Como dói a bicada de maritaca.
Ontem, pela manhã, o relógio mostrava menos de seis horas. Depois de pernoitar na cada de minha filhota pequena jornalista. Junto a minha amada esposa e uma babá. E noutro quarto dormiam dois dos meus netinhos. O Theo e o Dom. Acordei com um barulho estranho.
Era como se um estampido de arma de fogo me assustasse em pleno sábado.
Tudo se passou naquele condomínio guardado tanto por um porteiro capacitado e um segurança que fazia a ronda montado numa motocicleta percorrendo sempre o entorno do condomínio Montserrat.
Apurei os ouvidos e abri os olhos sonolentos na intenção de onde viera o tal ruído.
Procurei tanto no andar de baixo. Desci pelas escadas íngremes. Estava ainda escuro. Não se via vivalma ou falecida caminhando pelas ruas do lado de fora da casa.
Aquietei-me. Tranquilizei-me até saber de onde viera o barulhão.
Foi quando dei com duas maritacas. Uma desacordada sobre a lona que recobria a piscina.
Já a segunda teve um destino mais trágico.
Elazinha jazia meio morta logo no pátio. Do lado de fora de uma parede de blindex transparente como a alminha das criancinhas inocentes. Que celebram seu dia neste meio de outubro. Eu já fui criança. Doce infância. Cujos verdes anos infelizmente não voltam mais.
A que estava desacordada por sobre a tela que cobria a piscina deu para fazê-la voar.
Meio tonta ela, ao revés de voar pra fora daquela casa imensa. Acabou pousando em lugar equivocado. Logo na prateleira de uma estante. Onde eram guardados enfeites oriundos de países estrangeiros assentados sobre livros trazidos da casa dos meus pais.
Tentei libertá-la com uma vassoura. Ela se recusou a sair de dentro da casa. Parecia, devido à queda, meio desequilibrada. Tonta como se houvesse tomado algumas doses de cachaça.
Tive, usando as mãos desenluvadas, de apanhá-la entre os dedos. Foi quando ela me bicou justamente no dedo usado para fazer o exame de próstata. E como ainda dói a ferida rasa que ela deixou em mim. Fiz um curativo improvisado. Mas de nada adiantou.
Para meu gáudio ela avoou por cima do vidro transparente que recobre a piscina. Já a outra, parece-me ser a companheira ou companheiro. Talvez fosse um casal a chocar no telhado. Ainda permanece no mesmo lugar. Penso eu. Dentro de uma caixa de papelão. Até que ela consiga novamente ir aos ares juntar-se ao seu amor de asas verdes e bico como de um alicate que mordisca e faz dodói.
Introduzi nesta crônica desta segunda, dez de outubro, mês que quase vai a metade. Escrevendo sobre um incidente banal. Quantos de vocês já foram bicados por uma maritaca? Muitos irão responder que sim ou que não.
Na minha meninice peralta. Nos anos da infância passada na roça de umas tias avós. Usava um estilingue feito pelo meu tio avô de nome Júlio. Pai do Jarbas. Da querida prima Jalva. Que já foi morar no céu dos anjos e do criador dos céus e da terra.
Ali, nos tempos de jabuticabas maduras eu e as maritacas. E os marimbondos. Disputávamos as maiores e mais doces. Quando a nossa querela quase ia às vias de fato eu estilingava as maritacas. Em maior número. E mais palradeiras. Quase sempre não acertava as bichinhas aladas. Não era a minha pontaria das piores. Mas na copa das jabuticabeiras era praticamente impossível acertar-lhes o peito verde. Quase da mesma cor das folhas das jabuticabeiras.
E o tempo matraqueou rapidamente.
E eu, de menino artioso e levado da breca. Acabei envelhecendo. Tornei-me doutor sem titulação devida. Pois deve ser chamado de doutor aquele que faz mestrado e doutorado.
Como exemplo cito minha norinha biscuit. Que não só fez mestrado. Doutorado. E hoje é pós doutora em biologia.
Como muitos já conhecem. Já que sou sobejamente reconhecido entre a serra da Bocaina e a antiga ponde do Funil.
O meu passado se passou naquela rua. Que do meu quarto de dormir se pode avistar pelos fundos. A Costa Pereira, naquela casa de numero 152, foi onde morei junto aos meus pais e o meu irmão Fred. E não posso nunca me esquecer da linda Rosinha. Que nos tempos de agora. Por termos passado adiante a casa dos meus saudosos pais. Foi morar mais abaixo. Quase quinhentos metros de distância. Subindo pela Costa Pereira. Dobrando à mão direita. Descendo mais uma vez pela direita. Até chegar à casa. Pertinho do antigo Hotel Califórnia.
Até chegar à casa dela e do seu irmão Rogério. Já que sua tia Cida hoje faz companhia a sua amada irmã Rute. Minha querida e inesquecível mãe.
Antes morava num maravilhoso condomínio. De nome Jardim das Palmeiras.
Já no presente momento vivo meus dias e noites num prédio de nome Leblon.
Aqui pertinho da minha oficina de trabalho. Onde exerço minha dupla militância. Entre médico urologista e escritor. Ainda não consagrado.
Quando abro a janela do meu quarto me deparo com escombros do meu passado. Que jamais há de ser sepultado.
O Colégio Nossa Senhora Aparecida se mostra vazio. Quase em ruínas.
Quando abro a minha janela. Quase sempre em plena madrugada. É quando a inspiração me assopra mais forte. Como uma ventania de agosto.
Vejo. Do lado de fora da minha janela. Não apenas o velho colégio. Como a mesma rua onde me fiz gente. O velho hospital Vaz Monteiro não me deixa mentir. Foi nele que pela vez primeira fiz o teste com o bisturi. E creio. Não somente em Deus Pai. Que tenha sido aprovado no teste drive cortando e cosendo pelves humanas. E os órgãos genitais dos machos.
Do lado de fora da janela do meu quarto de dormir. Se bem que durmo pouco.
Lá fora observo ruínas do meu passado. E com imensas saudades me lembro de todos eles. Seja da rua Costa Pereira. Dos meus tios Rodartes. Do velho hospital Vaz Monteiro.
Jamais, never, poderia me olvidar dos velhos anos que não retornam nunca mais.