Nas suas pegadas floresceram além de boas lembranças lírios amarelos

Pessoas passam pela vida e nada mais deixam senão lembranças fugidias. Tristeza e melancolia.

Já outros deixam rastros de exemplos dignificantes e atitudes altruístas. Além de flores e simpatia que nos deixam como legado.

Meus pais foram um exemplo vivo. Muito embora já tenham partido rumo aos céus.

Sempre que me cruzo pelas ruas da minha cidade. Quando alguém me reconhece. Já que trago no semblante alguns traços do meu saudoso pai – Paulo José de Abreu. Aquela pessoa logo me diz: “doutor Paulo. O senhor me lembra o seu pai. Quando ele ainda era gerente do Banco do Brasil. Anos se foram. Na sua sala compareci. Meio avexado perante a sua figura séria. Sempre engravatado. Trajando um terno escuro. Uma camisa branca bem passada. E uma calva já incipiente. Com raros cabelos a percorrerem-lhe as têmporas. Acontece que eu. Recentemente havia aberto um pequeno negócio. Uma lojinha de utensílios domésticos. Expliquei-lhe que carecia de um empréstimo. Como não tinha avalista.  Muito menos imóveis a dar em garantia. Apesar de a quantia ser modesta. Ele apertou-me a mão direita. E pôs a minha disposição muito mais que havia lhe pedido. E não precisava assinar nenhuma nota promissória. Para ele a minha palavra bastava. E daquele banco. Cujo nome se escreve Brasil. Evadi-me descendo as escadas. Com uma emoção imensa a inundar-me o coração”.

Pessoas deixam rastros por onde passam. Algumas celebridades hollywoodianas deixaram a marca de suas mãos ou pés nas calçadas de uma cidade célebre pelos filmes ali construídos. Já outros não deixaram pegadas. Muito embora. Já que eram pessoas singelas. Ilustres desconhecidas. Passaram pela vida e viveram à margem de se notabilizarem. Apesar de terem esparramado bons exemplos de altruísmo e respeitabilidade em seu caminho por este planeta tão lindo. Chamado Terra.

No dia de ontem. Já era tarde. Daqui da cidade saí debaixo de uma chuva copiosa. Na minha nova caminhoneta Oroch. Lindo e valente utilitário da marca Renault. Em direção à minha roça.

Levava no banco de trás uma sela novinha. Todos os apetrechos para usar por cima de um cavalo. Uma bomba recém comprada na cooperativa. Uma manta para ser usada por baixo da sela negra. Na intenção de encontrar meu novo amigo e caseiro Tom Zé. Seu companheiro ao qual devia alguns dias de trabalho fazendo uma cerca de arame farpado. Serviço já ultimado. E o sorridente Giovani Bambu. Com seu ajudante de quem não me recordo o nome. O grande Giovani já foi jogador do Fabril Esporte Clube. Agora feitor de píeres.

Ao chegar a chuva já se transformara num corregozinho feito enxurrada. A estrada. Embora enlameada, não se opôs à entrada da minha Oroch semi nova. Da antiga poeira só restou uma lama escorregadia. Nada que tolhesse o meu desejo de chegar à minha rocinha.

Por falar em gente que deixa rastros apetitosos e floridos por onde passa gostaria de referenciar amigos velhos ou mais jovens que ali colecionei. Desde quando me meti a fazendeiro do asfalto. Sem entender o porquê de muitos porqueres. Mesmo a vaca sendo preta o leite sai branquinho e espumoso de suas tetas. Outra deuda me atazanava. Será que vaca de três peitos dá leite como a de quatro tetas perfeitas? Ou se o pezinho de milho. Quando emboneca. Antes de endurecer a espiga. E ir em direção a um buraco chamado silo. Quando a gente colhe com as mãos desvestidas uma bela espiga de milho ainda com os grãozinhos macios. E enfia a espigona n’água quente. E a saboreia com uma pitadinha de sal fino ou manteiga que se derrete logo.  E morde grão a grão da espiga de milho com uma voracidade e velocidade como aquela que um cão faminto rói o osso ainda com nacos de carne recém egresso do açougue. E como é doce e apetitoso comer aquele manjar da roça. Qual seja uma boa e quentinha pamonha feita na hora. Recheada de nacos de queijo de minas. E um cafezinho coado na calcinha da linda prenda morena com a qual passamos a noite sem dormir. Apenas e tão somente fazendo amor.

Deixando de lado as gostosuras gastronômicas da roça vamos ao que interessa.

