Como urologista gostaria de alertá-los sobre alguns incômodos que versam sobre uma bolsa chamada escrotal. Onde se alojam os dois testículos. Órgãos precípuos para a reprodução.
Que, na falta de um deles. Por um motivo qualquer. Cujo menino. Logo ao nascer. Um dos grãozinhos. Ou também nomeados de tentos. Ou de ovos. Não os saídos da cloaca das galinhas.
Ou fica no meio do caminho. Lá dentro da cavidade abdominal. E não aparece ao nascer na tal bolsa escrotal. Ou a tal criança é chamada de roncolho. Onde um dos testículos se mostra ausente.
Patologia estudada tanto pelo cirurgião pediátrico ou pelo urologista. Conhecida e reconhecida como Criptorquidia. E a cirurgia, que deve ser realizada em tempo hábil. Não deve tardar mais que após os três anos. Se tanto. Pois o testículo ectópico pode se transformar tanto num órgão obsoleto quanto metaplasiar num câncer dos bagos. De vários tipos que podem. Se não extirpados em tempo oportuno pode levar ao óbito bem antes de o menino virar rapaz.
A bolsa escrotal não tem serventia para levar utensílios variados usados pelas mulheres.
Uma vez assisti a uma cena que quase me fez perder o resto dos cabelos que ainda me restam no alto. Só ainda não fiquei calvo totalmente. Embora digam que é dos carecas que elas gostam mais. Por um singelo motivo. Meu pai era careca. Já meus avós. Tanto dos Rodartes bem como do lado dos Abreus. Eram de certa forma cabeludos. Só que não foram acostumados a deixarem as melenas como as tinhas naquele retrato antigo. Dos bons e saudosos tempos da formatura em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais. Na velha e hospitaleira BH dos velhos anos.
Andando pela rua do centro da minha Lavras amada. Que nesta semana aniversaria. E hoje reinaugura a bela praça doutor Augusto Silva. O celular da minha querida esposa tilintou.
Era dentro de uma bolsa. Não escrotal. Que ela levava dependurada na dobra do cotovelo.
Procuramos. Ela e eu. Dentro daquela bolsa cheia de coisas e loisas. Levamos mais ou menos três horas inteiras para descobrir o esconderijo do tal celular. Reviramos os vários departamentos. Entre escovas de dentes. Entre dentifrícios novinhos. Ainda na caixinha. Entre pentes e serpentes. Entre serpentinas e Colombinas. Entre Pierrôs apaixonados pelas máscaras negras. Entre dinheiro miúdo e graúdo. Entre batons e pós de arroz. Entre tudo e entre todos os objetos obsoletos ali guardados. Acabamos por encontrar o celular. Que, naquele justo momento havia parado de badalar como o sino da igreja matriz. Adivinhem onde ele se escondia? Justamente no bolso esquerdo da calça boca de sino que já usei. E agora não mais uso.
Estamos prestes a encerar a tal semana do saco cheio. O meu encontra-se lotado. Não só pelos bagos, tentos, ou testículos. Como já me cansei de ficar à-toa. Vendo o tempo passarinhar.
Já o amigo da roça. Ao lado da minha. Conhecido como Seu Zé. Um que se cansava de conferir suas nádegas magricelas naquele banquinho tripé. Onde se assentava à hora de tirar leite.
Numa sexta-feira, quatorze de outubro, num dia lindo como este que recém amanheceu sonolento e preguiçoso. Seu Zé teve de deixar suas vaquinhas na saudade.
Acordou à hora costumeira. Tomou uma ducha fria nas águas de uma cachoeira.
Escovou a dentadura novinha com um sabugo de milho duro. Penteou a calva com uma raspadeira de alisar sua égua companheira. Pela qual nutria não só enorme afeição assim como a considerava amante.
E chegou à cidade montado na tal égua acostumada a levá-lo ao cupim. Não só para fazerem sexo como na intenção de Seu Zé. De diminuta estatura desse conta de subir na sela recém comprada em Dores do Campo.
Ao chegar à cidade. Que não era tão distante assim. Deparou-se que. Naquela sexta-feira. Final da semana do saco cheio. Era dia da inauguração da linda praça Augusto Silva. Recém remodelada pelas mãos obreiras da prefeita. E sabiamente orientada por uma paisagista minha amiga. A qual, como eu, é escritora consagrada sobre assuntos paisagísticos e com dois lindos livros já editados. Os quais tenho à minha mão direita. Depois de lê-los mais de uma dezena de vezes.
Alessandra Teixeira dispensa maiores apresentações. Todos são intimados a ver como ficou ainda mais lindo o nosso jardim principal. Motivo de júbilo de não só Lavreanos como de todos que tenham a ventura de por aqui passarem.
Acontece, por motivo de força menor. Meu amigo Seu Zé. De consulta marcada comigo mesmo. Na intenção de dar uma olhadinha na sua próstata que já o atazanava.
Quando no edifício das Clínicas cheguei o elevador empacou. Fiz de tudo que sabia para botá-lo a subir ou descer. Apertei todos os botões conhecidos. Mas todos eles não me reconheceram.
Já passava das seis e meia desta manhã de outubro. Quando quase terminava esta crônica de agora mesmo. Ouvi alguns passinhos pela escada. Eu subi pé ante pé pela escadaria de cor cinzenta.
Já o relógio assinalava sete em ponto aqui chegou bufando de cansaço o amigo antigo Seu Zé.
Depois de oferecer-lhe água fresquinha. Não tão purinha como sualma sem defeitos como a minha. Ele assentou-se defronte a minha poltrona macia e giratória.
Depois de examinar detalhes minuciosos tanto de sua bolsa escrotal. Escrutinando-lhe a dureza e a maciez de sua próstata. Já bem crescidinha. Foi-lhe dado o veredicto.
Nada de mais ou de menor. Tudo estava nos conformes conforme a idade do Seu Zé.
Quando ele daqui vazou. Meio contrariado por não ter achado nenhuma loja aberta. Era final da semana do saco cheio.
Foi quando dele escutei: “ dotô. Eu aqui apeei. Vindo de uma lonjura longa. A fim de me consultar com vosmecê. E o sinhô me tratô tão bem que sô agradicido. Agora, vorto pra roça de saco cheio de bolas inchadas. Cumequié que o povinho desta cidade guenta passa uma semana inteirinha sem fazer nada? Ah! Se continuá cumequitá. Si num miora. Meu saco vai istorá. E vai fazer um baruião dos diabo. Como fuguete em festa de São João. Mi aguardi”.
Confesso também estar de bolsa escrotal lotada. Com apenas dois testículos. Imaginem se fossem três…