Já decidi meu voto.
Embora a idade que me abraça me permita ausentar das urnas faço questão de em ali comparecer no próximo pleito que se avizinha.
Permanecer ausente, ou justificar-me face aos meus mais de setenta anos, não anus, que muitos se confundem quando a eles pergunto quando anos têm, e dizem, um tanto confusos, e não conhecem a minha profissão, de médico urologista que examina a próstata pelo canal por saem as fezes, também conhecida por anus, ou uma mais similar começada por c, de duas letrinhas apenas, a última é u, não irei ajuntá-las por acharem que uso em meus textos palavras de baixo calão, e as pessoas desavisadas respondem: “ eu tenho mais de cinquenta anus”, confusas e perplexas com minha pergunta sorrateira, e eu logo digo: por qual destes seus anus gostaria de ser examinado?
Aí sim. Ou o entrevistado fica de mal comigo ou abre o semblante, mostra um sorriso largo, embora por vezes lhe falte a metade dos dentes, o banguela, que um dia escorregou na pinguela e quase caiu no ribeirão por onde escorre água poluída pelos dejetos humanos, também chamada por esgoto, com a fedentina pior que gambá sem tomar banho desde quando nascido, e, ao entender a minha pegadinha, ou abaixa as calças no meio da rua mesmo, ou vem ao meu consultório meio avexado, por ser aquela a primeira vez que se deixa tocar a intimidade, reconditamente escondida entre as nádegas, um furinho diminuto que dantes, quando comecei na minha especialidade gente singela da roça, pouco acostumada a expor sua bunda, seja em que posição for, logo diz, depois de se despir: “ cuidado. Esse lugar onde o senhor vai enfiar o dedo sempre foi um espaço de saída, qualquer coisiquinha que entre por aí jamais me sucedeu. Pois desde menininho, por mais que meu priminho insistisse, jamais fui afeito a trocar semana. Ora eu por baixo e ele por cima e vice versa”.
Deixando os preâmbulos no capítulo supra escrito, volto os dedos ao tema que realmente lhes interessa. Sobre a escolha de um candidato ao cargo máximo da nação brasileira, aquele que nos vai governar, a partir do começo do ano vindouro.
Trocando em miúdos, em quem vou votar para presidente do Brasil. Pátria que tanto amo. Mesmo com a podridão que exala fedentina nos palácios maravilhosos de Brasília.
São inúmeros postulantes ao cargo de presidente. Sabidamente conhecidos por qualquer um de nós, brasileiros e brasileiras, até mesmo por estrangeiros que enraizaram-se por aqui.
Se vou votar na direita ou na mão esquerda nem às urnas confesso. O voto, pra mim, considero, não apenas um direito inalienável do cidadão, como também cada um deve escolher segundo manifesta a sua vontade. Pois o voto é livre como o voo dos pássaros. Ou como a égua pisca a vagina quando aceita a monta do garanhao ávido por ela.
Se pudesse escolher meu candidato a presidente, talvez as diretrizes que norteariam a minha escolha não recaíssem em nenhum deles.
O meu candidato a mandatário maior da nação teria de ter primeiro suas mãos limpas. Não sujinhas como bundas de nenês.
Teriam de exibir mãos ásperas, acostumadas ao trabalho duro tanto sob a luz quente do sol de dezembro, bem como sob a tempestade que cai, tomara ela chegue mansa como pássaros em voo, ou como minha saudosa mãezinha Rute quando ela cantarolava cantigas de roda ao tentar me pôr a dormir, depois de um dia exaustivo à mercê das minhas peraltices peraltas.
