O estranho caso de amor entre a flor e o beija- flor

Dizem os apaixonados: “não importa a aparência daquela a quem se ama. O que conta é aquele sentimento que brota dentro do coração. Este independe da feição. Se bonito. Belo ou cheinha de curvas ainda sem celulite. O que importa é o toque de mãos que acontece. Num momento inesperado. O olhar um nos olhos do outro. Mesmo que um dos olhos seja castanho e o outro azul da cor do céu. O beijo que acontece sem aviso prévio. O entrelace de corpos um no noutro. A paixão que une os enamorados. A cama. Seja macia ou dura e cheia de molas quebradas. Onde o amor acontece e repete depois de minutos de descanso. Um dentro do outro. À espera do próximo orgasmo”.

Já há dois dias atrás inseri alguns peixinhos novos dentro do meu grande aquário de água doce.

Ali. Naquela piscina de paredes transparentes. Onde apenas peixinhos nadam silenciosos. E a gente. À mercê deste calorão que faz na parte da tarde. Agora cedo. Neste domingo vinte e três de outubro a temperatura ventosa faz o ar refrescar. No meu aquário não é um lugar apropriado a nadar.

Ao aqui chegar. E acender uma lâmpada que ilumina as águas do meu aquário. Parece que os peixinhos se sentem confortável com a luminosidade. Procurei pelos cascudinhos. Aqueles peixinhos que não são iguais aos outros. Pois, além de feiosinhos não se dão com os demais.

Pois vivem meio escondidos. Ou no fundo. Entre as pedras. Ou grudados às paredes de vidros transparentes. Como a alma do cronista que ora escreve. Ou se esquivando dos meus olhares sedentos de vê-los novamente. Pena que o derradeiro cascudinho comprado em outra loja pouco viveu entre seus pares. E acabou falecendo. Embora seu corpinho amarronzado não tenha sido encontrado. Pena. Não tive como dar a ele um enterro decente. Elezinho agora jaz no meio de seu jazigo perpétuo entre as mesmas pedras onde ele amava ficar.

E este caso entre uma flor amarela e um beija flor de cor verde mata.

Se aconteceu ou não acreditem. Se sim. Se de fato acreditam ele foi verdadeiro. Se não podem crer que foi mais uma invencionice de minha parte. Já que vivo parte dos meus dias de escritor entre a ficção e a invenção. Dando vazão a fertilidade da minha imaginação. Pois viajo não pelas asas de um avião. E sim nestas crônicas que a cada dia. A cada madrugada.  Bem cedo. Me tiram da cama antes de o sol trocar de lugar com a lua. O azul do céu. Ou a cinzentice que prevê a chegada da chuva abençoada que não só colore o sorriso do bom povo da roça. Ou torna emburrados os cidadãos da cidade que recém se preparam para um apetitoso churrasco num dia ensolarado numa praia qualquer.

Sabe-se que beija-flores e flores mantém um caso de amor e paixão.

Esta mesma paixão. Que muitos confundem ao amor. Ambas são parentes perto ou longe.

São sentimentos que tornam o ato sexual mais abestado ou apaixonado. O sexo mais prazeroso. O orgasmo de maior intensidade. O entra e sai um dentro do outro mais repetitivo.

Diferentemente do outro. Que acontece automaticamente. Quando a gente procura uma garota de programa. Que, quando copula fica olhando o relógio apressada à espera do próximo cliente. E não tem o saudável costume de beijar na boca. E enfia o condon em nosso pênis com a própria boca. Que não tem vergonha ou repulsa de enfiar a camisinha em nosso órgão usado tanto para copular como para urinar com a própria boca.

O amor entre as flores e os beija-flores são verdeiros embora efêmeros como as flores do ipê.

O beija-flor oscula a flor não por amor a ela. E sim para sugar o pólen docinho. Na intenção de transferir o seu amor pelas flores a outras iguais.

É um amor diferente do nosso. Entre as flores e os beija-flores não existe o desfecho final chamado sexo. Nem se pode dizer que exista paixão ou emoção naquele veloz beijo daquele biquinho fino e pontudo do beija-flor e as pétalas ou o miolo da flor a ser beijada.

Mesmo assim aquele beijo pode ser chamado de beijo doce. Aquele beijinho doce que destes em mim. Naquele instante mágico. Tão fugaz como o tempo que passa como o vento que no dia de hoje amanheceu e agora amainou.

O amor entre as flores e os beija-flores não são sinais inequívocos que exista paixão. Como aquele que nos une aos lábios da mulher amada.

Mesmo assim ele acontece. Quem não o viu perdeu. Não somente a razão de existir como a beleza que se tinta a natureza. Em sua ampla gama de cores como as do arco íris como sinal evidente do final da chuva que recém despencou do alto das nuvens escuras.

Vários e distintos variantes de amor existem. Entre pais e filhos. Entre avós e netinhos. Entre homens e mulheres. Ou até mesmo entre pessoas do mesmo sexo.

Mas. Pra mim não pairam dúvidas.

Imaginam coisas mais lindas que o brilho do sol. De um céu cinzento. Do brilho das estrelas e da luminosidade da lua que não só enfeita o amor entre os enamorados?

Um dia destes assisti a um estranho caso de amor entre uma flor e um beijaflorzinho recém saído do ninho maternal.

Elezinho mal sabia voar. E foi cair exatamente numa pétala de uma flor amarela.

Salvou-o da morte certa a maciez daquela pétala frágil.

E ainda há quem duvide do amor entre a flor e o beija flor.

Eu nunca. Jamais. Deixarei de ter fé.

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