A moça que aprendeu a colorir a tristeza

Por vezes me indago: “qual seria a cor da tristeza”?

E a felicidade. Qual seja a alegria.  Teriam cores?

A luz do sol é amarela. Nuvens cinzentas são indícios de chuva.

O azul é a minha cor predileta. Trata-se da cor de onde moram meus pais.

O vermelho assemelha-se à profissão que abracei.

Pois em nossas veias e artérias escorre o sangue. Veículo que leva os nutrientes fundamentais ao nosso organismo.

Já o amarelo. Principalmente o desbotado. Trata-se de uma cor que me recorda a imundície. Já que a amarelice de verdade faz parte das cores do arco-íris.

A cor marrom me lembra aquela de um burro fugido. Mas porque razão nomearam pessoas idiotas de burras? Se sem a presença deles não se puxa a carroça. Tão importante nas roças à falta de um veículo motorizado chamado trator.

O verde me lembra a pastaria enverdecida pelas chuvas que tardam a começar por aqui.

O lilás, cor estranha. A qual muitas damas preferem ser a cor de suas vestes de festa.

O roxo me lembra a cor que coloriu meu olho direito depois de um soco bem dado por um falso amigo.

A cor laranja me recorda a laranjada que quase sempre bebo depois que minha querida Zaninha chega. Pois é ela quem espreme meia dúzia delas no novo espremedor de frutas que recém adquiri.

Já o branco! Ah! Como eu amava esta cor que nos vestia as roupas. Nos bons tempos em que o médico era não apenas considerado importante assim como respeitado como hoje quase não mais se vê.

Meu pai costumava dizer: “você, meu filho. Por ter se tornado médico deve trajar. Não só por fora o branco diáfano da honra e da respeitabilidade. Como da mesma forma por dentro abrigar a mesma cor branca. Sempre trate com afabilidade e cordialidade seus pacientes. Pois, quem quer que seja merece o melhor que você lhe pode dar”.

A cor rosa me lembra as roseiras das rosas cor de rosa que minha avozinha Belica plantava no seu jardim suspenso. Onde hoje fica o edifício Rodartino Rodarte.

O preto não indica necessariamente ser racista. Pois tenho. E tinha. Na minha infância perdida. Muitos garotinhos negrinhos como meus melhores amigos.

Já o cinza que me perdoe. Ele, pra mim quer dizer amargura. Tristeza. Escassez de felicidade. De vez em quando minhalma acinzenta-se. Quando fico amargurado sem razão aparente.

já a cor violeta me lembra uma antiga vizinha da Costa Pereira. A sempre prestativa e sorridente Dona Violeta. Esposa de um dentista que um dia ajudou ao meu querido primo Pedrinho Rodarte a extrair meu dente sizo. Não por isso acabei criando juízo.

Seria a cor ferrugem uma variante das cores ou uma cor própria que me faz lembrar de um velho carro enferrujado que tinha no passado. Ou seria um Chevette azul marinho?  Ou até mesmo uma Variante com a qual ia à minha rocinha nos tempos quando pela vez primeira ali finquei seus pneus lamacentos.

Tenho-a como amiga. Antes como paciente. Nos velhos tempos quando aqui cheguei.

Uma pessoinha linda. Agora avó de uma ou duas netinhas. Quando a conheci. Foi no centro cirúrgico quando dentro de um dos seus rins tive de extrair pedras que entupiam seu ureter.

Dadas as complicações inerentes às operações. Naqueles idos anos quando apenas contávamos com o nosso bisturi afiado. Sem o laser que fragmenta cálculos. Sem ainda de posse das cirurgias robóticas que não temos mais como acompanhar as modernidades da urologia.

Esta mocinha simpaticíssima. Agora não tão moça. A qual jamais vi de cenho crispado mesmo nos pós operatórios dolorosos que enfrentamos juntos.

Filha de uma pessoa admirável. Meu ex revisor ao qual de vez em quando submeto meus escritos ao seu tirocínio perfeito. E o professor Antônio Russi ouve a minha leitura calado. Aos quase noventa anos ainda lúcido com foi Machado de Assis. Interferindo num certo trecho da leitura. Dizendo para retirar ou acrescentar uma crase. Ou pontuar mais frequentemente para não tornar o parágrafo com excesso de palavras.

Essa pintora e professora de artes. Da qual tenho um quadro mostrando lírios do campo na minha antessala. Dona de um sorriso que me inspira alegria e jamais tristeza e infelicidade.

Conheço-a há tempos passados. De vez em quando nos encontramos. Antes mais frequentemente na casa dos seus pais. Já hoje nos deparamos caminhando pelas ruas.

Pois ambos somos andejos contumazes. Até parece que ao revés de rodas usamos as solas dos sapatos.

Foi no dia de ontem que me assaltou uma das minhas ideias amalucadas. Como sempre. A cada dia ou a cada manhã quando o sol nasce.

Disponho. Nos arquivos do meu celular. Miríades ou milhares de fotografias da casa que edifiquei à margem da represa do Funil.

E gostaria de registrar aquelas paisagens magníficas. Ou numa pintura ou num retrato feito por um fotógrafo assaz competente.

Foi quando quase sapequei meus neurônios pensando em quem ou como seria o tal quadro. Ou uma reles fotografia ampliada ao máximo permitido.

No dia de ontem. Por problemas de foro íntimo. Consumia-me uma certa melancolia. Também chamada por tristeza.

Foi quando. De novo voltou-me à baila fazer a tal pintura ou fotografia. Ela iria mostrar dois cenários paradisíacos. A minha casa altaneira. E, mais alguns passos abaixo o salão de onde se avizinhava a piscina.

Num átimo de segundos pensei na tal pintora e professora de pintura.

A escolha recaiu na Siomara Russi.

Somente ela conseguiria amenizar a minha tristeza com suas cores vivas. Ninguém melhor do que ela.

Siomara Russi talvez seja a única a colorir. Com suas pinceladas geniais. Toda a beleza daquele cenário da minha roça.

 

 

 

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