Se bandeira desse voto em cada esquina da cidade, em cada cruzamento, não de égua com jumento, ao revés de nascer uma mula ou um burro nasceria outro orelhudo, que troca voto por sacos de cimentos endurecidos ou centenas ou dezenas de ovos chocos.
Pena que, em tempos de caça aos votos, o que se vê pelas ruas são indivíduos, ou desempregados, ou carecendo de alguns trocados, sujeitam-se a empunhar bandeiras, com as caras nada bentas, sorrisos a mostra, calvas reluzentes, como se nada tivesse contra eles nas suas fichas mais sujas que pau de galinheiro, que nunca viu faxina, exalando um tal fedentina de nos fazer tapar as narinas.
Estamos prestes a votar. A minha intenção de voto já foi anunciada na minha última crônica.
Quem ainda não a leu peço, encarecidamente ou com maior cara lambida, que, por favor, leiam, ou no meu site, ou aquela postada no Face: “se pudesse votar votaria num deles.”
As urnas, não funerárias, ditas eletrônicas, bastante criticadas por um candidato a presidente, estão prestes a abrirem as bocas, à espera de que ali, a gente decida quem seria merecedor de nosso voto.
O meu escolhido, como protagonista do texto deste domingo, onze de setembro, é um velho conhecido, poder-se-ia dizer conselheiro, pois foi ele mesmo quem me ensinou, quando ainda pensava que todo médico podia ser fazendeiro, que não só o leite é branco, mesmo saído das tetas de uma vaca preta, que vaca de três peitos não dá leite como a de quatro, que aquele carrapatinho chamado Micuim infesta as pastarias principalmente no período da seca, que gruda na gente como os tais candidatos tentam se desgrudar de seus eleitores, uma vez eleitos, foi epitetado como Zé Bandeira desde quando descobriu que vaca só dá leite aos olhos dos donos.
Ele se escafedeu da sua rocinha prejuizenta aos mais de cinquenta anos.
Um prejuízo enorme lhe foi comunicado em carta precatória por seu gerente de banco.
Zé Bandeira devia, desde o natal passado, por ter feito um empréstimo enorme, além de suas ínfimas possibilidades, e naquele ano não choveu como deveria, a roça de milho não foi adiante, aquelas valas enormes mais pareciam covas de defuntos ainda a espera do cadáver, que acabou não morrendo, com juros e correção monetária, quase meio milhão de reais.
Não teve outra opção senão vender a sua propriedade. Mesmo assim, o velhaco acabou lhe passando um cheque sem fundos. Que ia e voltava ao caixa, e ao pagador tanto faz como tanto lhe fazia. Foi um calote como aquele do cavalo trotão. Que sacodia tanto no galope que o leite por ele levado virava coalhada azeda.
Zé Bandeira nunca teve uma vida fácil. As dificuldades eram tamanhas, mais ainda do que aquela serra alta que da janela do meu consultório se pode admirar.
Mas daquela vez…
Nem se pode imaginar.
Foi num dia de semana que nos encontramos.
Era um dia de céu azul e sol quente o suficiente para fritar ovos no asfalto.
Inúmeras bandeirolas se podiam ver em cada esquina, em locais estratégicos por onde prováveis eleitores passariam.
Na maior parte delas se podia ver um retrato velho conhecido, ou ainda em vias de se conhecer.
Era a fuça de uns paraquedistas de fora tentando abiscoitar alguns bons votinhos. E a que custo? Ignoro quantas notas de duzentos reais.
E o Zé, egresso de uma população sofrida, que tem de acordar ao cantar da galinha, faça frio ou escancare o sorriso do sol, procurar a vaca extraviada recém parida na intimidade de um matinho qualquer. Trazer o novo gabiruzinho pelo pescocinho frágil, sob o risco iminente de levar uma cabeçada da mãe novilha de primeira cria. E ainda constatar, com lágrimas lacrimejantes a escorrerem pelo canto dos olhos, que aquele bezerrinho nasceu e não pode ver a beleza da vida, pois era um nati morto cheio de defeitos graves. E, desde que acabou por passar adiante a sua rocinha, onde nasceu e pela qual tinha a maior estima, não tinha outra opção de sobreviver à dura rotina senão fazendo bicos aqui e acolá.
De porta em porta suplicava por um emprego. Sem formação profissional, só terminou o curso primário e nem chegou à porta do secundário, Zé Bandeira acabou caindo num comitê eleitoral.
Em sua frente uma fila de dobrar quarteirões esperava ansiosamente uma daquelas vagas bastante disputadas.
A função seria a de empunhar bandeiras mostrando as fuças dos candidatos a que cargos fossem.
E Zé, enfim, conseguiu seu intento. O pago não era lá estas coisas e loisas. Pouco mais de um salário mínimo por doze horas intermináveis de ficar exposto nas ruas brandindo a bandeira de um tal candidato.
Quando nos deparamos, olhos nos olhos, cara a cara, confesso ter sentido pena do desafortunado Zé.
A ele perguntei: “e a vida amigo Zé? Como anda”?
Ao que ele me respondeu: “quer mesmo saber, compadre. De mal a pior. Se melhorar piora mais ainda. O candidato, ao qual empenhei não só a bandeira, me deu a sua palavra que, se eleito fosse, me daria um emprego decente no seu gabinete na câmara federal. Pobre de mim. Tenho certeza, pelo que tenho ouvido, que as chances de ele ser eleito são ínfimas”.
As eleições se foram. A profecia do Zé Bandeira acabou se concretizando. O candidato a deputado federal só teve três votos – o dele, da sua esposa e do seu filho maior.
E o infeliz Zé Bandeira acabou por voltar à roça. Na mesma rotina de sempre.
Acordar ao cantar da galinha. Ordenhar a vacada sempre faminta. E, quando tinha tempo, na hora do banho de canequinha, tirar os carrapatinhos Micuins, sanguessugas como a maior parte dos nossos políticos.