Quantas e quantas incontáveis vezes fiz trocas e as desfiz.
E não me envergonho de ter voltado atrás.
Por não entender de vacas e seus bezerros. Pois nada sabia que as ruminantes ruminavam.
E que ruminar não quer dizer pensar como eu.
Nos idos anos quando comprei esta rocinha prejuizenta. De um tal João Pereira. Um baixinho palrador. Que, naquele dia quando, pela vez primeira caminhamos juntos por sua propriedade. Que passou a ser minha nos anos quando aqui cheguei vindo da Espanha.
Quando ainda pensava que todo médico. A exemplo dos meus precursores. Os quais podiam exercer a nossa nobre profissão e ainda administrar fazendas. Tornando-as produtivas ou terras desleixadas. Presas fáceis dos sem terra. Que invadiam fazendas. Fossem elas produtivas ou ociosas. Levando no alto dos braços sem experiência em saber o porquê de o leite ser branco mesmo saindo das tetas de vacas pretas. Nem que bananeira que já deu cacho deve ser poupada e não cortada pela raiz. Pois pés de banana são feitos de uma bananeira fêmea e outra do outro sexo. E se dão tão melhor que maridos que vivem às turras com suas esposas. Como contendores e lutadores a se digladiarem num ringue de boxe. Sem vencidos e vencedores.
E, há anos passados. Creio que em 1985. Por amar os cães e nem tanto os animais que os possuem. Acabei por comprar um pedaço de pasto sujo. Recheado de carrapatinhos micuins. Cá pelas bandas de Ijaci.
Era um rocinha feiosinha. Com uma casinha pequenininha. Um curral caindo aos pedaços. Cochos cheios de teias de aranha. Uma dúzia de vaquinhas tatus com cobra sem pedigree. Sem água potável. Com minas secas quando da estiagem prolongada.
E tive de refazer quase tudo. Reconstrui o curral e a sala de ordenha. Fiz uma casa com os tijolos. Janelas de madeira de lei. Telhas antigas e em perfeito estado. Até uma velha grade de ferro usei na varanda da casa amarelazul. Tudo isso cenário do meu romance Madest.
Naqueles idos anos ainda o rio grande continuava a correr livremente.
Foi depois que cercearam-no a liberdade domando suas águas revoltas com a represa do Funil.
Acabei colecionando não figurinhas de jogadores de futebol.
E sim retireiros que não duravam mais que um ano inteiro.
Era um a cada ano. Embora orasse para que o menos ruim se aquietasse o próprio pedia as contas antes que o final de anos nos desse adeus.
E tome prejuízos! E como levei mantas em catiras mal feitas.
Todos os meus vizinhos de cerca zombavam de minha inocência citadina.
O amigo Geraldo da dona Nega foi o primeiro a me ensinar que o leite é da cor branca mesmo que a vaca seja preta ou malhada.
Ainda hoje o visito menos do que deveria. Pois aquele bom homem não só entende de vacas e suas crias assim como sabe dar valor a uma boa amizade.
Cansado de tomar prejuízos da ordenha das vacas. E de não saber negociar suas crias.
Acabei me desgostando da atividade leiteira.
Embora paguem sorrindo por uma garrafa de cerveja mais de não sei quantos reais irreais.
Acham caro o produtor receber menos de três e cinquenta por um litro de leite gordo de cheio de nata. Conquanto o de caixinha vendido em supermercados não só fura-nos o bolso assim como é puro conservante e tem mais água do que leite.
Foi mais ou menos há trintanos atrás. Desiludido e desgostoso com minha rocinha. Que só me dava prejuízo. Resolvi arrendá-la a um vizinho.
Seu nome ainda é Nicanor. Ele, ainda jovem e disposto. Fizemos um contrato de arrendamento por cinco longos anos.
Ele iria tirar leite das minhas vacas e das deles no seu próprio curral.
Celebrava ainda o nosso acórdão que. As crias que nascessem. Tanto dentro da minha cerca quanto na dele metade dos nascidos seria. Um meu e outro dele.
As minhas não iam até meses depois de nascidas. As dele viraram vacas baldeiras quando fêmeas.
Contrariado com o nosso acordo de cavalheiros a cada semana ia à casa do Nicanor saber noticias não só da sua produção leiteira bem como de sua saúde. Considerávamos amigos de verdade.
Até que, num belo sábado ensolarado. Montado na minha égua charreteira de boa marcha e índole. Por não encontrar o velho amigo dentro ou na varanda de sua residência.
Fui aos fundos da sua rocinha. Bati palmas e chamei pelo Nicanor.
Lá estavam os dois numa moita alta de capim ou seria cana? De podão afiado em punho apeei da minha égua.
Nicanor e sua esposa ajudavam um ao outro.
Na intenção singela e ingênua de elogiar a sua esposa acabei pilheriando no que me dei mal.
Foi exatamente isso que saiu da minha boca aberta: “Nicanor. Você quer trocar de mulher”?
E ele levou a mal o meu encômio brincalhão com estas palavras iradas: “doutor Paulo. Se minha muié estivesse a negócio punha no jornal!”
Não só apeei da minha égua como o enfrentei dizendo: “Nicanor. Eu venho aqui como seu amigo. Disse não por querer fazer a catira. E sim no intuito de elogiar sua esposa. A partir de hoje não mais venho cá. Desconsidere a nossa velha amizade”.
Foi quando dele ouvi estas mesmas palavras raivosas: “doutor. Considere desfeito o nosso contrato de arrendamento. A partir de agora o senhor toma as suas terras de volta”.
E olha que ainda faltavam não sei quantos anos para desfazermos o nosso acórdão.
Já no dia de hoje. Esta quinta-feira feriado em minha Lavras. Aqui estou no Solar Paulo da Rosa.
Fiz uma outra visita mais cordial ao velho amigo Nicanor. Depois de mais de trintanos passados daquele incidente sobre o qual pensava que havia posto um ponto final em nossa amizade.
Pulei uma cerca de arame farpado. Do meu lado carrapatinhos micuins continuavam a atazanar a minha pele fininha e antes sedosa. Já hoje encalombada pelos danadinhos carrapatinhos.
Uma vez dentro da casa do Nicanor encontrei-o envelhecido. Quase como eu. Ele aos oitenta e tantos e eu passados dos setenta.
Não me contive e demo-nos um afetuoso abraço. Conversamos de tudo um cadinho.
E a sua esposa e companheira ao seu lado estava. Como daquela vez há mais de trintanos.
Nem comentamos sobre a troca de mulheres. Tudo aquilo passou como o vento passa.
Se houve dantes a proposta de catira eu a retiro. Cada um fica com a mulher que aprecia ou ainda gosta.
Eu com a minha Rosa. Mesmo que de vez em quando me espeta.
Já o amigo Nicanor fica com a sua companheira de tantos e tantos anos.
Ainda somos amigos. Apesar da proposta indecente e incoerente que a ele fiz.