Esse candidato que escolheria teria de ter ficha limpa. Mesmo tendo a mão suja por tanto o cimento em pó antes de entrar numa masseira a ser misturada com areia e cal. No dia de ontem, na minha rocinha, tentando ajudar a um pedreiro sorridente e espirituoso, de nome Claudinho Dj, mestre na sua arte, como tantos deles, que constroem residências suntuosas e, depois da obra terminada nem ao menos são convidados a tomar um cafezinho na linda cozinha novinha, depois de tanto suor derramado, nem ao menos são intimados a jantar com os novos donos da casa, gente que não lhes valoriza o trabalho duro, e muitos pedreiros ganham tão pouco, e mourejam tanto, e chega a sexta-feira, o final de semana se anuncia, e muitos ainda têm de fazer bicos para engrossar a renda, que mal lhes permite mitigar a fome de tantas bocas famintas, pois o sistema único de saúde ainda não os convocou a fazer vasectomia, um bem necessário para controlar a natalidade deste país que não lhes oferece um trabalho digno. E tantos desempregados ainda são alijados do mercado de trabalho, enfrentando filas enormes a espera de uma carteira assinada por um patrão endinheirado, que chega cedo à indústria na intenção de controlar seus funcionários. E ai de um deles que porventura perdeu a lotação lotada, por um motivo de força maior chegaram atrasados ao emprego e foram dispensados por injustas causas.
O pedreiro de colher inteira, experiente profissional das masseiras, que tanto conhece a enxada como a pá. Tem as mãos caludas como gente da roça. E a tez queimada mal protegida por um bonezinho tosco. A pele tostada como pururuca de pele de porco ao ser sapecado. Que trabalha quase sem intervalo à hora do almoço, o qual traz de casa numa marmitinha fria, esquentada não numa trempe de fogão a lenha, e sim num fogareiro improvisado, feito com alguns tijolinhos sobras da construção, que dura anos para ser finalizada, e tira uma sonequinha que perdura menos que a florada dos ipês, semi recostado num alpendre ainda por terminar, e, antes que o patrão chegue tem de mostrar serviço, a colher de pedreiro tem de se redobrar a aumentar a parede feita com blocos de cimento pesados, como lhe é a vida, o tal pedreiro, a exemplo deles cito aquele que me ajudou na roça, o Claudinho, nas horas ociosas ainda é Dj, a montar bancos de cimento pesados, chumbar seus pés numa laje feita na hora, ter de aprumar o prumo, para que os três bancos permanecem alinhados, e o serviço, sem servente de pedreiro, atividade que embora tenha tentado me imiscuir, confesso não ter sido capaz.
Já hoje, dia nove de setembro, nesta sexta-feira que antecede mais um final de semana, amanhã retorno a minha rocinha encantada, junto às vacas e meus cachorrinhos, o Clo e o Robson, agora amiguinhos de fato, vivem juntinhos dentro do novo canil finalizado pelo meu bom amigo Binho, se pudesse manifestar a minha intenção de voto, entre todos os postulantes ao cargo maior de nosso Brasil, não seria nenhures dos candidatos.
Que poluem com suas caras de pau o horário obrigatório a eles destinados. Na mesma hora uso o controle remoto. Ou desligo a televisão ou tento dormir um sono leve. E desperto sempre a mesma hora de sempre. Antes das cinco da manhã. Ou um cadinho mais cedo.
Meu voto confesso seria em alguns destes pedreiros. Gente obreira. Que constroem casas ou edifícios, moradas ou hotéis paradisíacos. Onde jamais poderão passar as férias de verão. Ou descansarem após horas intermináveis de jornadas exaustivas empunhando carrinhos de duas rodinhas apenas. Cheios e massa pesados como lhes é a existência.
Meu voto seria em alguns destes Claudinhos Djs. Que me ajudou a montar bancos de cimento duros. Como as cabeças não menos duras como daqueles políticos de fichas mais sujas que pau de galinheiro.
Agora, antes as tinha, não mais sobre minha cabeça pairam dúvidas ou deudas.
Meu voto já tenho decido. Em algum Claudinho, seja de que nome for. Aos pedreiros, serventes, carpinteiros, pintores, mestres de obras, bombeiros encanadores, eletricistas que não só iluminam as nossas moradas como nos indicam o caminho a seguir nas noites escuras.
A todos vocês a minha admiração sincera. E meu grande abraço de gratidão.