Traz-me boas lembranças o passado que infelizmente passarinhou.
Usava calças curtas. Joelhos a mostra. Um cabelo lourinho. Não como o do meu netinho Theo. Com aqueles cabelos cacheados. Como talvez usassem os anjinhos. Por um motivo o qual imagino. Não ter. Onde moram os anjos. Uma pessoinha que tivesse o costume de fazer alisamento nos cabelos. Como as mocinhas de cor escura agora usam fazer chapinha em seus caracóis duros e negros como noites escuras.
Naquela cidade onde vim a conhecer o lado de fora do útero de minha saudosa mãe Rute. No banco daquela pracinha de Boa Esperanca. Fazendo pose na fotografia junto à minha querida. Recentemente falecida tia Cida Rodarte. Vestia. A velha foto não me permitia faltar com a verdade. Um terninho azul marinho. Com riscas de giz branco com listas na vertical.
Já que o mesmo retrato em preto e branco. Lá estava eu. O neto mais velho do meu avô Rodartino Rodarte. Que deixou seu mesmo nome ao meu primo Neto. Filho do douto orador doutor Francisco do mesmo sobrenome. Vestindo um terninho. Dizem que as minhas calcinhas curtas foram feitas do mesmo tecido das pernas da calça do velho senhor. O mesmo que deixou seu nome assaz conhecido logo no início da Costa Pereira. Logo a seguir da velha caixa d’água da Copasa. Que até hoje resiste à modernidade dos tempos de agora. De vez em quando um funcionário daquela companhia que cuida não apenas do esgoto como se atreve a nos fornecer água de boa qualidade aos nossos concidadãos ali comparece. Uniformizado ou não. Na intenção de carpir o mato ou limpar o fundo da caixa d’água. Por vezes criticada por cavar valas enormes pelas ruas de nossa cidade. Em horas impróprias e muitas vezes custa a recapear nossas ruas e avenidas. Causando não apenas um transtorno ao trânsito. Assim como à linda imagem de nossa amada cidade dos ipês e das escolas.
Voltando ao meu avozinho materno. Já que o outro. Seu Alberto de Abreu. Vindo de Portugal. Onde ainda se fala um português castiço. Nunca seria demais lembrar-me de quando ali estive. No Santuário de Fátima. A admirar uma lojinha nas proximidades da grande basílica. Na intenção de trazer ao nosso país uma lembrancinha de lá. O proprietário, todo cortês. Ao me ver olhando os souvenirs. Disse-me uma linda frase. Que foi usada como título em outra crônica passada: “o senhor estás a dar de comer aos olhos”?
Estava sim. Só que meus olhos. Devido aos preços nada convidativos dos produtos daquela lojinha acanhada. Nada comeram. Apenas olharam e voltei de mãos vazias ao meu Brasil controverso e controvertido.
Já meu outro avô. Um andejo contumaz e consumido. Só andava pela cidade calçando uma sandália de couro marrom. Com um caderninho na algibeira com vários nomes ali anotados dos seus devedores. E quase nenhures deixava de pagar. Sem juros ou correção monetária o empréstimo feito dantes. Entre eles merece citação o bom cidadão Toninho Marani. Marido da dona Odete. Que inda mora na mesma casa na mesma rua onde morava meu primo Pedrinho dentista. Que infelizmente nos deixou prematuramente.
Na velha casa da Costa Pereira. Pra mim continua. Apesar de bastante modificada. Ainda a considero a rua dos Rodartes. Apesar de outros sobrenomes terem feito parte da história daquela rua bem no centro da minha Lavras.
Era uma residência situada num plano mais alto que o nível da rua. Olhando pra cima nos permitia ver o jardim da vó Belica. Nascida na vizinha Perdões. Terra dos Alvarengas e outros aparentados. Onde ela plantava. No seu jardim suspenso rosas alaranjadas ou cor de rosa. Em canteiros de terra estercada e irrigada pelas lágrimas de pura saudade que ali deixei.
Um dia a mesma morada foi demolida. A exemplo do acontecido a outras residências fronteiriças. Entre elas menciono a dos meus pais e do tio Chico. O velho causídico dono de uma voz possante. De uma oratória brilhante. O qual deixou seu legado ao seu pupilo filho Negis. E fui eu quem a reconstruiu na minha rocinha na zona rural de Ijaci. Tijolos enormes por tijolos. Janela de madeira que inda resiste ao tempo e ao passarinhar dos anos. Telha por telhado. Nisso tudo incluo não somente as velhas portas de duplas faces. E essa mesma casa tinta em amarelo e azul se trata de um dos cenários do meu romance Madest.
Muitos que conheceram meu avô Rodartino Rodarte. Dono de um cartório onde se registravam não apenas nascimentos ou casamentos. Que passou ao meu tio Rui. Que por sua vez. Depois do seu passamento deixou o cartório ao primo Luís Carlos. Dono de não só uma barriga enorme como de um sorriso largo e afável.
Tenho. Cá comigo. Que o sobrenome Rodarte dá no mesmo que Rodar com Arte.
Se por acaso. Por um descaso do ocaso. Aqueles que não tiveram o prazer de conhecer meu avozinho. De diminuta estatura e alta dignidade moral. Digo que ele. Dentro do seu terninho azul marinho. Riscado com riscas de giz branco. Um tanto surrado. Segurando-lhe as calças da mesma cor. Morava um par de suspensórios não sei de qual cor seria.
Já no dia de ontem. Vinte e quatro de outubro. Decidi. Por minha própria conta e pix. Fui até a parte sul da cidade. A uma loja de bom conceito e produtos de qualidade e bom preço. E acabei por comprar um par de suspensórios pretos.
Só não trajei aquele terninho azul marinho. Nem mesmo a camisa de um branco meio encardido que o velho Rodartino Rodarte costumava usar. E nem mesmo a sandália marrom sobre a qual caminhava por toda a cidade.
Ai que saudade me cavouca o peito dos meus pais e avós. Tanto dos Abreus como dos Rodartes.
E como gostaria de Rodartear-me de vez pra sempre. Ou até mesmo Abreuzar-me totalmente.
E me sinto imensamente feliz por ter nascido numa mistura dos Abreus com os Rodartes.