Sei que estás aí

“Sei que estás aí. Médico. Enfermeiro. Policia. Bombeiro. Agricultor. Pescador. Padeiro. Soldador.

Sei que estás aí. Por ti. Por mim. Por nós. E isso conforta-me. Não me esqueço aqueles que nos alimentam a alma. Família. Amigos.

Artistas e professores. Mas quando a saúde e a alimentação se forem. Os sonhos serão apenas distorcidos, rumores.

Sei que estás aí. Por ti. Por mim, por nós. E isso conforta-me.

Podes não ter o salário que mereces. E as condições de trabalho que mereces ou a vida que merecemos. Mas manténs-te aí. Por ti. Por mim. Por nós.

As manhãs continuam a despertar. Mesmo que ninguém lá esteja para as contemplar.

Mas tu continuas aí. Por ti. Por mim. Por nós.

Amanhã não sei. Ninguém sabe se vais continuar a ser herói. Se vão continuar a bater-te palmas ou a acarinhar-te. Mas tu manténs-te aí. Por ti. Por mim. por nós.

Acordo-me e sinto-me preso. Enlouqueço. Percorro as ruas vazias e sós.

Regresso destroçado.  Por vezes neste embaraço. Nem sei o que faço. E ainda que não te conheça. Sei que estás aí. Por ti. Por mim. Por nós. E sinto-me reconfortado.

É bem provável que um dia destes seja ofendido. Espancado ou apedrejado. Tu sabe-lo bem e eu também. Mas continuas aí. Por ti. Por mim. Por nós.

As vezes sinto-me perdido, desorientado e depois penso em ti. Talvez te sintas só. Esquecido e desamparado. Mas continuas aí. Por ti. Por mim. Por nós.

Quero que saibas, que apesar da minha loucura, ainda que não ti conheça, nunca irei esquecer-te. Por que sei que estás aí. Por mim. Por nós. Por ti.

Caríssimos médicos. Enfermeiros, farmacêuticos, técnicos e demais colaboradores hospitalares.

Apenas poemas. Com votos de muita saúde.

Autor: Fernando Alagoa.

A isso acrescento.

Não é fácil ser médico. Enfermeiro. Cuidador de enfermos. Não é tarefa fácil conviver em hospitais e logradouros afins.

A isso nomeio coragem e abnegação. Altruísmo e amor ao próximo. Mesmo que o tal enfermo não seja tão próximo. O que geralmente não os são.

Ver de perto a doença. Sentir o hálito fétido das escaras putrefatas. Mudar o decúbito quando este se faz necessário para evitar feridas maiores.

Passar noites em claro quando do lado de fora da janela se faz uma noite escura. Fria ou chuvosa. Trocar dias pelas noites. Esquecer-se das próprias dores em detrimento da dor alheia. Abrir e fechar cavidades usando o fio afiado do bisturi. Muitas vezes sem saber o que vai encontrar do lado de dentro. Seja de um abdome agudo. Ou de uma doença que vem se alastrando lentamente. Suportar a dor de terceiros esquecendo-se do próprio sofrimento.

Desdobrar-se em plantões noite adentro. E, por vezes ter de enfrentar a ira dos acompanhantes por acharem que a espera foi longa demais.

Submeter-se a exigências descabidas recebendo pagos exíguos por salvar vidas ou atenuar dores.

Acarinhar. Ou conter as próprias lágrimas quando o próprio choro tem de ser contido.

Receber maledicências injustas. Quando nos lançam aos ombros culpa maior que não temos. Já que o sistema é falho. Como nós mesmos. Seres humanos pensantes também deveríamos ter o direito de falhar.

E, se por acaso erramos somos sujeitos a processos. Levados às barras dos tribunais.

À mercê dessa mídia faminta de delatar nossos senões. A toda hora assistimos a denúncias.

Muitas vezes levianas e infundadas. E nem sequer nos dão o direito de defesa.

Pois esculápios são acostumados a salvar vidas ou pelo menos postergar a inadiável morte. E não advogar em causa própria. E como custa pesado pagar a um bom advogado nas horas que mais carecemos.

Hoje. Dezoito de outubro, é celebrado o dia do médico.

São Lucas. O nosso santo padroeiro deve estar se retorcendo na tumba. Revoltado não só com o nosso presente assim com o que nos reserva o futuro.

Sei que ainda estamos aí. Falem de nós. Bem ou mal.

Mas, na hora que a dor aperta. Ou que a saúde fraqueja. Quem irá os acudir?

Bem sei que o bom Deus guia os nossos passos. E que ELE continue a nos conduzir. Com mãos seguras e santificadas a cada um de nós. Esculápios. Médicos. Enfermeiros. Profissionais de saúde. Seja o que nosso papai do céu quiser.

Até quando os corcéis negros como urubus espreitarem e nos levarem para o nosso destino final.

Sei que estás aí. Em algum lugar. Que não se deixa ver. Mas bem sei que o Senhor existe. A orar por nós.

 

 

Deixe uma resposta