“Uns despertam as quatro. Uns se levantam aos trinta. Uns acordam aos cinquenta. Uns sonham aos setenta e cinco. Por que cada um tem o seu tempo de abrir os olhos e a inspiração não tem hora”.
Já eu acordo antes das cinco. Salto da cama a seguir. Lavo os olhos sonolentos n´água fria. Molho os escassos cabelos na mesma água da pia do banheiro. Enxugo não só a face e os cabelos na toalha dependurada no dia anterior no vidro transparente usada para me enxugar a noite do banho anterior. Antes escovo os dentes. Tudo isso depois de ir à cozinha a fim de ajuntar. No mesmo liquidificador. Hoje foram quatro bananas da roça do meu amigo Tom Zé. Bem madurinhas. Misturo as bananas numa dose farta de Maltodextrina sabor limão. Adiciono meio litro de leite a tudo aquilo. E bebo sofregamente a mistura que lota dois ou três copos de bom tamanho que fica à espera por cima da bancada da pia da cozinha. E volto ao quarto de dormir antes que minha esposa acorde. E aqui estou. No prédio ainda vazio. Ligo os dois computadores. Num dele escrevo textos. Noutro. Defronte a este. Escrevo romances que já conto quase oito.
Antes acendo as luzes do meu aquário. Fecho as persianas na intenção de que o sol da manhã não me ofusque as meninazinhas dos olhos. Verifico se alguns dos meus peixinhos boia semi morto. Ofereço-lhes ração de suas preferências. E eles me agradecem soltando borbulhas acredito sejam de amor.
Quem não conhece meu novo caseiro Tom Zé carece de nele passar os olhos.
Ele, embora não saiba com exatidão quantos anos lhe cavalga as costas imagino serem mais de cinquenta. Pela aparência se me apresentam bem mais.
Ele é meio desleixado com sua pessoinha risonha e bom enxadachim. É madrugador como eu. Só que não aprendeu a escrever corretamente. Nem mesmo entende as minhas crônicas matinais. Se a ele pergunto. Quando nos encontramos na minha rocinha Ijaciense ele logo responde com a sua risada estridente.
“Ah! Não consigo abrir suas múltiplas palavras no meu celular. E por isso não leio as suas crônicas diuturnas.”
“São tantas e tantas que não dou conta de nelas passarinhar meus dois olhos. Tenho muitas coisas a fazer. Ordenhar as minhas duas vaquinhas. Fazer uns queijinhos para vender. Ajudar meu amigo e o seu. O bom Geraldo da dona Nega a tirar leite. Pois, depois que ele foi acometido do mal de Parkinson ele treme tanto que mal consegue amarrar as pernas traseiras de suas vacas. E nem ao menos inserir os bicos da ordenha nas tetas de suas vacas baldeiras. Depois de deixar as suas terrinhas. No lombo da minha moto meio avariada. Volto à minha casa da roça. Onde comecei a gerir o negócio do meu pai Pedroso. Seu velho amigo bonachão como seu filho. Que por acaso sou eu. Ainda tenho de tratar da porcada faminta e grunhenta. Que moram num chiqueiro quase igual fica a minha velha casa. Desde que a mãe de minha filhota linda me abandonou. Não por ter deixado de me amar como eu ainda a amo. E sim por não apreciar a vida na roça. Como o senhor e eu amamos tanto”.
“Só lá pelas nove vou cuidar de sua casa beira represa do Funil. Um local que se assemelha a um paraíso terreno. Já que para o outro ainda não me levaram. E, como o senhor, meu patrãozinho amigo. Tenho verdadeira adoração não só pelos seus dois cãezinhos filhotes. Os quais solto do canil quando lá estou. E os dois pestinhas são doidinhos por você. Principalmente o Clo. Filhote de cão fila que não se desgruda dos seus passos quando caminha com eles. E o Robson. Menos sossegado. E valente como sói ele só. Vacas e cavalos. Dez ou mais vezes maiores que sua altura. Ele os enfrenta como se fosse capaz de morder-lhes as patas de trás. Ou talvez abocanhar-lhes os focinhos”.
Acontece. Como afirmei no parágrafo anterior. Tom Zé vive como eremita ou ermitão. É ele quem lava as próprias roupas. Esquenta a marmita da janta na trempe do fogão a lenha. E leva a tal marmita pra minha casa à beira da represa do Funil.
Uma vez lá as tarefas são tantas que não dou conta de recontá-las.
É um tal de fazer cerca de arame farpado. Remendar os fios enferrujados. Tratar dos meus dois cãezinhos ainda confinados no canzil. Lavar as cacas que eles deixam aos montes num monte de areia acima da parte cimentada. Retirar as pragas do gramado já verde pelas chuvas de final de outubro. Ver se algum peixe foi fisgado pelos seus anzóis de espera à beira da represa. E, antes do meio da tarde Tom Zé retorna na mesma motoca estacionada à sombra de uma árvore ainda nanica. Que num belo futuro vai ensombrar ainda mais o magnífico lugar.
Ontem. Tarde quase morta. Eu me pus na linha do meu celular com aquela pessoinha por quem tenho verdadeira amizade e respeito. Que penso ser ida e retorno.
Foi, do outro lado, uma vozona estridente me disse alegremente que sua solidão estava com os dias contados. Tom Zé estava prestes a arrumar uma nova namorada. Ela é sobrinha de um tal Expedito. Que é proprietário de um bar no Barreiro de Baixo.
Sua nova tampa da panela já tinha uma filha quase formada em medicina. Ainda não havia relado os olhos nela. Nem nela passado a mão boba. Só a conhecia por ouvir falar dos seus predicados e de seu corpo ainda em boa forma. Era mais um sonho que estava prestes a ser consumado. Afinal. Desde que sua mulher o deixou. Tom Zé era tanto marido e mulher.
Desejei-lhe bons augúrios na sua futura relação. Que sua nova tampa de panela coubesse inteira no seu coração solitário e não mais apaixonado pela primeira tampa que acabou destampando a sua vida. Deixando-o a ver navios na sequidão de sua rocinha.
Seja feliz meu amigo novo caseiro Tom Zé. Que a nova tampa de sua panela se encaixe como uma luva no meu dedo o qual uso nos exames de próstata.