A mim me indago.
Existe de fato vida depois da morte?
Ou, depois de nosso óbito só nos resta ser enterrado ou cremado.
E, tempos depois de nosso sepultamento, mesmo no velório, pouco ou bastante concorrido caso seja uma figura assaz conhecida. Onde a viúva reparte a falsa dor com outras amantes das horas certas e incertas.
Seja na escuridão da terra. Ou quando viramos cinzas e nos lançam ao mar.
Em pouco tempo os germens famintos nos reduzem a um baú de ossos. E, quando outro aparentado tem de ocupar o nosso andar. Quando o sepulcro se abre o nosso saco preto retirado daquele ataúde apodrecido torna-se o nosso novo baú de guardados.
Repleto dos nossos dejetos. Ossadas brancas. Restos de cabelos. Dentes se ainda os tínhamos.
E ao pó retornamos. A tristeza da viúva não dura mais que uma semana. Já que outrem vai ocupar o lugar à direita ou a esquerda da sua cama. Soberbamente se a herança for mais generosa que o marido defunto foi.
E quanto à existência de céu e inferno? Será que em verdade existem?
Os puros de coração terão lugar cativo no paraíso? E os ruins?
Aqueles que passaram a vida toda ou a sua metade fazendo ladroagens e recebendo propinas irão ao outro lado do céu?
E como seria. Na minha modesta concepção. O lugar chamado paraíso. Seria o mesmo que estar no céu?
Pra mim paraíso rima como felicidade ou alegria. Não uma rima poética como sabem fazer os poetas.
Pois viver no paraíso a precípua maior é estar bem consigo mesmo. Ser alegre mesmo na tristeza. Sorrir mesmo sem vontade como faz o palhaço.
Saber enfrentar as adversidades sem mágoas ou tristezas.
Desnecessário dar a outra face quando se recebe uma bofetada.
Não precisa levar desaforo pra casa. Mas, saber perdoar torna-se um requisito para se viver num paraíso.
E o lugar onde vivemos? Tem de ser obrigatoriamente um recinto luxuoso e opulento?
Ou uma simplesinha casa de sapé pode ser nomeada de paraíso?
Eu, nem sempre me considerei morador de um paraíso.
Desde menino não tive de conviver com a pobreza. Nasci de uma família que me proporcionou bem mais que merecia.
Tive uma infância sadia. Meus saudosos pais se esmeraram em minha educação. Se não fui como eles gostariam foi por falha minha. Não deles.
Creio ter sido na melhor idade que consegui uma noção do que fosse o paraíso.
Não era na riqueza de bens materiais.
Ao revés de amealhar fortuna cercar-se de bons amigos. Ser respeitado não temido. Ser afável no trato e dar bons dias mesmo se do outro lado lhe ignorem.
Há tempos descobri onde mora o verdadeiro paraíso.
Agora mesmo. Desde a manhã desta quarta-feira. Feriado considerado o dia das crianças.
Aqui estou desde cedo. Não se trata de um palácio onde morava a rainha do Reino Unido. Muito menos no Copacabana Palace.
Estou numa rocinha singela. É noite. Lá fora predomina a escuridão.
Oiço o ruído de cigarras cantando. Seria indicio de chuva amanhã?
Do lado de fora de minha casa na beira da represa do Funil dois cãezinhos fazem bagunça.
Ah! São crianças ainda. E hoje é o dia delas. Já fui criança. Agora envelheci.
Este lugar onde passo finais de semana. Confesso poucas vezes aqui pernoitei.
Onde vacas mugem. Onde canarinhos da terra ciscam o esterco de curral. Onde por vezes ouço jacus piando. Onde jabuticabas madurinhas se agarram nos galhos mais finos. E subo no pé cautelosamente para não me esborrachar no chão.
Onde posso ver bem de pertinho árvores tentando sugar a seiva da terra mãe. E um belo lago fronteiriço de onde estou.
Tenho certeza que aqui é o verdadeiro paraíso. Pena que me sinto só.
Ah! Não fosse a inspiração e este computador.
Não sei o que seria do meu eu.