Naquele lugar encantado e encantador. Onde canarinhos da terra. Amarelinhos ou pardinhos. Ainda aprendendo a cantar. Ciscam o esterco seco do curral. Em busca de minhoquinhas como tira gosto. Onde saracurinhas ligeiras apostam carreira com as seriemas pernaltas. Sempre em dupla. Onde quando os pés de jabuticabas se enchem de flores. Antes de as flores virarem frutos maduros. Quando a gente sobe no pé. De galhos escorregadios. Quase, naquele dia chuvoso, estatelei-me no chão macio.

Desde quando. Nos idos anos de antanho. Quando comprei aquele naco de pasto sujo. Onde pés de assa peixe ainda floriam. A pastaria era quase um sarandi indevassável.

Sem ainda nada entender da lida na roça. O primeiro professor. Que nem título de mestre possuía. Foi o Geraldo da Dona Nega. E que pessoinha boa. Apesar de sua carantonha fechada.

Ainda hoje de quando em vez lhe faço uma visita.

Ainda merece menção. Ainda longe da extrema unção. Outro amigo de mãos cascorentas e tez tostada pelo sol. O qual. Quando pela porteira de sua casinha modesta ali parava. Ele, Tiãozinho do Aristeu. Marido da dona Vanda. Ao tentar estender-lhe a mão direita ele evitava o contato. Sob a alegação de que. A minha mão fininha. Não muito limpa como ele pensava. Não se sentiria a vontade de ir de encontro a sua. Considerada. Não por mim. Áspera e cascorenta.

Mal sabia ele que eu. Urologista. Metia meu dedo abelhudo no anus de um paciente. Na finalidade de examinar-lhe a saúde da sua próstata.

Ainda merece citação. Não por ordem de importância ou relevância. O meu amigo Roberto. Arrendador das minhas terras e feliz possuidor das vacas que já foram minhas.

O velho Pedroso. Pai do Tom Zé. Palrador de voz possante. De quando em sempre me parava na sua porteira a fim de saber novidades da cidade.

O Zé Peleja. Por mim apelidado assim. Dono de uma frota de tratores nos dias de hoje enricou. Merecidamente.

O Zé Antonho. Veinho como Matusalém. Creio piamente que ele ultrapassou os cem. Já me ensejou não sei quantas e quantas crônicas. E sempre o encontro assentado numa laje de pedra dura. Prestes a fechar os olhos de sono. Não resisto e ali paro. Que prosa boa ele tem.

Antes do corregozinho. Que nos dividia as terras. Antes da represa do Funil engolir o ribeirão. Antes cheio de lambarizinhos de rabos vermelhos. Ariscos como minha égua castanha.

Eu costumava visitar o velho Tião do Cervo. Meio desafeto do seu vizinho Nicanor. O qual visitei na semana passada. Para pelo menos amenizar as saudades de sua pessoa.

O velho Tião. Também conhecido por Tião Bala. Não havia cristão que abalasse a sua simpatia.

Ele possuía uma enorme horta de couve. Batatinhas doces. Beterrabas que, de tão vermelhas tintas de roxo. Abobrinhas verdinhas com listas de branco davam-me água na boca. Mandiocas macias como a alma boa do amigo Tião Bala. Pai do Palhinha que lhe seguiu os passos. De quem compro verduras ao entrar em Ijaci.

E de uma penca de filhos. Netos bis e tataras.

Ontem foi dia de visitar o amigo professor Russi. Um senhor que. Quando tiver de morrer que seja no dia de São Nunquinha. Isso é. Jamais.

Lá encontrei a dona Vera. Mais uma filha do Tião do Cervo.

Foi ela quem me contou um causo que reconto tal e qual.

A pequena rocinha do velho amigo Tião Bala está quase em ruinas. Ninguém mora mais lá. A sua esposa foi levada à Ijaci. Por um dos filhos ou netos.

Foi dona Vera que me confidenciou isso que narro neste momento da minha crônica desse vinte de outubro.

Na horta de couve do seu pai. Hoje transfigurada em puro matagal. Entregue às traças e tiriricas invasoras pragas.

Pela trilha onde meu velho amigo Tião passava. Ao passar pelo mesmo caminho ela percebeu. Que, ao revés de canteiros de verduras ali começaram a florescer lírios do campo. Brancos. lilases. Amarelos e furta cores.

Foi quando me lembrei do velho amigo.

Ele, de tão boa pessoa. Admirado por conhecidos e por aqueles que não tiveram o prazer de nele deitar os olhos.  Acabou deixando pegadas de lírios amarelos e doutras cores.

“Olhai os lírios do campo”. Escreveu o grande escritor gaúcho Érico Verissimo.

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