotas graúdas de fazer qualquer um a encharcar inclusive a alma.
“E alma encharca?” Perguntava o menino perguntão a sua pobre mãe. E ela, desconsolada e sonolenta, já que era tarde da noite, de uma noite chuvosa. Respondia, monossilabicamente sim. E depois fechava os olhos com um sinal de dedo por sobre a boca indicando que ele se calasse de vez.
Quiseram os anos que as segundas se transformassem em sextas feiras. E as mesmas sextas feiras se metamorfoseassem em finais de ano. E os mesmos finais de anos passassem lépidos como um casal de seriemas a procura de seus filhotes não vistos desde a semana passada.
E a vida do Tonzezinho espichasse alguns anos a mais.
Até que elezinho assumisse o seu papel de pai meio ausente.
Já que ele, aos quase trintanos amava viver na roça herdada do avo Pedrosão. Pai do seu pai Pedroso. Cuja esposa se chamava dona Maria da Paz. Uma boa mulher que irradiava simpatia e paz por cada palmo de sua diminuta estatura. Mas era uma mulher perfeita com quem se consorciar. Se pairassem dúvidas perguntem ao seu marido Pedroso. Agora morando na cidade de Ijaci. Cujo último desejo seria ser enterrado ali memo. Num cemitério localizado logo atrás de onde moravam. Numa ruela logo por detrás.
O destino do Tom Zé, já adulto feito, sonhos desfeitos de um dia se tornar soldado ou padeiro, médico ou engenheiro, era morar na rocinha do seu adorado pai.
E assim o decidiu. Não sem antes tentar a vida em São Paulo e pelas bandas do seu estado natal.
Mas, como na vida a gente não sabe o que nos espera numa encruzilhada, numa descida ou numa subida arqueada, eis que o futuro reservou para o nosso herói foi viver em companhia dele próprio. Foi passar o resto dos anos que lhes restavam numa casa velha, com mais de duzentos anos em cada tábua do velho assoalho. Todo recheado de buracos de onde saiam morcegos e baratas aos montes. Cujo telhado mais parecia um céu de estrelas. Tais eram as telhas em falta ou quebradas.
Tom. Já apartado da família segunda, pela qual havia empenhado o melhor do que tinha pra dar. Agora vivia solitário. Cujas únicas companhias eram dois cães sarnentos nos quais faltavam dentes. Menos o amor que seus rabinhos balouçantes indicavam o quão eles dois eram apaixonados pelo não tanto velho dono.
A esposa, primeiro amor de sua vidinha singela, deixou a velha casa e escafedeu-se de carona no velho caminhão leiteiro. Com um motorista zarolho e no qual faltava o braço direito e a orelha esquerda. Mesmo assim. Sabendo que o amor não tem cheiro nem sabor. Os dois não se desgrudaram até o fim de seus dias.
E ao pobre e infeliz Tom Zé só lhe restou a solidão. Vivendo como ermitão. A se desdobrar a cuidar de um vizinho já bem andado em anos. De nome Geraldo da dona Nega e um doutor da cidade de Lavras. O qual também amava as vacas e suas crias. Mas nada sabia tantos porqueres. A razão de a vaca ser preta e o leite sair branquinho de suas tetas.
Já este mesmo esculápio, médico experimentado na lida. Metido a escrevinhador. Decidiu dar ao não tão velho Tom a incumbência de zelar por sua linda casa beira lago.
A sua ausência repetida. Já que apenas aos finais de semana tinha o costume de ali dar uma chegadinha. Por vezes só. De outras acompanhado de sua amada Rosa. Sua companheira de tantos tapas e beijos.
Avizinhava-se o final de ano. Luzes riscavam os céus cinzentos.
E como chovia em Minas Gerais no final de dezembro.
O tal doutor estava em visita a Gramado. Uma linda cidade mais ao sul do país.
E o gramado da roça do doutor precisava de novas plantações de grama. Mas a chuvarada não escasseava. Ao revés. Aumentava.
E o pobre Tom precisava mostrar serviço. E a estrada barrenta mal permitia ao trabalhador Tom chegar à casa do doutor.
Sua motoca, de pneus novinhos, ziguezagueava estrada afora. E a chuvadonha não parava nunca.
A data do calendário mostrava quase trinta e um de dezembro. Cadê a ceia de final de ano? Por onde andavam os fogos de artificio? Neca de pitibiriba.
Somente chuva e barro.
Até que o céu azulou.
Mas já era tarde. Na véspera da passagem de ano Tom, tentando chegar à casa do bom doutor, teve a sua motoca afanada por dois garotos fichas mais sujas que pau de galinheiro imundo como fralda mais de dez vezes reutilizada.
E, andando a pé, por mais de duas léguas. De sua casa velhusca a casa do velho doutor.
Acabou tropeçando num pedregulho da estrada cascalhenta. Não só quebrou o dedo do pé maior como. Por infelicidade genuína. Se é que é possível. Acabou fraturando seu enorme coração. Agora reduzido em cacos. A procura de um novo amor.